# A Guiana não sumiu

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/04/09/a-guiana-nao-sumiu/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-04-09T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-04-15T14:28:40-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia é pop, Publicações

---

Por: Paulo Ricardo Zargolin A Guiana não sumiu. Ela foi tratada como sempre foi. O vídeo, do Porta dos Fundos, só teve a delicadeza de acelerar o processo. No esquete, um presidente descobre que um país inteiro evaporou e reage como quem perdeu um cupom de desconto. Não há luto, não há espanto, não há sequer curiosidade geográfica. Há um leve incômodo, desses que se resolve com café e assessor. “Guiana… isso fica onde mesmo?” E pronto. Ali está a geopolítica em seu estado mais puro, sem maquiagem, sem fórum internacional, sem PowerPoint: o mundo dividido entre o que interessa e o que pode esperar. A Guiana sempre pôde esperar. Em 2026, a diplomacia aprendeu a sorrir enquanto ignora. Criou palavras bonitas para coisas feias. “Parceria estratégica”, “zona de interesse”, “estabilidade regional”. Tudo muito elegante. Tudo muito vazio. É o tipo de linguagem que permite que um país exista sem jamais ser considerado. Existir, aliás, é um detalhe superestimado. O vídeo canta isso. Literalmente. E o riso vem fácil, porque a música faz o favor de dizer em voz alta o que normalmente é dito em relatórios confidenciais: países sem utilidade clara são, na melhor das hipóteses, decorativos. Na pior, descartáveis. Quando outros países começam a sumir, o tom muda. Não por consciência. Por cálculo. A ausência deixa de ser filosófica e passa a ser logística. Quem produz? Quem compra? Quem sustenta essa fantasia de centralidade? O mundo, de repente, percebe que precisava daquilo que desprezava. É um momento bonito. Dura pouco. Porque logo sobra Tuvalu. E aí acontece o milagre geopolítico: o irrelevante vira imprescindível. O minúsculo ganha voz. O ignorado vira pauta. Não por justiça, claro. Por falta de opção. Respeito emergencial. Desses que desaparecem assim que o problema passa. O presidente, então, tem uma ideia brilhante: reconstruir o mundo à sua imagem. Dar nomes familiares às ausências. Criar um mapa mais confortável. Uma Ouro Preto em território conveniente. Uma cultura sem gente. Um planeta sem alteridade. É o colonialismo sem viagem. Mais prático. Mais limpo. Mais honesto, de certa forma. E então, como num passe de mágica, tudo volta. A Guiana reaparece. Os outros países reaparecem. O mundo se recompõe. E nada muda. Essa é a parte mais precisa do vídeo. Não o absurdo, mas o retorno. Porque o problema nunca foi o desaparecimento. O problema é a indiferença que antecede e sucede qualquer desaparecimento. A Guiana não sumiu. Ela apenas deixou de ser ignorada por alguns minutos. Depois, voltou ao seu lugar natural: o de existir sem ser percebida. E isso, convenhamos, é muito mais estável do que desaparecer.
