# A Ilha #02: A antiga universidade

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/07/13/a-ilha-02-a-antiga-universidade/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-07-13T15:00:00-03:00
- Modified: 2026-07-18T16:45:02-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: A Ilha, Logosgrafia em séries, Publicações

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Por dentro, a antiga Universidade Regional ainda tentava parecer importante. Havia prédios que envelhecem com dignidade. Outros apenas acumulam rachaduras e continuam exigindo respeito. A Universidade pertencia ao segundo tipo. Suas paredes descascadas sustentavam placas antigas com nomes de departamentos extintos, corredores longos demais para qualquer esperança honesta e murais protegidos por vidros quebrados, onde fotografias amareladas mostravam pessoas sorrindo diante de faixas coloridas. Era curioso ver gente sorrindo daquele jeito. Não sorriam por comida, água limpa, antibiótico ou abrigo. Sorriam por formatura, palestra, semana acadêmica, congresso, coisas desse tipo. Naquela época, aparentemente, havia luxo suficiente para que as pessoas se reunissem em salas fechadas e discutissem o mundo antes que ele acabasse por falta de discussão útil. Seguimos pela faixa azul. Ela atravessava o saguão principal, contornava uma escada interditada e seguia por um corredor onde as portas tinham sido numeradas novamente com tinta branca. As antigas salas de aula agora recebiam nomes funcionais: Triagem 1, Espera 4, Regularização, Reorientação, Aptidão Preliminar, Higienização. Higienização ficava no fim do corredor. Antes dela, passamos por salas abertas. Em uma, havia fileiras de cadeiras ocupadas por contemplados em silêncio. Em outra, funcionários de cabelo verde examinavam documentos como se estivessem lendo vísceras. Mais adiante, uma mulher chorava sem fazer barulho diante de uma mesa metálica. Um homem repetia que tinha recebido a mensagem, sim, que estava no aparelho, sim, que devia ter sido apagada por algum erro, sim, que aquilo não podia estar acontecendo, não com ele, não depois de tudo. Um funcionário tocou seu ombro com delicadeza. A delicadeza, em certas instituições, é apenas a forma educada da força. — Próximo grupo — anunciou uma voz pelo alto-falante. Fomos conduzidos a uma antessala ampla, onde doze homens aguardavam em pé sobre marcas pintadas no chão. Havia outra porta, fechada, por onde mulheres passavam em grupos iguais, também em silêncio, também numeradas por uma ordem que ninguém ousava perguntar de onde vinha. A Administração parecia amar a matemática simples: doze corpos eram muitos o bastante para parecer coletivo e poucos o bastante para permanecer contáveis. Um painel na parede exibia instruções: BANHO INICIAL — 20 MINUTOS FORMEM DUPLAS NA ENTRADA DOS CUBÍCULOS CADA DUPLA SERÁ RESPONSÁVEL PELA LIMPEZA COMPLETA DE SEU COMPANHEIRO A HIGIENE É O PRIMEIRO SINAL DE DISPONIBILIDADE Disponibilidade. A Administração tinha um talento especial para usar palavras comuns até que elas começassem a feder. Um dos homens ao meu lado soltou um riso nervoso. — Limpeza completa? Ninguém respondeu. Os funcionários também não explicaram. Certas ordens melhoram quando permanecem um pouco obscuras. A imaginação faz metade do trabalho e ainda se culpa por isso. Fomos separados por uma divisória. Homens à esquerda, mulheres à direita. Não havia pudor naquilo, apenas método. O pudor tinha morrido antes da água encanada, mas continuava sendo invocado em situações inúteis, como um parente falecido que ninguém visita e todos dizem respeitar. Na entrada dos banheiros, retiramos as roupas. Um funcionário recolheu tudo em sacos transparentes, etiquetados com nossos nomes. Vi minha camisa manchada desaparecer como se fosse uma pele antiga. Minhas calças, meus panos, meus bolsos vazios, tudo foi colocado no saco com a indiferença reservada às coisas que já não