# Ana Paula #03

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/06/13/ana-paula-03/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-06-13T17:00:00-03:00
- Modified: 2026-06-09T10:43:11-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Ana Paula, Logosgrafia em séries, Publicações

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Por: Paulo Ricardo Zargolin [Acompanhe Logosgrafia em séries](https://logosgrafia.com/estantes/logosgrafia-em-series/) [Capítulo 3](https://logosgrafia.com/2026/06/13/ana-paula-03/) O ISOLAMENTO O primeiro dia de isolamento começou com uma descoberta humilhante: a casa era grande demais para um homem sozinho. Antes, ele gostava daquele espaço. Os móveis largos, os quadros bem posicionados, a iluminação estudada, tudo parecia confirmar uma espécie de vitória doméstica. Agora, porém, cada objeto parecia ocupar melhor o próprio lugar do que ele. A poltrona continuava poltrona. A mesa continuava mesa. O espelho, infelizmente, continuava espelho. Os amigos não vieram. Mandaram mensagens. “Estamos com você.” Era uma frase bonita, sobretudo porque não exigia presença física. A solidariedade digital tem essa vantagem sanitária: abraça sem encostar, chora sem molhar o ombro de ninguém e desaparece com a mesma delicadeza com que chegou. Ele respondeu a algumas. Depois parou. O celular, antes extensão de sua importância, transformara-se num pequeno altar de abandono com notificações. As manchas avançavam pelos pulsos. Brancas, lisas, disciplinadas. Não pareciam feridas. Pareciam decisões. Tentou comer. Não conseguiu. Tentou dormir. Também não. Tentou convencer a si mesmo de que aquilo era provisório, mas até a palavra “provisório” soou ridícula dentro daquela casa fechada, como um vendedor otimista anunciando guarda-chuva no meio de um naufrágio. Foi ao banheiro. Não precisava ir. Mas homens como ele, quando perdem o controle da cena, procuram o espelho. O espelho sempre fora um funcionário eficiente: devolvia-lhe o rosto certo, o ângulo certo, a versão mais aceitável da mentira. Naquela tarde, o funcionário pediu demissão. Ele parou diante da pia. A luz branca do banheiro não ajudava. Era uma luz sem gentileza, dessas que parecem ter feito curso técnico em revelação de decadência. O rosto surgiu no vidro com pequenas alterações: a pele mais opaca, os contornos menos seguros, a expressão de quem ainda tentava posar para uma fotografia que ninguém queria tirar. Ele se aproximou. O reflexo também. Então o reflexo sorriu. Ele não. — Ih — disse o reflexo. — Deu ruim no protagonista. Ele recuou. O reflexo ficou perto, sorrindo com aquela mesma boca antiga, a boca da festa, a boca do “Boom”, a boca de quem sempre soube transformar a gravidade alheia em entretenimento próprio. — Isso não está acontecendo. — Claro que não — respondeu o reflexo. — Você só está tendo uma reunião de alinhamento com o próprio ridículo. Ele levou a mão à boca, mas parou antes de tocar. Até o susto, agora, precisava respeitar protocolo. — Você é febre. — Também. Mas febre com repertório. — Alucinação. — Possivelmente. Mas, convenhamos, se fosse uma alucinação sua de verdade, eu estaria mais bem vestido. Ele apertou a borda da pia. O reflexo olhou para os dedos manchados. — Cuidado com o mármore. Depois quem limpa? Ah, esqueci. Ninguém quer mais chegar perto do reizinho radioativo. — Cala a boca. — Nossa, começou forte. Terapia cognitivo-comportamental de boteco. Ele respirou fundo. O reflexo suspirou junto, mas com deboche. — Vamos fazer assim — disse o outro. — Eu pergunto, você mente, eu finjo que acredito, e no final colocamos a culpa na infância, no signo ou na falta de vitamina D. Funciona muito na internet. — Eu não vou conversar com um espelho. — Tarde demais. Você conversou com plateias piores. Aquilo o irritou. Não pela frase em si, mas pela precisão. O espelho não parecia inventar. Parecia apenas editar. — O que você quer? — Eu? Nada. Quem quer coisa é você. Quer voltar para ontem. Quer que Ana Paula tenha exagerado. Quer que seus amigos sejam corajosos. Quer que sua mão pareça mão. Quer que o mundo peça desculpas porque seu personagem perdeu o figurino. O nome dela mudou o ar do banheiro. Ana Paula. Branca. Distante. As luvas frias. O aviso. A calma. “Sou uma bomba-relógio… desculpe.” E ele, diante de todos: “Boom.” O reflexo bateu palmas devagar. — Momento inesquecível. Humor de qualidade. Quase um stand-up epidemiológico. — Eu não sabia. — Sabia o suficiente