# A joia nas mãos

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/05/01/a-joia-nas-maos/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-05-01T11:15:00-03:00
- Modified: 2026-05-01T11:13:37-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Crônicas Zargolinianas, FUNEC, Publicações

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Por: Paulo Ricardo Zargolin Houve um tempo em que eu tinha pouco além de livros, algum entusiasmo e a ousadia dos que continuam estudando quando já deveriam, segundo o mundo, ter parado. Foi nesse tempo que Sonia apareceu. Ao me ver com o anel da primeira formatura, arregalou os olhos e disse, com aquela inocência reluzente que só algumas pessoas preservam: — Nossa! Que otimismo… já está até com a joia nas mãos! Ri. Expliquei que era de Letras, mas havia me lançado numa segunda graduação por fome de saber — ou por inquietação, que talvez seja a mesma coisa. E ali começou uma espécie de parentesco. Sonia, universitária por conquista tardia, estudava como quem corrige uma injustiça antiga. Eu, na mais pura pindaíba, sobrevivia entre xerox, ônibus para Jales e revisões vespertinas. Muitas vezes, era ela quem me dava o dinheiro da passagem para que eu pudesse ficar mais um pouco. Mais um pouco estudando. Mais um pouco pertencendo. Passei a frequentar sua casa. E foi assim que ganhei uma irmã sem ter nascido com ela. Priscila, mas eternamente Pri, para mim e para Sonia. Convivi com a família num daqueles períodos em que a precariedade material convive, misteriosamente, com abundância afetiva. Hoje, anos depois, Sonia me envia a notícia: Pri tomou posse como escrivã da Polícia Civil. Li o termo como quem lê uma carta de família. E me ocorreu que Sonia, sem saber, havia profetizado tudo naquela frase antiga. A joia estava mesmo nas mãos. Só não era o anel. Era o futuro.