# O objeto que não deveria existir

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/04/24/o-objeto-que-nao-deveria-existir/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-04-24T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-04-14T15:04:30-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: O jogo, Publicações

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Magenta! apresenta: #OJogo Capítulo 1 Por: Paulo Ricardo Zargolin Paulinho acordou sem susto. Não foi um despertar brusco, desses que rasgam o sonho ao meio. Foi outra coisa. Como se o sonho tivesse terminado por conta própria — satisfeito, concluído, encerrado com método. Ele ainda estava lá. Não no lugar, mas na sensação. O quarto de hóspedes da avó continuava o mesmo: o ventilador girando com preguiça, a cortina leve filtrando a luz da manhã, o silêncio típico de casa que acorda antes das pessoas. Nada fora do lugar. Exceto ele. Havia algo deslocado. Não no ambiente — nele. Paulinho permaneceu deitado, olhando para o teto, tentando reorganizar o que havia visto. Não era um sonho comum. Não tinha lógica quebrada, nem imagens embaralhadas. Pelo contrário: havia sequência, continuidade, decisões. Ele lembrava. Lembrava de estar em outro tempo. Não sabia dizer como sabia disso — mas sabia. Era tudo mais… ajustado. As pessoas se moviam com uma naturalidade estranha, como se já tivessem resolvido problemas que, para ele, ainda nem existiam. E havia um grupo. Amigos — ele tinha certeza. Conversavam como se se conhecessem há muito tempo. Riam de coisas que faziam sentido. Havia uma mesa. E, sobre a mesa, um jogo. Não um jogo qualquer. Algo cuidadosamente organizado. Cartas? Peças? Regras? Ele não conseguia lembrar exatamente. Mas lembrava da sensação de estar jogando algo importante — algo que não era só passatempo. Era como se o jogo explicasse alguma coisa. Ou escondesse. Paulinho fechou os olhos por um instante, tentando puxar mais detalhes. Foi aí que lembrou. Não do jogo. Do gesto. Em algum momento — ele não sabia quando — as pessoas se distraíram. Foi rápido. Natural. Como se tivesse sido previsto. E ele… Ele guardou a caixa. Na mochila. Os olhos abriram de uma vez. Agora havia um problema. Não um daqueles problemas de criança — dever de casa, horário, bronca. Um problema real. Porque aquilo não podia estar ali. Paulinho virou o rosto lentamente. A cadeira gamer estava ao lado da cama, como sempre. E, sobre ela, a mochila. A mesma de ontem. A mesma de sempre. Mas não exatamente. Havia um volume. Discreto. Reto demais para ser caderno. Rígido demais para ser roupa. O zíper estava levemente tensionado. Como se estivesse guardando algo que não cabia. Paulinho sentou na cama. O coração não disparou. Curiosamente, não havia medo. Havia outra coisa. Reconhecimento. Como se, em algum nível, ele já soubesse a resposta — e estivesse apenas aguardando a confirmação. Levantou devagar. Deu dois passos. Parou diante da cadeira. A mochila estava ali. Silenciosa. Esperando. Se aquilo fosse real… então o sonho não tinha sido um sonho. Paulinho segurou o zíper. Por um segundo, hesitou. Não por dúvida. Mas porque entendia — mesmo sem conseguir explicar — que, ao abrir aquela mochila, alguma coisa começaria. Ou recomeçaria. Ele puxou. (continua)