importam. — Serão devolvidos? — alguém perguntou. O funcionário sorriu. — Nada necessário se perde. Era uma resposta linda, porque não respondia. Entramos. O banheiro era enorme, provavelmente um antigo vestiário. O teto tinha infiltrações, mas as lâmpadas funcionavam. Havia vapor no ar, vapor de verdade, subindo dos chuveiros como uma aparição indecente. Por um instante, os doze homens pararam. Ninguém disse nada. A água caía. Caía. Não em gotas contadas. Não em fios miseráveis escorrendo de canos clandestinos. Caía com uma generosidade quase obscena, batendo no chão, espalhando som, levantando cheiro de pedra molhada e ferrugem quente. Eu tinha lido sobre água assim nos caches antigos. As páginas salvas em servidores quebrados descreviam banhos longos, duchas fortes, banheiras, piscinas, praias, gente reclamando da temperatura como se o mundo tivesse sido criado para acomodar caprichos. Eu achava que era exagero. Antigamente, tudo parecia exagero: comida em excesso, luz acesa sem necessidade, dentes brancos, animais de estimação tratados como filhos, filhos tratados como investimentos, adultos tristes com ar-condicionado. Mas a água existia. E estar diante dela era quase uma ofensa aos mortos. — Duplas — ordenou o funcionário. Foi assim que conheci Brenner. Ele estava à minha frente, magro, alto, com olhos muito abertos. Devia ter mais ou menos a minha idade, embora idade, depois da guerra, tivesse se tornado uma opinião do rosto. Alguns nasciam velhos. Outros permaneciam jovens por falta de ocasião para amadurecer direito. Os olhos de Brenner tinham um verde improvável, quase deslocado daquele mundo de poeira. Não era o verde dos funcionários. Não era tinta, nem marca, nem aviso. Era um verde que parecia ter sobrevivido por conta própria, escondido no rosto de alguém que ainda não sabia o que fazer com tanta esperança. — Brenner — disse ele, oferecendo a mão. Apertei. — Você parece feliz. Ele tentou disfarçar. — Fui contemplado. — Percebi. — Não é pouca coisa. — Nunca é. Ele olhou para os cubículos. Eram espaços estreitos, separados por paredes baixas, sem porta inteira. Privacidade bastante para produzir vergonha, pouca o bastante para impedir liberdade. Um desenho eficiente. — Mas isso aqui é exagero — disse ele, mais baixo. — O banho? — Ter que… você sabe. — Não sei. Ele me olhou com irritação. — Esfregar outro homem. Havia sinceridade em seu incômodo. E medo também. O medo costuma vestir convicções quando precisa circular em público. Peguei a pedra de sabão entregue na entrada. Era áspera, irregular, pesada. Tinha cheiro de cinza e alguma tentativa antiga de limpeza. — De onde nós viemos, Brenner, sexo virou maldição — eu disse. — Desejo virou denúncia. Corpo virou prova. Preferência virou luxo. Ninguém mais se importa com o que alguém sente, desde que alguém possa ser punido por sentir. Ele ficou quieto. A água continuava caindo. — E, sinceramente — completei —, estar limpo de verdade me parece uma dádiva maior do que fingir pudor neste açougue perfumado. Brenner respirou fundo. — Você fala estranho. — É a fome. Ela melhora o vocabulário de algumas pessoas e piora o caráter de quase todas. Ele riu. Pouco, mas riu. Entramos no cubículo. A água bateu primeiro nos meus ombros e quase me derrubou por dentro. Não foi emoção. Emoção era palavra pequena. Foi como se meu corpo, traído por anos de poeira, suor antigo, medo seco e noites mal dormidas, reconhecesse uma língua que eu não sabia mais falar. Brenner fechou os olhos. A resistência dele começou pela postura. Ficou rígido, braços junto ao corpo, queixo alto, como alguém prestes a defender uma ideia diante de uma plateia invisível. Mas a água não discutia. A água não argumentava. A água apenas caía, e sua queda tinha uma autoridade mais antiga que qualquer doutrina. — Vira — eu disse. Ele virou. Passei a pedra áspera de sabão entre as mãos até levantar uma espuma pobre. Depois