# A Ilha #04: Cabelos verdes

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/07/15/a-ilha-04-cabelos-verdes/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-07-15T15:00:00-03:00
- Modified: 2026-07-18T16:44:18-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: A Ilha, Logosgrafia em séries, Publicações

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Foi só depois do episódio dos narizes que comecei a chamá-los de Palhaços. Não na frente deles. Ainda não havia desenvolvido coragem suficiente para confundir ironia com suicídio. Mas dentro de mim, e depois também nas conversas com Brenner, os funcionários da Contemplação haviam deixado de ser agentes, monitores, técnicos, orientadores ou qualquer outro açúcar institucional espalhado sobre o uniforme. Eram Palhaços. Não pelos sorrisos — que eram poucos e sempre ensaiados demais —, nem pela leveza — que inexistia —, e muito menos por algum traço cômico espontâneo. Eram Palhaços porque tinham nos dado narizes vermelhos para comer, e há gestos que rebatizam pessoas para sempre. Todos os Palhaços usavam uniformes impecáveis. Camisas ajustadas, calças escuras, botas limpas, crachás opacos, pulseiras de leitura, comunicação auricular e aquela postura ereta de quem aprendeu a obedecer ao próprio esqueleto. O que destoava era o cabelo. Verde. Não verde de planta. Não verde alegre, tropical, carnavalesco. Era um verde calibrado, artificial, quase clínico, como se tivessem escolhido a cor exata capaz de parecer excêntrica sem comprometer a autoridade. Os cabelos verdes eram o defeito ornamental da máquina. E talvez por isso funcionassem tão bem. Todos pareciam humanoides. Essa foi a primeira palavra que me veio. Lembrei dos antigos androides que a OpenAI lançou em parceria com a Tesla no início dos anos 2030, aqueles modelos que prometiam assistência doméstica, trabalho pesado, companhia, gestão logística e, se o consumidor estivesse sentimentalmente desidratado o bastante, uma presença quase afetiva. Os anúncios diziam que eles imitavam humanidade com precisão crescente. Os vídeos mostravam sorrisos educados, movimentos impecáveis, respostas rápidas, delicadeza coreografada, olhos limpos demais. Os Palhaços lembravam aquilo. Só que eram humanos. Humanos de carne, osso, músculos e algum programa de contenção afetiva muito bem instalado. Eram fortes, quase todos. Não fortes como operários improvisados, empilhando restos para sobreviver. Fortes como quem tinha acesso regular a proteína, treinamento físico e sono programado. Ombros largos, braços firmes, abdômens disciplinados. A Administração não economizava nas vitrines do próprio método. Mas o que mais me irritava era o sorriso. A cada pergunta feita por um de nós — “quando iremos para a Ilha?”, “quanto tempo dura o preparo?”, “poderemos escrever para as famílias?”, “os uniformes serão trocados?”, “o nariz é obrigatório também no jantar?” — eles entregavam o mesmo sorriso curto, polido, quase higiênico, antes de responder. Como se o sorriso fosse a verdadeira resposta, e a fala viesse apenas para preencher o relatório. “Tudo será informado no momento oportuno.” “O preparo respeita o ritmo de cada contemplado.” “A Administração prioriza o bem-estar integral.” “As etapas foram pensadas para a melhor adaptação.” Havia gente ali capaz de ouvir uma frase dessas e sentir conforto. A fome, quando não mata, emburrece com método. Éramos quarenta e oito contemplados no início: vinte e quatro mulheres, vinte e quatro homens, divididos em quatro grupos de doze. A antiga Universidade nos absorvera com a satisfação de quem recebe quantidade exata. Doze para o banho, doze para o deslocamento, doze para o alongamento, doze para o refeitório, doze para a espera. Era um número cômodo: grande o suficiente para parecer coletivo, pequeno o suficiente para permanecer controlável. Eu estava no Dormitório Masculino B, junto com outros onze. Brenner dormia na beliche encostada à minha. Eu ficava em cima; ele, embaixo. A cama de baixo combinava com ele. Não por submissão, como alguns poderiam pensar, mas porque havia em Brenner uma qualidade de abrigo mal resolvido. Ele parecia alguém que, mesmo em pé, dava a impressão de estar acolhendo alguma coisa — um segredo, uma culpa, uma fome antiga, uma vontade cuidadosamente dobrada. Depois do banho do primeiro dia, ele ficou mais quieto comigo. Não frio. Não hostil. Apenas