# Maracangalha #04: Os moldes da fraude

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/06/12/maracangalha-04-os-moldes-da-fraude/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-06-12T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-06-19T09:27:09-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia em séries, Maracangalha, Publicações

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Maracangalha Capítulo 04 Por: Paulo Ricardo Zargolin O gabinete do prefeito Agenor cheirava a suor antigo, desodorante vencido e papel molhado. O ventilador no canto gemia, cuspindo ar quente sobre uma planta morta num vaso brilhante demais. Tudo ali era limpeza de vitrine sobre podridão de porão. Agenor estava de mangas arregaçadas e olhos encovados. Apertava os próprios dedos como quem contava pecados que só ele conhecia. Usava uma gravata bege com nó frouxo — dessas que fingem descontração, mas nasceram em curso de oratória política. — Ele quer o contrato pra semana que vem — disse o assessor, sem erguer os olhos. — A licitação nem abriu, Agenor. Nem tem nome pra empresa. — Claro que tem. Tá no nome da irmã dele. Ou da empregada. Tanto faz. Desde que o carimbo esteja certo e o recibo volte assinado. O assessor, um homem magro com a alma já desidratada, esfregava a borda do celular como quem busca uma saída pela tela. — E a orla? — A orla é fotografia, meu filho. É moldura pra campanha. A gente cava um buraco, finca uma estaca, chama a imprensa e diz que o mar tá chegando. Pronto. Ninguém pergunta por que a areia não molha. No canto do gabinete, um porta-retrato com a imagem de Laura ainda criança. O vestido branco, a fita azul, o sorriso hesitante. Agenor mirou aquilo como se visse um documento antigo. Passou os olhos, mas não pousou. — Precisamos pensar no sucessor — disse o assessor, tateando o tema como quem pisa em telhado podre. — Já tá escolhido. — O povo não gosta dele. Agenor ergueu os olhos, com a calma de quem já perdeu o pudor: — O povo nunca gostou de ninguém. Gostar é luxo. Eles votam em quem a gente manda. Até agora, sempre funcionou. O assessor, por fim, calou. A voz engasgou no orgulho, mas não reagiu. Do lado de fora, um carro de som passou testando vinheta: “Maracangalha vai avançar!”. A música vazava pelas venezianas, repetitiva, alegre demais, nojenta, um doce ruim, como se o progresso viesse embalado em plástico colorido. — Essa eleição tem que parecer limpa — disse Agenor, acendendo um cigarro sob a plaquinha de “Ambiente climatizado”. — A sujeira, a gente esconde com gravata. E ficou ali, soltando a fumaça devagar, como quem ensina o próprio veneno a ter elegância. O assessor passou a mão no rosto, como quem tenta acordar de uma ressaca ética. A barba por fazer, o suor na nuca, os botões da camisa apertando o que restava de dignidade. Havia um envelope pardo sobre a mesa, com letras garrafais escritas a caneta: CONFIDENCIAL. Agenor não o abriu. Só passou o dedo por cima, como quem confere o peso do segredo, sem coragem de encarar o conteúdo. — Você já leu isso? — perguntou o assessor, a voz mais baixa que o ar. — Claro que não. — Mas vai assinar? — Claro que sim. No canto da sala, a impressora começou a ronronar um documento. Era como se a máquina soubesse de cor os moldes da fraude: ela cuspia as páginas com pressa, já ciente de onde receberiam o carimbo. Nenhum dos dois foi até lá pegar. O barulho era parte do ambiente. Parte da decoração moral do lugar. Agenor se levantou devagar, foi até o frigobar e tirou uma latinha de refrigerante quente. Abriu com um estalo suado. Olhou pela janela embaçada — que dava pra um muro. Nem céu, nem rua. Muro. Paredão cinza que impedia qualquer ilusão. — Sabe o que me cansa? — disse ele, já quase com ternura. — É ter que fingir arrependimento quando algo vaza. O povo, coitado… se escandaliza todo. Como se já não soubessem que estão dentro de um teatro sujo, pagando ingresso com voto parcelado. [](https://logosgrafia.com/2026/06/05/maracangalha-03-pouca-bagagem-muito-barulho/)Retome o terceiro capítulo, [aqui](https://logosgrafia.com/2026/06/05/maracangalha-03-pouca-bagagem-muito-barulho/). [](https://logosgrafia.com/category/lia-no-pais-da-logosgrafia/)Acompanhe as aventuras de Lia, [aqui](https://logosgrafia.com/category/lia-no-pais-da-logosgrafia/). [](https://logosgrafia.com/)Volte ao início, [aqui](https://logosgrafia.com/).
