# Entre o esforço e a escolha 

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/04/17/entre-o-esforco-e-a-escolha/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-04-17T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-04-15T14:26:46-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Crônicas Zargolinianas, Publicações

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Por: Paulo Ricardo Zargolin Certa feita, eu disse — sem qualquer intenção de me levantar para provar — que o homem só evoluiu até aqui por causa da sua preguiça. E há ideias que não precisam de esforço para se sustentar. O mundo está cheio de gente trabalhando até o limite. Coluna por salário. Sono por sobrevivência. Corpo por dignidade. Nunca foi falta de disposição. Foi falta de escolha. Mas alguém, em algum momento, olhou para o peso e desconfiou. Desconfiou de que nem todo esforço era necessário. De que repetir sofrimento não era grandeza — era atraso. E então inventou a roda. Não para evitar o trabalho, mas para recusar o desperdício. A preguiça, quando acerta, não paralisa. Ela pergunta. E foi perguntando que a humanidade saiu do braço e chegou à máquina, do arrasto ao movimento, do cansaço inevitável ao cansaço escolhido. A civilização não nasceu do amor ao sacrifício. Nasceu da recusa em sofrer à toa. Mas o mundo tem talento para distorcer até aquilo que nos salva. Hoje, o peso continua sendo carregado — só mudou de lugar. Há quem ainda sustente a vida no próprio corpo, porque não teve tempo, acesso ou chance de fazer diferente. E há quem terceirize esse peso durante o dia e o recompre à noite, em parcelas mensais, com música alta e ar-condicionado. A carga vira treino. O cansaço vira meta. O esforço vira estilo. E assim seguimos: transformando necessidade em invisibilidade e escolha em virtude. É uma engenharia curiosa. A humanidade inventa meios de aliviar o corpo — e, em seguida, cria formas sofisticadas de sentir o peso de novo, desde que possa chamar isso de evolução pessoal. No meio disso tudo, a preguiça segue sendo acusada. Mas talvez o erro não esteja nela. Talvez esteja no uso. Porque há uma preguiça que constrói — e outra que dissolve. A primeira olha para o mundo e pergunta: precisa mesmo ser assim? A segunda olha para o pensamento e responde: deixa que alguém faz por mim. “É só falar com o chat.” E, de repente, o que poderia expandir a mente começa a substituí-la. Não se pensa — solicita-se. Não se constrói — recebe-se. Não se atravessa — chega-se. E chegar, sem ter ido, dá uma sensação curiosa de avanço. Mas não é. A preguiça certa não elimina o trabalho — ela elimina o trabalho burro. Todo o resto continua sendo necessário. Pensar continua sendo necessário. Escolher continua sendo necessário. Assumir o que se pensa continua sendo inevitável. A boa preguiça poupa o corpo sem anestesiar a consciência. Ela simplifica o caminho, mas não terceiriza a travessia. Talvez seja isso que ainda nos mantém de pé: não a força de carregar tudo, mas a inteligência de decidir o que não precisa mais ser carregado. E, principalmente, a lucidez de não esquecer que, enquanto alguns aprendem a aliviar o peso, outros ainda não tiveram sequer a chance de escolher.