cauteloso, como se cada frase precisasse passar por uma alfândega íntima antes de receber permissão para sair. Ainda assim, me procurava. Sentava perto de mim nas refeições, caminhava ao meu lado nos deslocamentos, fazia perguntas sobre os outros contemplados, sobre a Universidade, sobre a Ilha, sobre o que eu achava de tudo. Eu respondia mais do que devia, talvez porque a presença dele me divertisse, talvez porque aquele verde improvável nos olhos continuasse ali, pedindo complicações. Foi também Brenner quem primeiro começou a notar um dos Palhaços em particular. Alto. Pele clara. Corpo escultural, desses que ofendem tanto a fome quanto a democracia. O cabelo verde dele era um pouco mais claro que o dos outros, puxando quase para um tom de piscina contaminada. Tinha maxilar definido, mãos grandes e um jeito de olhar as pessoas que parecia atenção, mas provavelmente era só treinamento. O crachá dizia Heitor, embora eu duvidasse que aqueles crachás dissessem a verdade sobre qualquer coisa além do controle de acesso. — Ele olha pra você — comentei certa vez, durante o almoço. Brenner quase derrubou a colher. — Quem? — O Palhaço. — Qual deles? — O monumento de academia com gramado na cabeça. Brenner baixou os olhos para a bandeja. — Você inventa demais. Invento, pensei. O mundo só funciona porque as pessoas insistem em chamar de invenção aquilo que perceberam cedo demais. Heitor de fato olhava. Não com frequência indecente, não com fome explícita, não com a vulgaridade amadora dos homens da cidade devastada, acostumados a despir alguém com o olhar porque sabiam que era a única forma de posse ainda gratuita. Era pior. Heitor olhava com contenção, e a contenção, em certas situações, serve apenas para dar moldura ao desejo. Brenner, para meu crescente aborrecimento, parecia corresponder. Havia algo quase pueril na maneira como seu rosto se alterava quando o Palhaço se aproximava. Uma pergunta desnecessária aqui. Um obrigado alongado ali. Um riso que não me oferecia. Um cuidado excessivo ao ajustar o uniforme antes do treinamento físico. Uma demora a mais na fila do jantar. Pequenas desgraças emocionais, dessas que o corpo comete antes que a cabeça assine. A rotina do preparo ajudava. Pela manhã, havia o café no R.U., ainda sob o patrocínio obrigatório dos narizes vermelhos à entrada. Depois vinham as sessões de treinamento físico, realizadas numa antiga quadra coberta onde o teto pingava em dias de umidade alta e os Palhaços distribuíam comandos com a alegria de quem domesticava corpos pelo método do alongamento. Em seguida, caminhadas “programadas” pelo campus deteriorado: biblioteca interditada, laboratórios lacrados, jardim interno convertido em pátio de observação, capela ecumênica transformada em sala de repouso, blocos antigos convertidos em alas do preparo. À tarde, oficinas de adaptação, palestras sobre vida coletiva, orientações sobre disciplina, horários, gratidão e disponibilidade. À noite, refeição, recolhimento, silêncio. Em todas essas ocasiões, Brenner encontrava algum jeito de cruzar com Heitor. No segundo dia, durante o treinamento físico, Heitor corrigiu a postura dele num exercício de flexão assistida. Nada demais. A mão no abdômen, outra no ombro, uma instrução seca: “Alinhe o tronco”. Mas Brenner passou o resto da manhã estranho, entre ofendido e elétrico, como se o toque tivesse deixado um relatório secreto na pele. No passeio programado pelo campus, foi Heitor quem explicou ao nosso grupo que o antigo prédio da reitoria agora abrigava o Núcleo de Acompanhamento da Contemplação. Brenner fez duas perguntas inúteis sobre o processo de adaptação. Heitor respondeu as duas com aquele sorriso insuportavelmente profissional. Quando nos afastamos, Brenner fingiu interesse nas janelas quebradas do bloco ao lado. — Você está flertando com um Palhaço — eu disse. — Cala a boca. — É uma categoria nova de degradação afetiva. — Você está vendo coisa. — Estou vendo perfeitamente. — E se eu estivesse? Essa resposta me incomodou mais do que deveria. Olhei para ele. Brenner também me olhava, um pouco vermelho, um pouco desafiador, como quem finalmente decidira deixar de pedir desculpas antes da acusação. — Aí eu diria que você tem um gosto perigoso — respondi. — Todos os gostos ficaram perigosos faz tempo. Ele estava certo, o que me irritou ainda mais. Naquela noite, demorei a dormir. O dormitório