Os pensamentos de Rousseau e Pestalozzi

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Nosso material de apoio não nos deixa dúvidas sobre as ideias pedagógicas do filósofo genebrino Rousseau (1712-1778) e do pedagogo zuriquense Pestalozzi (1746-1827). Ao analisar a importância desses grandes pensadores, constatamos que a Suíça não contribuiu apenas com o aprimoramento e requinte na arte de se fazer chocolate. Antes disso, porém, nos brindou com expoentes na arte de ensinar, unindo a teoria e a prática.

Oliveira (2009, p. 29) permite com que façamos uma reflexão acerca do posicionamento, não apenas dos pensadores suíços, mas também de como a Pedagogia, o processo de ensino e aprendizagem, a escola ou os papéis de aluno e professor são modelados de acordo com as matrizes instituídas por estudiosos do ramo. No caso específico de Rousseau e Pestalozzi, é possível perceber a consideração que fazem a respeito do ensino coligado aos anseios e necessidades do aprendiz.

As visões de mundo concebidas pelos pensadores são de natureza parecida, pois ambos viveram momentos histórico-culturais intensos, tangidos por mudanças de ordem econômica e social que, obviamente, influenciaram em seus pensamentos, tal como o movimento iluminista, que inspira Pestalozzi em alguns pontos e é contestado por Rousseau em outros.

Algo que, sem dúvida, contribui para que possamos ter o total entendimento sobre tais pensamentos e tenhamos a possibilidade de estabelecer diálogo com seus autores é o texto claro e conciso que Oliveira nos apresenta. De modo didático, a autora tece a respeito da vida, da obra, das ideias de Rousseau e, em seguida, promove a mesma sequência ao nos apresentar Pestalozzi. Aqui, seguirei a mesma métrica, afim de apontar as principais corroborações trazidas pelo texto às contribuições dos pensadores suíços.

De acordo com Oliveira, (2009, p.35), Rousseau fundamenta suas concepções sob a “premissa de que o ser humano é bom por natureza, sendo corrompido pela sociedade: é a ideia do homem natural”. O filósofo também nos apresenta a ideia de uma “educação natural na qual as ações do homem não ocorressem pela prescrição de regras exteriores e artificiais, mas sim pelos seus interesses naturais. Somente assim o homem poderia ser o dono de si” (OLIVEIRA, p. 36). Sob esta ótica, o intelecto não poderia ser o centro da educação, pois o homem é também constituído por sentimentos, emoções, instintos e sentidos. Assim, defendia a liberdade do “homem natural”, que se aperfeiçoaria por meio da educação.

A autora ainda acrescenta que o pensador assinalava que a criança está em processo, pois engloba o sentimento e a afetividade e, sendo assim, ela deve ser educada e cuidada desde a mais tenra idade, proporcionando ao homem a felicidade desde criança. “Ele objetivava a educação da criança baseada na liberdade e na plenitude dos sentidos, implicando em uma dependência das coisas e não da vontade dos adultos, criticando a educação elitista”. (OLIVEIRA, 2009, p. 35).

A função principal da filosofia de Rousseau é libertar o homem, e, talvez por isso, ele via como necessária a busca pela retomada da liberdade, sendo que, para tanto, o indivíduo deveria ser orientado ao autoconhecimento. Adepto de uma educação natural, o pensador e suas ideias relacionavam-se a uma percepção otimista do homem e da natureza. Criticava, assim, um ensino baseado na repetição e memorização dos conteúdos.

É importante destacarmos que Rousseau sugeriu um ensino no qual o aluno deve conduzir seu aprendizado por interesse próprio. Segundo ele, a educação também deveria enfatizar a formação moral e política do aluno, e, portanto, o seu objetivo era ensinar a criança a vivenciar e a aprender a praticar a liberdade. (OLIVEIRA, 2009, p. 36).

A criança passa a ser considerada inocente e boa por natureza está no centro da ação educativa que deve guiar-se pelos seus interesses e características próprias. O filósofo acreditava que o docente tinha o papel de iniciar um processo de humanização e também deveria ser um modelo a ser seguido, acreditando que o aluno aprende em contato com o professor. (OLIVEIRA, p. 37).

