# Evelin

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/04/02/evelin/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-04-02T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-04-15T14:30:07-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Crônicas Zargolinianas, Publicações

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Paulo Ricardo Zargolin A casa ainda cheirava a tinta fresca. As paredes brancas, recém-pintadas, pareciam ansiar por retratos que não vinham. Nem quadros, nem risos. Apenas o eco dos passos dela — e, vez ou outra, os do marido. Casada havia um ano, Evelin seguira o coração até Campinas. O marido, engenheiro de voos altos, parecia cada vez mais aéreo. Na prática, ela vivia só. Sozinha nos dias, nas noites, nas compras, nas ideias. Na solidão dos azulejos e na frieza do sofá novo, o amor que a fizera largar tudo murchava sem alarde. Era professora de Língua Portuguesa. Tinha dom para as palavras, mas andava muda. A escola estadual onde agora lecionava era impessoal. Os colegas, simpáticos, mas apressados. Faltava o café da tarde da mãe. O cheiro de bolo da avó. Os abraços dos tios. E faltava ela mesma. Num sábado, ao limpar a estante que insistia em arrumar, mas nunca terminava, Evelin deparou-se com uma lombada familiar. [James Joyce – Dublinenses. ](https://logosgrafia.com/2026/04/02/dublinenses-uma-critica/)Era uma edição simples, dos tempos em que cursava Letras na Unesp. Ao tocá-la, um calor morno lhe subiu pela pele. Sorriu de leve. Sentou-se no chão. Abriu o livro. Lá estava Eveline. A personagem que, anos antes, lhe causara incômodo e ternura. A jovem irlandesa que limpava a casa e pensava em fugir. Que quis partir com um marinheiro, mas não conseguiu. Que ficou, embora desejasse ir. Evelin releu cada linha com a precisão de quem limpa um espelho embaçado. Não chorou. Mas soube, com uma clareza insuportável: ela estava ficando. Como Eveline. Mas não era obrigada a repetir-lhe o fim. A epifania não foi grandiosa. Foi serena. Como quem percebe que está numa sala escura, embora a porta tenha permanecido entreaberta o tempo todo. Levantou-se. Pegou uma mochila. Não precisava de muito — apenas do que coubesse nas costas e nos planos. Escreveu um bilhete simples e o colou na porta da geladeira: “Não sou Eveline. A casa é sua. A vida, agora, é minha.” Chamou um carro. Desceu com passos leves. Campinas ainda dormia, enquanto o sol desenhava sombras tímidas no asfalto. Na rodoviária, tomou um café preto. Sem açúcar. Na mochila, o Joyce amarelado. No peito, uma saudade boa do que viria. Assim que pôde, embarcou para Jales. Para casa. Para si.