era um grande retângulo de camas metálicas, armários mínimos e silêncio vigiado. Doze homens respirando num mesmo espaço produzem um tipo específico de intimidade involuntária. Tosse, ranger de estrutura, virada de colchão, pés no chão, suspiro, estômago reclamando, alguém rezando baixo, alguém roncando antes mesmo de adormecer direito. A Administração chamava aquilo de repouso coletivo. Eu chamava de prova de que até o cansaço pode ser compartilhado sem virar solidariedade. Devia ser madrugada quando acordei com sede. A sede vinha se tornando um hábito perigoso desde que chegáramos à Universidade. Água disponível é uma forma de corrupção. O corpo se acostuma depressa à generosidade e logo começa a pedi-la como se ainda vivesse num mundo sem recibos. Levantei-me com cuidado para não fazer barulho. Havia um bebedouro no corredor, ao lado do posto de vigilância noturna. Saí em silêncio. Foi só na volta que notei. A cama de baixo de Brenner estava vazia. Não apenas vazia. Arrumada demais. Cobertor puxado com precisão, travesseiro reto, lençol sem vinco recente. Aquele tipo de organização só aparece em duas ocasiões: quando a pessoa ainda não usou a cama ou quando quer que pareça que não a usou. Fiquei parado alguns segundos, o copo de água ainda frio na mão. Olhei ao redor. Os outros dormiam. Ou fingiam muito bem. Tive vontade de procurá-lo. Não por direito algum sobre o corpo de Brenner — eu não era mãe, marido, carcereiro nem consciência terceirizada de ninguém —, mas porque a ausência dele significava uma fissura. Se os contemplados começaram a desaparecer dos dormitórios à noite, e os Palhaços começaram a desejar os contemplados como se fossem gente fora do expediente, então algo de podre estava se desvendando no sistema. Máquinas podem torturar, humilhar, corrigir, treinar e até alimentar. Mas quando passam a desejar, a máquina fica vulnerável. E vulnerabilidade institucional costuma custar caro a quem está embaixo. Fiquei alguns minutos sentado na minha cama, acordado demais para dormir, cansado demais para pensar direito. Quando Brenner voltou, eu já fingia sono. Senti apenas o movimento discreto na estrutura da beliche, um cuidado excessivo ao deitar, o tipo de silêncio que não vem da tranquilidade, mas da culpa penteada. Na manhã seguinte, durante o café, fui procurá-lo com a determinação ofensiva de quem decidiu ser razoável à força. O R.U. nos recebeu com o mesmo cheiro gorduroso, a mesma fila disciplinada e o mesmo balcão de narizes vermelhos. Brenner estava à porta quando o avistei, já com o adereço na mão, esperando sua vez de colocá-lo. Parecia cansado. Não fisicamente. Havia cansaços mais íntimos, feitos de escolha recente e medo posterior. Aproximei-me. — Você dormiu fora da cama? — perguntei baixo, sem prefácio. Ele quase deixou o nariz cair. — Ficou maluco? — Não o bastante para achar que sonhei sua ausência. Brenner olhou em volta. Os outros contemplados avançavam na fila com a concentração devota de sempre. Um Palhaço conferia pulseiras. Outro orientava o fluxo para as mesas. O mundo seguia sua vulgaridade disciplinada enquanto o meu colega de dormitório tentava decidir se mentia ou se piorava tudo dizendo alguma parte da verdade. — Não foi nada — murmurou. — Nada costuma deixar a cama tão bem arrumada? — Você está me vigiando agora? — Não seja infantil. Eu fui beber água. — Hábito perigoso — respondeu ele, tentando sorrir. — Não mude de assunto. Ele colocou o nariz vermelho no rosto com um gesto irritado. Ficou ainda mais jovem e mais infeliz com aquilo. Um menino castigado numa festa ruim. — Você está com ciúmes — disse. Quase ri na cara dele. Ali estava eu, cercado por contemplados, narizes vermelhos, mingau suspeito, bandejas metálicas, slogans de gratidão e um possível esquema sexual clandestino entre um Palhaço escultural e o rapaz do beliche de baixo, e Brenner vinha me acusar da patologia mais doméstica de todas. — Ciúmes? — repeti. — Você está estranho desde ontem. — Eu estou estranho desde antes da guerra, Brenner. Tente acompanhar. — Você não gosta que eu fale com ele. — Eu não gosto que o sistema comece a babar. Ele me encarou sem entender. Ou fingindo. Respirei fundo. — Escute. Se os cabelos verdes, que deveriam atuar como máquinas, começaram a demonstrar desejos humanos e a se envolver com os contemplados, isso não é romântico. É sinal de que alguma coisa apodreceu