para não tocar. — Ela veio à minha festa. — E daí? Convite não é autorização para invasão, meu anjo contaminado. Ele fechou os olhos. — Eu tentei ser gentil. O reflexo gargalhou. Não uma gargalhada monstruosa. Pior: uma gargalhada social. De salão. De quem segura um copo e destrói alguém com charme. — Gentil? Você tomou as mãos dela na frente dos outros. Gentileza com plateia é quase sempre vaidade fantasiada de educação. — Você está me julgando. — Não. Estou legendando. Ele abriu os olhos. O reflexo estava mais próximo do vidro. As manchas, do lado de lá, pareciam menores. Ou talvez mais elegantes. Aquilo era intolerável. — Você acha isso engraçado? — Acho você engraçado. A doença, não. A doença é séria, pontual, eficiente. Você é que é uma crônica de mau comportamento tentando virar épico. Ele deu um passo para trás. — Você não existe. — Existo mais que seus amigos hoje. E sem mandar emoji. A raiva subiu. Era bom sentir raiva. A raiva era antiga, conhecida, viril. Diferente daquele medo branco, silencioso, que não dava espetáculo e por isso mesmo era insuportável. — Você é só uma parte de mim. — A melhor parte. — A pior. — As duas coisas. Você sempre gostou de pacote completo. O reflexo ajeitou a postura, como se assumisse a condução de um programa vespertino. — Pergunta final da nossa sessão: por que você tocou nela? — Já disse. — Disse nada. Você apresentou defesa de advogado ruim. Ele ficou calado. — Tocou porque ela disse não — continuou o reflexo. — E o não, para você, sempre foi uma afronta estética. Estragava a composição da cena. Uma mulher doente, de luvas, parada longe, dizendo “não posso chegar perto”… que absurdo, né? Onde já se viu alguém não colaborar com a dramaturgia do aniversariante? — Cala a boca. — De novo? Criatividade em fase terminal. — Cala a boca! — Boom — disse o reflexo. Foi baixo. Quase doce. E foi o bastante. O soco veio antes do pensamento. A mão atravessou o espelho com um som seco, feio, sem qualquer beleza cinematográfica. Não houve explosão elegante de vidro. Houve resistência. Houve rasgo. Houve a matéria doméstica mordendo de volta. Ele gritou. O corte abriu fundo. O sangue desceu vermelho demais sobre as manchas brancas, como se o corpo, ofendido por tanta palidez, resolvesse provar que ainda sabia produzir cor. Ele puxou a mão. Os pedaços do espelho continuaram devolvendo o rosto em versões quebradas. Em uma delas, o reflexo parecia assustado. Em outra, ria. Num estilhaço menor, perto da saboneteira, tinha a expressão satisfeita de quem acabara de vencer uma discussão familiar. — Parabéns — disseram os pedaços, fora de sincronia. — Primeiro contato sincero do dia. Ele cambaleou. Apoiou-se na parede e deixou uma marca vermelha, branca, irregular. A casa, enfim, tinha sido tocada pela verdade. Pegou o celular com dificuldade. A tela recusou sua digital duas vezes, como se até a tecnologia tivesse aderido ao isolamento. Na terceira, abriu. Ligou para a emergência. A atendente perguntou o que havia acontecido. Ele olhou para o espelho quebrado. — Corte profundo — respondeu. — Há mais alguém na residência? Ele olhou de novo. Os estilhaços olharam de volta. — Não. Depois acrescentou, sem querer: — Acho que não. A ambulância chegou com sirene. O bairro inteiro ouviu. Cortinas se abriram. Portões eletrônicos rangeram. Cachorros latiram com uma convicção moral que os vizinhos não tinham coragem de assumir. A festa acabara, mas o espetáculo, pelo visto, havia encontrado novo formato. Do outro lado da cidade, Ana Paula estava diante da janela quando a ambulância passou. Não se assustou. Apenas acompanhou o veículo com os olhos. Sabia o caminho. Sabia a casa. Sabia o homem. E, por saber demais, não pediu exatamente cura. Cura era palavra grande para quem ainda mal começara a compreender a própria ferida. Pediu apenas que ele sobrevivesse ao próximo estágio. Porque algumas doenças atacam a pele. Outras atacam a imagem. E há aquelas, mais perigosas, que esperam o homem ficar sozinho para lhe devolver, no espelho, a piada que ele fez do mundo. [](https://logosgrafia.com/2026/05/10/ana-paula-02/)Retome o Capítulo 2, [aqui](https://logosgrafia.com/2026/05/10/ana-paula-02/). [](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-em-series/ana-paula/)Acompanhe a série “Ana Paula”, [aqui](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-em-series/ana-paula/). [](https://logosgrafia.com/)Volte ao início, [aqui](https://logosgrafia.com/).
