# A Ilha #03: Os uniformes

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/07/14/a-ilha-03-os-uniformes/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-07-14T15:00:00-03:00
- Modified: 2026-07-18T16:44:32-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: A Ilha, Logosgrafia em séries, Publicações

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O balcão ficava logo depois dos banhos. Não era exatamente uma recepção, nem uma enfermaria, nem um depósito. A antiga Universidade tinha dessas indecisões arquitetônicas. Os espaços pareciam ter sido criados para uma função, abandonados, remendados, rebatizados e finalmente entregues à Administração, que possuía o raro talento de transformar qualquer sala em corredor de obediência. Brenner respirou aliviado quando percebeu que ninguém nos esperava com algemas, relatórios ou perguntas. Eu vi o ar voltando ao peito dele. Era quase bonito. Quase, porque nada ali tinha permissão para ser bonito por inteiro. — Está tudo bem — murmurei. Ele fingiu não ouvir. Algumas pessoas preferem salvar a própria dignidade fingindo surdez seletiva. Era um direito. Um dos poucos que ainda não tinham sido regulamentados. Atrás do balcão, três funcionários de cabelo verde distribuíam pilhas de roupas claras. Não sorriam. Também não eram grosseiros. A grosseria, quando institucionalizada, perde a necessidade de levantar a voz. Bastava entregar o tecido certo, apontar a direção certa e chamar aquilo de procedimento. — Nome. Eu disse. O funcionário conferiu numa tela. — Tamanho? Olhei para ele. — O que sobrou. Ele não achou graça. Pessoas de cabelo verde raramente achavam graça fora do expediente autorizado. Recebi um pacote dobrado, preso por uma tira plástica. Dentro havia uma vestimenta única, clara, quase branca, embora o quase fosse importante. Branco exigia inocência demais. Aquilo tinha uma cor mais honesta: lembrava leite aguado, parede de hospital pobre, fralda de bebê pessimista. A peça parecia uma camisola. Mas não uma camisola humana, dessas que ao menos reconhecem a existência de quadris, ombros, vergonha e noite. Era uma espécie de túnica sem opinião, feita para cair sobre qualquer corpo com a mesma falta de entusiasmo. Tinha mangas curtas, abertura nas costas, amarrações laterais e uma transparência discreta, dessas que fingem não mostrar nada enquanto fazem um relatório completo da pessoa. — Uniforme inicial — disse o funcionário. Uniforme. A palavra tentou salvar a peça. Não conseguiu. Uniforme é uma mentira elegante. Finge igualar corpos, mas apenas distribui a humilhação com critério. Uns ficam ridículos com solenidade. Outros ficam frágeis. Outros ficam quase nus. E sempre há alguém capaz de parecer confortável dentro da própria anulação, o que é uma das formas mais tristes de talento. Brenner abriu o pacote dele. — É isso? — Parece que sim. — Não tem calça? — A vida melhor começa quando a vida anterior termina — respondi. Ele me olhou de lado. — Você vai ficar repetindo essas frases? — Alguém precisa. Elas não se ridicularizam sozinhas. Ao nosso redor, os contemplados começavam a se vestir. As mulheres foram conduzidas para uma área lateral, separada por biombos móveis. Separada o suficiente para cumprir a formalidade, aberta o bastante para que todo mundo continuasse sabendo que todo mundo estava exposto. A Administração era especialista nesse tipo de pudor: não protegia ninguém, mas mantinha a aparência de que havia uma linha. Pude vê-las recebendo as peças, erguendo-as contra a luz, comparando mangas, avaliando o caimento. Aquilo me impressionou. Não por vaidade. Vaidade seria uma leitura preguiçosa, dessas que homens muito seguros de si fazem quando querem parecer superiores diante de mulheres humilhadas. O que havia ali era outra coisa: um esforço desesperado para transformar imposição em escolha. Uma delas puxava a barra para ver se cobria melhor os joelhos. Outra dobrava