# Se eu pudesse voar

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/05/23/se-eu-pudesse-voar/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-05-23T13:00:00-03:00
- Modified: 2026-05-18T09:20:07-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia é pop, Maracangalha, Publicações

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Por: Paulo Ricardo Zargolin [Maracangalha](https://logosgrafia.com/tag/maracangalha-do-sul/) nasce da ausência: uma cidade fictícia onde saudade, silêncio e desejo de voo revelam o que a aparência tenta esconder. Há cidades que nascem de mapas. Outras, de promessas políticas mal diagramadas. Mas há aquelas — raras — que surgem antes mesmo de existir. E eu suspeito, com certa cautela poética, que Maracangalha pertence a esse segundo tipo: o das cidades que começam como ausência. Desde 2024, venho sendo atravessado por ela. Não como quem a inventa, mas como quem a escuta. Maracangalha não foi pensada — foi insinuada. E, desde então, há uma melodia que insiste em acompanhá-la. Não sei se é sua música-tema. Mas sei que, se a cidade tivesse coragem de cantar a si mesma, talvez dissesse algo como: “E se eu puder voar…” Esse verso não é esperança. É denúncia. Porque em Maracangalha ninguém voa. As pessoas permanecem. Presas a discursos, a heranças, a silêncios herdados como móveis antigos que ninguém ousa jogar fora. E ainda assim… há quem sonhe. A canção fala de estrelas que caberiam na mão — e isso, à primeira vista, parece exagero lírico. Mas não é. É o tipo de exagero que só existe onde falta realidade suficiente. Em uma cidade onde o mar é prometido mais do que visto, imaginar estrelas ao alcance dos dedos não é fantasia — é sobrevivência simbólica. Há também algo que me inquieta: “Vou nas asas da saudade te encontrar”. A saudade, em Maracangalha, não é passado. É método. As pessoas se organizam a partir do que perderam, não do que constroem. A cidade inteira parece viver de um futuro que nunca chega e de um passado que nunca foi devidamente encerrado. Talvez por isso essa música — essa possibilidade de voo — me acompanhe desde antes da escrita. Como se o texto não fosse origem, mas consequência. Escrever Maracangalha, afinal, nunca foi um gesto de criação. Foi um gesto de tradução. Traduzir o que não se diz nos corredores da prefeitura. O que se cala nas casas com cheiro de lavanda e saudade. O que se move nos olhos de quem ainda não sabe que está prestes a romper. E, no meio disso tudo, há esse desejo insistente de voo. Não para escapar. Mas para ver. Porque ver, às vezes, exige altura. Distância. Descolamento. E talvez seja isso que a canção propõe, sem dizer: não um voo físico, mas um deslocamento de consciência. Voar, aqui, é perceber. Perceber que há cidades que se sustentam na aparência. Que há afetos moldados pela ausência. Que há silêncios que não são paz; são contenção. E que, ainda assim, alguém ousa sonhar com arco-íris em forma de flor. Isso, em qualquer outro lugar, seria apenas bonito. Em Maracangalha, é perigoso. Porque toda beleza ali carrega o risco de revelar demais. E talvez seja por isso que sigo escrevendo. Não para concluir a cidade. Mas para me aproximar dela sem que ela me engula por completo. Se eu pudesse voar — e talvez eu já esteja voando — não levaria estrelas. Levaria perguntas. E deixaria, em alguma janela aberta, uma luz acesa o suficiente para que alguém, do lado de dentro, finalmente enxergue. [](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-em-series/maracangalha/)Acompanhe a novelinha, [aqui](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-em-series/maracangalha/). [](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-e-pop/)Outros ensaios do mundo pop [aqui](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-e-pop/). [](https://logosgrafia.com/)Volte ao início, [aqui](https://logosgrafia.com/).