o protocolo. — Talvez sempre tenham sido humanos. — Isso é precisamente o problema. — E qual seria o seu medo? — perguntou ele, agora quase agressivo. — Que eu me meta em encrenca ou que eu me meta com outra pessoa? A frase mereceria um tapa ou um aplauso. Como eu estava de jejum emocional, escolhi a ironia. — Que luxo o seu achar que minha principal preocupação é a composição sentimental do seu travesseiro. Ele respirou pelo nariz vermelho e fez um som ridículo. Quase desmontei. — Eu não vou te dizer onde estive — falou por fim. — Eu não pedi endereço. — Porque você já acha que sabe. — Acho apenas que você voltou com a mesma culpa do primeiro banho. Essa frase o atingiu. Vi imediatamente. Os olhos dele mudaram, e por um segundo Brenner pareceu menor, como se a lembrança do cubículo, da água, do sabão áspero e da frase sussurrada em sua orelha tivesse sido arrancada do arquivo onde ele tentava mantê-la em quarentena. — Não foi assim — disse. — Como foi, então? — Não foi assim. Ele repetia a negação como quem passa pano numa mancha sem saber se piora ou limpa. Fiquei em silêncio. Às vezes a ausência de fala produz um corredor onde a verdade quase entra. Quase. Brenner tirou o nariz por um instante, apertou a espuma entre os dedos e olhou para mim com uma mistura de desafio, vergonha e uma felicidade nova que eu ainda não sabia odiar. — Ele me ouviu — disse. A resposta era tão miseravelmente humana que me desarmou um pouco. — Ouviu o quê? — Eu. Só isso. Eu. Como se bastasse. Talvez bastasse mesmo. A cidade lá fora tinha desaprendido a ouvir pessoas havia muito tempo. O que se escutava eram ordens, sirenes, negociações, ameaças, pedidos práticos, notícias ruins e, com sorte, algum gemido de prazer clandestino vindo de paredes finas. Ser ouvido de verdade podia parecer, em certas circunstâncias, uma forma muito avançada de alimento. Mas continuei irritado. — E você resolveu agradecer fora do dormitório? Brenner me lançou um olhar que teria sido adulto se não estivesse usando um nariz de palhaço. — Às vezes você é cruel sem necessidade. — Não confunda necessidade com estilo. A fila andou. Heitor surgiu à porta do salão, justamente do lado de dentro, como se a manhã tivesse sido criada para me contrariar. Trazia a prancheta junto ao corpo, o uniforme impecável e o maldito cabelo verde no mesmo lugar insolente de sempre. Os olhos dele cruzaram os de Brenner. Apenas isso. Nada melodramático. Nada de romance barato. Um olhar. Mas bastou para que eu entendesse o essencial: havia ali um circuito paralelo correndo sob a fiação oficial. E Brenner estava feliz. Feliz de um jeito cauteloso, culpado, mas feliz. Heitor também. Aquele cabelinho verde sem-vergonha, pensei. Por um instante, ri por dentro. Eu realmente podia estar me comportando como um marido traído. Que probleminha de gente sem fome. Se eles estavam se pegando às escondidas, eu não tinha nada com isso. Concluí exatamente isso. Concluí, inclusive, com uma certa elegância mental. O problema é que conclusões não controlam o corpo. E o meu corpo, enquanto avançávamos para a bandeja do café, continuava atento como um cão ruim diante de uma porta entreaberta. Porque, ciúmes ou não, moralismo ou não, havia uma questão mais feia em jogo. Se os Palhaços desejavam. Se escolhiam. Se quebravam a linha. Se criavam exceções. Então o Programa de Contemplação não era apenas uma máquina. Era uma máquina com caprichos. E máquinas com caprichos nunca param no capricho. Perto da mesa, Brenner tocou meu braço. — Você está mesmo preocupado? Olhei para ele. Para o nariz vermelho. Para a culpa ainda brilhando no fundo dos olhos. Para a felicidade que tentava nascer apesar de tudo. — Estou — respondi. — Comigo? Pensei um segundo. — Com o que pode acontecer com quem você é, quando alguém com cabelo verde resolve gostar disso. Brenner não respondeu. Sentamos. Do outro lado do salão, Heitor seguia em pé, belo como uma mentira bem alimentada. E eu, contra minha vontade, comecei a perceber que os cabelos verdes talvez fossem a parte mais humana — e, por isso mesmo, mais perigosa — de toda aquela Ilha antes da Ilha. Acompanhe A Ilha, [aqui](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-em-series/a-ilha/). Acompanhe mais séries, [aqui](https://logosgrafia.com/estantes/logosgrafia-em-series/). [](https://logosgrafia.com/)Volte ao início, [aqui](https://logosgrafia.com/).