a manga. Uma terceira perguntava se havia tamanho menor, não porque desejasse parecer bonita, mas porque ainda acreditava que uma roupa poderia obedecer ao corpo em vez de administrá-lo. — Essa manga ficou enorme em mim — disse uma, tentando rir. — Melhor enorme que curta — respondeu outra. — Pelo menos parece vestido. Pelo menos. A civilização inteira talvez pudesse ser resumida nessa expressão. Pelo menos cobre. Pelo menos serve. Pelo menos não dói. Pelo menos hoje tem banho. Pelo menos fomos contemplados. Pelo menos há uma Ilha. Os homens, em compensação, estavam patéticos. E digo isso com a ternura limitada que reservo ao meu próprio gênero quando ele é impedido de se esconder atrás de bolsos, cintos, botas, jaquetas, posturas e outras próteses de autoridade. A túnica caía sobre eles como uma punição infantil. Alguns tentavam puxá-la para baixo, descobrindo o peito. Outros protegiam o peito e descobriam as coxas. Um sujeito corpulento ficou parado, braços abertos, esperando que alguém lhe explicasse como existir dentro daquilo. Ninguém explicou. A transparência fazia seu trabalho com zelo. O tecido colava onde havia água mal seca. Desenhava costelas, barrigas, cicatrizes, pelos, ausências. Um rapaz muito magro tentou cruzar as pernas em pé, façanha que mereceria medalha se a Administração ainda concedesse prêmios para constrangimentos atléticos. Outro, mais velho, cobriu-se com as mãos como se as mãos tivessem área suficiente para restaurar uma moral inteira. Ri. Não foi bonito. Mas também não era dia de beleza. Brenner me viu rindo e puxou a barra do próprio uniforme. — Não começa. — Você está ótimo. — Estou parecendo um doente. — Todos estamos. — Eu estou transparente. — É uma instituição antiga. Deve acreditar na clareza. Ele baixou os olhos para o próprio corpo e ficou vermelho. A água ainda deixava marcas nos cabelos dele. Uma gota desceu pelo pescoço, entrou pela gola frouxa e desapareceu no peito. Ele segurou a peça junto ao corpo com uma seriedade quase comovente. — Eles fazem isso para quê? — perguntou. Olhei ao redor. Para as mulheres ajustando mangas. Para os homens tentando negociar com o tecido. Para os funcionários registrando tudo sem pressa. Para as pilhas de roupas iguais sobre o balcão. — Para começarmos iguais — respondi. Ele pareceu aceitar. Então completei: — Igualmente ridículos. Brenner fechou a cara, mas não discordou. Recebemos também sandálias de borracha, todas do mesmo modelo. Nenhuma servia perfeitamente. Isso devia fazer parte da filosofia do Programa. O contemplado precisava caminhar, mas não com conforto suficiente para esquecer que cada passo era autorizado. Uma funcionária passou pela sala recolhendo as tiras plásticas dos pacotes. — Conservem o uniforme limpo. Ele representa a primeira etapa do preparo. — E se sujar? — perguntou alguém. A funcionária olhou para ele como se a pergunta tivesse vindo de uma espécie inferior. — Será limpo. Não disse por quem. A resposta atravessou a sala e pousou sobre nós como poeira. Pouco depois, um alto-falante estalou. A mesma voz feminina, limpa demais para ser verdadeira, anunciou: “Cidadãos contemplados, a primeira refeição será servida em instantes. Dirijam-se ao salão de alimentação seguindo a faixa amarela. A nutrição é parte essencial da gratidão.” Algumas cabeças se levantaram imediatamente. Refeição. Essa palavra ainda possuía uma violência sagrada. Na cidade, as pessoas comiam. Quando conseguiam. Roíam, dividiam, improvisavam, ferviam coisas, lambiam embalagens, enganavam o estômago com líquidos suspeitos, chamavam casca de mistura, chamavam mistura de sopa, chamavam sopa de jantar. Mas refeição era outra coisa. Refeição tinha começo, meio e fim. Tinha alguém servindo. Tinha talvez um prato. Talvez colher. Talvez repetição. Talvez gosto. E então sentimos o cheiro. Veio de longe, atravessando o corredor antes de nós. Era forte. Não exatamente agradável. Seria