comecei por suas costas, com cuidado. Havia ossos demais ali, cicatrizes pequenas, manchas de sol, sinais de coceira antiga, marcas que poderiam ser de trabalho, briga ou apenas vida. Brenner estremeceu. — Está machucando? — Não. Continuei. O sabão fazia seu trabalho sem pedir autorização moral. Meus dedos percorriam o necessário, e o necessário, naquele momento, era quase tudo. Atrás do pescoço. Ombros. Costelas. Braços. A pele, antes tensa, foi cedendo como uma casa que abandona a pose de ruína e admite ainda ter cômodos. Ele soltou um som baixo. Depois outro. Então prendeu a respiração, envergonhado por ter sido ouvido por si mesmo. — Desculpa — disse. — Pelo quê? — Nada. — Então não peça desculpa ao nada. Ele já recebe demais. Brenner olhou por cima do ombro. Os olhos dele estavam diferentes. Não felizes. Felicidade seria uma palavra vulgar para aquilo. Havia ali uma esperança pequena, escondida no canto, como um animal que sobreviveu dentro de um armário. Ele quis dizer alguma coisa. Eu vi a frase chegar até a boca e morrer antes de nascer. Aproximei o rosto de sua orelha esquerda. Não sei por quê. Talvez porque certas confissões não precisem ser ouvidas para serem acolhidas. Talvez porque a água, naquele cubículo, tivesse suspendido por alguns minutos a legislação miserável do mundo. Beijei sua orelha, de leve, como quem sela uma carta que não será enviada. E sussurrei: — Que na Ilha você possa ser feliz sendo quem você é. Brenner fechou os olhos. Não gostava de homens. Pelo menos era isso que eu sabia sobre mim até aquele banho. Mas Brenner tinha uma esperança no canto dos olhos, e era o primeiro banho em anos. Há circunstâncias em que o corpo de alguém não pede desejo. Pede absolvição. Depois foi a vez dele. Suas mãos começaram desajeitadas, quase ofendidas pela própria função. Mas logo entenderam a tarefa. Havia zelo em Brenner, uma delicadeza que ele provavelmente escondia de todos, inclusive dele. Lavou minhas costas como quem limpa uma coisa resgatada dos escombros. Então deixamos que o sabão e a água fizessem seu trabalho. Não falamos mais sobre o que fizemos. Os vinte minutos passaram como passam as únicas coisas boas: rápido demais para serem justas. Um apito soou. A água parou imediatamente. Esse foi o verdadeiro fim do banho. Não quando terminamos de nos lavar. Não quando nos afastamos um do outro. Não quando o vapor começou a baixar. O banho acabou quando a Administração demonstrou que até a abundância tinha dono. Recebemos toalhas grossas, brancas, dobradas em quadrados perfeitos. Nenhum de nós sabia direito como usá-las sem parecer indigno delas. Secamo-nos em silêncio. Brenner evitava meu rosto. Não por arrependimento. Por medo de que eu tivesse visto demais. As pessoas temem mais ser vistas do que ser tocadas. O toque ainda pode ser explicado como acidente, ordem, necessidade. O olhar não. O olhar acusa porque reconhece. Antes que nos vestíssemos, porém, a porta do vestiário se abriu. Dois funcionários de cabelo verde aguardavam do lado de fora. — Sigam para o balcão. Brenner empalideceu. Talvez tenha pensado que sabiam. Talvez tenha imaginado câmeras, sensores, relatórios, alguma categoria administrativa para aquilo que não havíamos feito e, justamente por isso, parecia enorme. Eu não senti medo. Ou senti e não respeitei. Depois de vinte minutos de água quente, sabão áspero e uma frase dita no ouvido de alguém, certas ameaças perdem a imponência. A Administração podia ter listas, chuveiros, faixas azuis, funcionários e balcões. Podia até ter a Ilha. Mas por alguns instantes, naquele cubículo, Brenner tinha sido apenas Brenner. E eu não estava me importando com mais nada. Acompanhe A Ilha, [aqui](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-em-series/a-ilha/). Acompanhe mais séries, [aqui](https://logosgrafia.com/estantes/logosgrafia-em-series/). 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