# Desinteresse comercial

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/04/03/desinteresse-comercial/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-04-03T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-06-29T19:23:41-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: -Reflexões, Crônicas Zargolinianas, Publicações

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Paulo Ricardo Zargolin Tudo começou com uma mensagem do pombo-correio, que dizia: Prezado Roberto Hood, Em virtude de critérios estratégicos perfeitamente razoáveis e nada pessoais, informamos o encerramento de sua conta por desinteresse comercial. Ressaltamos que seu saldo permanece integralmente disponível para retirada, mediante os procedimentos adequados, intuitivos e humanizados. O pombo trazia no peito o brasão da Mercearia Quitada: duas moedas cruzadas sobre um cofrinho rendendo 120%. E aqui preciso defender a Mercearia. O capitalismo é um organismo sensível. Ele depende de circulação. De entusiasmo. De clientes que confundam porcentagem com esperança. Não é culpa da Mercearia se Roberto Hood decidiu interpretar 120% como número. Roberto cometeu a extravagância de calcular o rendimento do Cofrinho Produtivo 120%™. E descobriu o óbvio inconveniente: cashback não é presente; é monogamia financeira. Ele precisa voltar para casa. A Mercearia, zelosa pela biodiversidade do lucro, convocou uma Assembleia Extraordinária no Salão Concêntrico. O salão era redondo. O logotipo era redondo. O discurso era redondo. A responsabilidade, naturalmente, também. No centro da parede, pendia o alvo corporativo: círculos concêntricos em tons de crescimento sustentável. No miolo, a fotografia ampliada de Roberto Hood, sorrindo com a serenidade irritante de quem entende juros compostos. Nada pessoal. O Presidente abriu a sessão: — Senhores, enfrentamos um caso grave de prosperidade autônoma. O Diretor de Sinergia exibiu gráficos: — Ele mantém saldo acumulado. Saldo acumulado não dança. Não interage. Não performa. O Diretor do Cofrinho, quase em lágrimas: — O 120% foi desenhado para gerar engajamento, não patrimônio. Permitam-me esclarecer, como narrador imparcial: o capitalismo não é contra o lucro individual. Ele apenas recomenda que o lucro individual se manifeste de maneira colaborativa — isto é, preferencialmente retornando ao centro. As portas se abriram com teatralidade contábil. O Jurídico entrou carregando um pergaminho verde-musgo. — Notificação do Baceflen — anunciou. — O místico Banco Central da Floresta Encantada. Silêncio respeitoso. O Baceflen aprecia coerência, essa entidade abstrata e inconveniente. O pergaminho foi aberto. Selos reluziam como advertências éticas. — O cliente alega impossibilidade prática de retirar o saldo. Risos discretos percorreram o círculo. — Impossibilidade é subjetiva — ponderou o Diretor de Compliance. — O fluxo é claro: autenticação, validação, revalidação, confirmação, contemplação e, se necessário, reflexão. — A contemplação fortalece o vínculo — completou o Diretor de Engajamento. O Presidente levantou-se. — Não podemos permitir que a matemática se volte contra nós. Tomou o arco cerimonial, de madeira certificada. A corda vibrava com responsabilidade social. Mirou. A flecha atravessou o salão como um relatório anual bem diagramado e cravou-se no olho esquerdo da fotografia. Aplausos. Nada pessoal. — Que conste em ata — declarou o Presidente — que o cliente continua podendo retirar seu saldo. — Desde que compreenda o fluxo. — Intuitivo. A nota oficial foi redigida com ternura corporativa: Nota à Comunidade da Prosperidade Circular A Mercearia Quitada reafirma que o cliente Roberto Hood sempre teve pleno acesso às funcionalidades de resgate. Eventuais percepções de inoperância decorrem das etapas naturais de nosso fluxo sistêmico, desenhado para segurança e harmonia coletiva. O encerramento ocorreu por desinteresse comercial, instituto legítimo e essencial à sustentabilidade do ecossistema. Seguimos rendendo 120% de possibilidades para quem compreende nosso modelo colaborativo. E, demonstrando nosso compromisso com o entretenimento responsável, patrocinamos o reality show mais amado da Floresta: o Big Bosque Brasil. Permitam-me, novamente, defender a Mercearia. Ela apenas protege o sistema. Cliente que gira é virtuoso. Cliente que compreende é imprevisível. Imprevisibilidade gera risco. Risco ameaça o equilíbrio. Equilíbrio não rende 120%. Roberto, alheio à coreografia circular, clicava em “Sacar”. O sistema carregava. Meditava. Respirava. “Aguarde alguns segundos.” Segundos são elásticos na Floresta Encantada. E o capitalismo — moralmente neutro, infinitamente sensível e discretamente armado com arco e flecha — apenas incentiva o consumo responsável. Responsável, claro, para o lado correto do alvo. [](https://i0.wp.com/logosgrafia.com/wp-content/uploads/2026/04/obra-literaria-de-carater-satirico-sem-intencao-de-imputar-fato-especifico-crime-ou-conduta-individualizada-a-pessoas-ou-empresas-reais.-1.png?ssl=1)