pedir demais. Mas era cheiro de comida quente, e isso bastava para reorganizar a alma de uma pessoa. Havia caldo, gordura, alguma coisa cozida por tempo suficiente para desistir da própria forma. Meu estômago contraiu antes que eu autorizasse. O de Brenner também. Ouvi. — É comida — ele disse. — Parece. — Comida mesmo. — Não elogie antes de identificar. Mas eu também estava comovido. O cheiro vinha de um salão amplo no fim da faixa amarela. Acima das portas duplas, ainda se lia, em letras grandes e gastas: R.U. Ri de novo. Dessa vez por admiração. A Administração, tão competente em rebatizar corredores, sentimentos e destinos, não se dera ao trabalho de substituir aquela sigla. Nada de “Ala da Felicidade Ruminante”. Nada de “Centro de Nutrição Dadivosa”. Nada de “Espaço Deglutição Encantadora”. Nenhuma dessas doçuras podres que costumavam espalhar sobre as coisas antes de mandá-las goela abaixo. Apenas R.U. Restaurante Universitário. O nome antigo permanecia ali, sobrevivendo como uma barata linguística. Talvez ninguém soubesse mais o que significava. Talvez soubessem e tivessem deixado por preguiça. Talvez fosse crueldade. Havia uma elegância particular em servir a primeira refeição dos contemplados num lugar onde, antes, jovens discutiam provas, amores, atrasos, mensalidades, revoluções e o ponto do feijão como se a História fosse uma professora cansada, não uma fera deitada no pátio. A fila se formou automaticamente. Era só mais uma. Naquele dia, eu ainda não sabia quantas filas uma vida melhor exigia. Fila para entrar. Fila para lavar. Fila para vestir. Fila para comer. Fila para agradecer por ter entrado, lavado, vestido e comido. A Ilha, antes de ser destino, era uma pedagogia de espera. Entramos na sequência indicada pelas marcas no chão. Os funcionários de cabelo verde circulavam com pranchetas e leitores de código. Os uniformes claros transformavam os contemplados num rebanho recém-lavado. Alguns conversavam baixo. Outros olhavam para a porta do salão com uma concentração religiosa. Uma mulher à frente dizia que não comia carne havia três meses. Outra corrigiu: “carne de verdade”. Um homem atrás de mim murmurava uma oração que repetia a palavra obrigado tantas vezes que ela começou a parecer vazia, como um pote raspado. Brenner estava diferente. O banho tinha deixado nele uma espécie de brilho triste. Não era apenas limpeza. Era como se alguma parte sua, antes coberta de poeira e medo, tivesse aparecido sem pedir licença. Ele continuava puxando o uniforme para baixo, mas já não parecia tão preocupado com a transparência. Ou talvez estivesse preocupado demais com a comida. — Você acha que vamos poder repetir? — perguntou. — Acho que vão nos dizer que sim, desde que seja necessário ao preparo. — E se for bom? — Aí será mais perigoso. — Por quê? — Porque gente faminta obedece por medo. Gente alimentada obedece por dívida. Ele ficou pensando. Às vezes eu me irritava com Brenner por levar minhas frases a sério. Eu as dizia para ferir o ar. Ele as recebia como se fossem instruções de montagem. A fila avançou. Foi então que percebi o balcão menor ao lado da entrada do R.U. Nele, havia caixas abertas. A princípio, pensei que fossem talheres, fichas, algum tipo de identificação para refeição. Cada contemplado chegava, apresentava o pulso, recebia algo e seguia. Alguns hesitavam. Outros riam. Um senhor tentou recusar e foi gentilmente orientado a aceitar. A gentileza venceu. Quando nos aproximamos, vi melhor. Não acreditei de imediato. O cérebro é misericordioso nos primeiros segundos diante do absurdo. Ele tenta encontrar explicações intermediárias, usos técnicos, tradições antigas, problemas de iluminação. Talvez fosse um filtro nasal. Talvez um dispositivo de triagem. Talvez uma peça de segurança sanitária. Talvez a Administração tivesse inventado alguma proteção respiratória redonda, vermelha e idiota. Mas não. Era um nariz