# Versão brasileira: uma reflexão sobre a fragilidade masculina a partir da trilha de &#8216;Corpo Dourado&#8217;

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- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2024-04-27T15:41:57-03:00
- Modified: 2024-04-27T16:02:03-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Publicações

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Por: Paulo Ricardo Zargolin Antoine Lavoisier, o nobre francês, considerado pai da química moderna, disse certa feita: “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Mais tarde, na produção do entretenimento televisivo, acrescentou-se que tudo se copia. Com o advento da globalização, as cópias passaram a ser também uma lei: se fez sucesso acolá, fará aqui. Em 1998, a TV Globo lançou uma telenovela intitulada “[Corpo Dourado](https://globoplay.globo.com/corpo-dourado/t/fqMgx26cv6/)“, que contava a história de Selena, uma moça durona e bruta, mas de bom coração, que nunca se intimidou em fazer trabalho pesado, o que lhe rendia o estranhamento de algumas pessoas por seu jeito rude e porte pouco feminino. Suas cenas eram embaladas pelo hit [Pura Emoção](https://open.spotify.com/intl-pt/track/5RbD3lW3PNIe5VhN9bhdvl), gravado por Chitãozinho e Xororó. Nem a história nem a música eram originais. A protagonista, idealizada por Antônio Calmon, certamente bebeu de um pote de inspirações de Shakeaspeare ([A megera domada](https://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/megera.pdf)) e de Fannie Flagg ([Tomates Verdes Fritos](https://docs.google.com/file/d/0B0AsgeOOM3jZQUhyUFZlZWh3Qnc/edit?resourcekey=0-oyiNjgzsPXPjsd2GJwFHuQ)). Já o som que aludia à personagem é uma versão de [Achy Breaky Heart](https://open.spotify.com/intl-pt/track/2EoIt9vdgFRNW03u5IvFsQ), maior sucesso de Billy Ray Cyrus desde 1992. Ouvindo com atenção as duas edições, percebe-se a disparidade entre o que foi eternizado em inglês e o que, mais tarde, foi expresso em português-brasileiro para uma melhor adequação à mocinha de Cristina Oliveira. Enquanto Cyrius canta a expressão de dor e fragilidade emocional de um homem diante de um término de relacionamento, com destaque para a profundidade de seu sofrimento e o medo de que seu coração não consiga lidar com mais dor; a dupla sertaneja tupiniquim interpreta a descrição de uma mulher enigmática e forte, que possui uma aparência e atitude que intimidam, mas que escondem uma possível paixão, sugerindo-se que ela ainda espera pelo amor e indicando uma mistura de força e vulnerabilidade. Nem mesmo o tema de abertura da obra produzida pelo canal carioca escapa de uma contradição semelhante. E cabe refletir se as escolhas artísticas ao transpor a trilha para o português tenderiam a esconder uma certa fragilidade masculina da época. Senão, vejamos: Em [“Somente o Sol”, interpretada por Déborah Blando](https://open.spotify.com/intl-pt/track/4jcr1kh11IC9SELJSlymdJ), encontra-se a descrição de uma profunda conexão emocional e física entre duas pessoas, com simbolismos de beleza e a continuidade desse amor, evocando sentimentos de anseio e alegria na companhia um do outro, emoldurados pelo ciclo natural de dia e noite, sugerindo um romance que se renova e se intensifica com o tempo. Já em [“I’m Not In Love”, versão original da banda 10cc](https://open.spotify.com/intl-pt/track/5HQEmiV2lKnSO6qa2fsR7x), ouvimos a tentativa do narrador de negar seus sentimentos de amor, insistindo repetidamente que não está apaixonado. Apesar dessa negação, ele demonstra comportamentos contraditórios, como manter uma fotografia da pessoa amada e ligar para ela frequentemente. A música explora a complexidade dos sentimentos humanos e a dificuldade de admitir estar apaixonado, sugerindo uma luta interna entre o que o narrador diz sentir e suas verdadeiras emoções. A adaptação dos referidos temas musicais para o público brasileiro revela, em certa medida, uma escolha cultural consciente que reflete não apenas a linguagem, mas também os valores e a sensibilidade do público local. Esse fenômeno ilustra como a tradução e a adaptação vão além das palavras, envolvendo um diálogo intercultural que ajusta a mensagem original para tocar de maneira mais eficaz o coração e a mente dos espectadores em diferentes contextos globais. Assim, essas transformações e escolhas artísticas podem enriquecer a essência de obras originais, proporcionando novas camadas de interpretação e apreciação cultural. É mais do que uma discussão linguística, é quase química. ______________________________ Indicação de leitura: SELIGMANN, M. [Filosofia da tradução – tradução de filosofia: o princípio da intraduzibilidade](https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/5376/4922) (1998).