Libâneo, apud. Oliveira (2009, p 37), destaca pensamentos do pensador zuriquense, como o de que “a preparação da criança para a vida futura deve basear-se no estudo das coisas que correspondem às suas necessidades e interesses atuais”, o de que “os verdadeiros professores são a natureza, a experiência e o sentimento” e, também, que “a educação é um processo natural” fundamentado “no desenvolvimento interno do aluno”.

A seguir, conheceremos as concepções de Pestalozzi, pedagogo continuador do filósofo, que pôs em prática as ideias de seu compatriota, objetivando, segundo Oliveira (2009, p. 28), o desenvolvimento harmônico do aluno. Um dos pontos de convergência entre ambos é a posição contrária ao sadismo pedagógico e a crueldade contra as crianças, atos até então considerados “naturais”.

A autora, que tão bem conduz a tessitura, afim de contribuir para a construção da aprendizagem, uma marca clara do didatismo empregado em sua escrita, vem nos dizer que o pedagogo zuriquense tem, compreende a educação e a explora com a finalidade de desenvolver progressivamente todas as faculdades para que o educando atinja o estado moral, promovendo assim todo o desenvolvimento possível do ser humano. (Oliveira, 2009, p. 39).

Para tanto, observa-se que o pensador segue e amplia os tracejados de Rousseau, propondo uma inversão nos papéis de aluno e professor, assinalando que o ponto de partida para o ensino fosse o interesse e a curiosidade do aluno.

Pestalozzi diz que “a árvore inicia sua existência pela semente e pela raiz, formando um todo conexo de elementos orgânicos”. Isso seria o mesmo que dizer, por meio de uma analogia que “o desenvolvimento do ser humano é gradativo”. Desse modo, “o professor corresponderia ao jardineiro que fornece as condições necessárias para o crescimento das plantas e, assim, possui a função de impedir que obstáculos e dificuldades prejudiquem o desenvolvimento natural do ser humano”. (OLIVEIRA, 2009, p. 39).

O pedagogo contribuiu para a ampliação dos pensamentos do filósofo, principalmente no tocante a aprendizagem, por exultá-la em seu aspecto prático e baseado na experiência sensorial. “O pensamento pestalozziano afirma que a criança deveria discriminar, analisar e abstrair as qualidades dos objetos, e depois se expressar em palavras, permitindo a atividade mental, base do método intuitivo, também conhecido como “lição das coisas”, bastante difundido a partir de então”. (Idem).

Pestalozzi fundou o Internato de Yverdon, no ano de 1805, no qual a estrutura curricular era formada de tal modo que enfatizava as atividades dos alunos, sendo que partia de conteúdos simples para os complexos, assim como do concreto para o abstrato, daquilo que é particular para o geral, do conhecido para chegar ao desconhecido. Nesse contexto, as atividades primordialmente desenvolvidas no internato eram: educação física, canto, escrita, modelagem, excursões ao ar livre e cartografia. (Oliveira, 2009, p. 40).

De acordo com Zanatta, apud. Oliveira (2009, p. 41), com base nas idéias postuladas por esse pedagogo, as escolas da Prússia foram reorganizadas, os métodos pestalozzianos adotados e as escolas normais fundadas para formar novos professores.

Portanto, sabemos que Pestalozzi “não só elaborou seu pensamento pedagógico como testou suas teorias e ideias nas escolas que fundou, e influenciou sistemas de ensino e a formação de professores, expandindo, portanto, todo o legado de Rousseau no tocante à educação.

Ainda de acordo com Oliveira (2009, p. 43) “as novas ideias sempre surgem de reelaborações de ideias anteriores”, por isso é importante que compreendamos as acepções trazidas pelos pensadores suíços, que tanto contribuíram para resoluções de desafios à sua época e que, ainda hoje, trazem resultados para a educação.

REFERÊNCIA

OLIVEIRA, Rosa Maria Moraes Anunciato de. Ensino e aprendizagem escolar : algumas origens das ideias educacionais. EdUFSCar, São Carlos, 2009, p.28-9; 34-43.

PESQUISA

WIKICIONÁRIO. Zuriquense. Disponível em: <http://pt.wiktionary.org/wiki/zuriquense>. Acesso em: 04 mar. 2011.

WIKIPÉDIA. Genebra. Disponível em: < http://pt.wikipedia.org/wiki/Genebra>. Acesso em: 04 mar. 2011.

WIKIPÉDIA. Jean-Jacques Rousseau. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jean-Jacques_Rousseau> Acesso em: 04 mar. 2011.

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