de palhaço. Pequeno. Redondo. Vermelho. De espuma. Os contemplados recebiam o nariz, encaixavam-no no rosto e só então eram autorizados a entrar no salão. Senti Brenner endurecer ao meu lado. Eu também. Havia humilhações que o corpo entende antes da linguagem. A camisola era uma coisa. A transparência era outra. A fila, outra. Mas o nariz passava de um ponto. O nariz não higienizava, não organizava, não alimentava, não identificava. O nariz declarava. Declarava o quê? Que éramos ridículos. Que a fome podia ser decorada. Que a gratidão precisava ter forma visível. Que a vida melhor começava quando alguém aceitava parecer criança, doente, mascote, piada. Olhei para os funcionários de cabelo verde. Eles não usavam nariz. Claro que não. Os palhaços eram os outros. — Próximo — chamou a funcionária. Um rapaz à nossa frente recebeu o adereço e tentou rir. Não conseguiu. Colocou o nariz com dedos trêmulos e entrou no R.U. A mulher depois dele perguntou se era obrigatório. A funcionária sorriu. — É parte da integração. Integração. Outra palavra salva do lixo e posta para trabalhar no matadouro. Brenner sussurrou: — Não. Não foi uma recusa. Foi uma súplica pequena, dirigida a ninguém. — Talvez seja só brincadeira — disse um homem atrás de nós. Ninguém respondeu. Todo regime adora quando as próprias vítimas se apressam em explicar a piada. Minha vez chegou. A funcionária estendeu a mão. — Pulso. Mostrei. Ela leu o código da pulseira que eu nem lembrava terem colocado em mim durante a triagem. Depois pegou um nariz da caixa. Vermelho demais. Alegre demais. Um vermelho imbecil, quase ofensivo, que parecia ter sobrevivido ao apocalipse apenas para zombar das cores mortas da cidade. — Coloque antes de entrar. Peguei o nariz. Era leve. Isso me irritou. Humilhações deveriam pesar mais. Deveriam ao menos ter a decência de marcar a mão de quem as recebe. Mas não. Algumas vêm em espuma macia, cabem no bolso, não deixam hematoma e ainda podem ser chamadas de atividade. Brenner recebeu o dele logo depois. Ficou olhando para o objeto na palma da mão como se fosse uma sentença escrita numa língua infantil. — O que eles querem? — perguntou. Eu olhei para os cabelos verdes. Para os uniformes transparentes. Para a porta do R.U. Para a fila atrás de nós, já impaciente, porque a fome não tem vocação para solidariedade prolongada. — Querem saber quanto da gente entra antes da comida — respondi. Brenner fechou os olhos. Eu coloquei o nariz. A espuma apertou a pele. O cheiro era de borracha velha, depósito e festa escolar falida. A peça deformou minha respiração, abafou um pouco o ar, fez minha própria cara parecer estrangeira dentro dela. Brenner ainda hesitava. — Coloque — eu disse. — Não quero. — Eu também não. — Então por quê? Olhei para a porta. O cheiro de comida vinha mais forte agora. Quente. Grosso. Real. — Porque ainda não sei fugir de estômago vazio. Ele me encarou. Depois colocou o nariz. Ficou absurdo. Todos ficávamos. A Administração tinha conseguido uma beleza rara: transformar homens e mulheres limpos, famintos e recém-contemplados numa procissão de palhaços translúcidos caminhando para o jantar. Antes de entrar, ainda olhei uma vez para a caixa cheia de narizes vermelhos. Havia centenas. Talvez milhares. Adereços suficientes para muitas turmas de salvos. A quais humilhações aqueles palhaços de cabelo verde queriam nos subjugar? Que tipo de Ilha exigia aquilo como preparação? Que vida melhor começava com uma camisola, uma sandália ruim e um nariz de espuma? A porta do R.U. se abriu. Lá dentro, o cheiro nos abraçou com brutalidade. E nós entramos. Um por um. Agradecidos, ridículos e famintos. Acompanhe A Ilha, [aqui](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-em-series/a-ilha/). Acompanhe mais séries, [aqui](https://logosgrafia.com/estantes/logosgrafia-em-series/). [](https://logosgrafia.com/)Volte ao início, [aqui](https://logosgrafia.com/).
