# A Ilha #06: Violão ao dente

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/07/17/a-ilha-06-violao-ao-dente/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-07-17T15:00:00-03:00
- Modified: 2026-07-18T16:43:39-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: A Ilha, Logosgrafia em séries, Publicações

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Na manhã seguinte, os sete que chegaram mais perto do muro receberam café reforçado. Isso deveria ter me tranquilizado. Não tranquilizou. A generosidade da Administração tinha um problema: nunca vinha sozinha. Água demais vinha com vigilância. Comida quente vinha com nariz vermelho. Banho vinha com dupla obrigatória. Roupa limpa vinha com transparência. Se nos davam mais mingau, mais proteína e duas fatias de pão escuro, não era porque havíamos sofrido muito durante a noite. A Administração não distribuía consolo. Distribuía função. Brenner estava no balcão. O cabelo dele já não tinha apenas raízes verdes. O tom havia subido um pouco, como se a cor estivesse tomando posse por etapas, negociando com a cabeça antes de conquistar o resto. Usava a braçadeira verde no braço esquerdo e um crachá novo, ainda provisório, mas menos provisório do que na véspera. Havia nomes para essas metamorfoses. Sempre havia. Integração auxiliar. Adaptação funcional. Acompanhamento avançado. Modulação de serviço. Eu chamava de apodrecimento com uniforme. Quando cheguei, ele não me entregou o nariz. Entregou a bandeja. Esse pequeno deslocamento na rotina me incomodou mais do que deveria. Nariz era humilhação. Bandeja era alimento. Brenner, do outro lado do balcão, já podia distribuir as duas coisas. Era assim que as pessoas começavam a mandar: primeiro entregando o que também tinham recebido. — Reforço — disse ele. — Por mérito? — Por necessidade. — A Administração descobriu que quase fugir abre o apetite? Ele não sorriu. Atrás dele, Heitor observava. Não de longe. Não discretamente. Observava com a calma de quem acredita ter direito ao que vê. O cabelo verde impecável, o uniforme impecável, a pele alimentada demais para aquele mundo. Havia em Heitor uma beleza tão bem conservada que parecia uma denúncia contra todos os outros corpos. Brenner inclinou a bandeja um pouco para mim. O pão quase escorregou. Foi então que percebi o papel dobrado sob a fatia. Pequeno. Cinzento. Quase da cor do alimento. Nossos olhos se encontraram. O rosto dele não mudou. A boca não pediu nada. Mas os olhos, esses traidores antigos, fizeram o que palavras não podiam fazer ali: apontaram. Não para o papel. Para a porta lateral do R.U. Uma porta estreita, pintada de branco, usada pelos Palhaços para entrar e sair sem passar pela fila dos contemplados. Eu já a tinha visto dezenas de vezes. Nunca aberta por muito tempo. Nunca sem alguém vigiando. Naquela manhã, estava encostada. Não aberta. Encostada. Há uma diferença importante entre uma porta aberta e uma porta que finge estar fechada. Peguei a bandeja. — Gratidão perceptível? — perguntei. Brenner baixou os olhos. — Hoje não. Heitor se aproximou. — Algum problema? Ele não perguntou a mim. Perguntou a Brenner. O ciúme tem suas burocracias. Primeiro fiscaliza o tom de voz. Depois o intervalo entre os olhos. Depois a forma como uma bandeja é entregue. — Nenhum — respondeu Brenner, rápido demais. Heitor olhou para mim. O sorriso veio no tempo exato, como sempre. — Cidadão contemplado, após o café, você e os demais selecionados para percurso externo deverão se dirigir à Ala de Orientação Livre. — Orientação Livre — repeti. — A liberdade finalmente ganhou uma ala. — A Ilha exige autonomia. — Naturalmente. Nenhum paraíso digno desse nome aceitaria gente sem preparo para correr de madrugada. Heitor sustentou o sorriso. — Coma. Vai precisar. A frase não veio com ameaça. Por isso ameaçou melhor. Sentei-me longe dos outros seis. Não por estratégia. Por nojo. Há momentos em que estar junto das pessoas só serve para aumentar a quantidade de medo respirando perto. Os outros comiam com uma mistura de orgulho e apreensão. Um deles, o rapaz do joelho machucado, repetia que tinha quase conseguido. A cada vez que dizia “quase”, parecia menor. Uma mulher do Grupo Azul, mãos firmes, olhos fundos, comia em silêncio. Um homem mais velho guardou uma fatia de pão dentro da manga, como se ainda fosse possível esconder alguma coisa da Administração além do próprio pensamento. Desdobrei o papel sob a bandeja. Havia apenas uma linha. Quando a faixa azul terminar, não siga a azul. Nenhuma assinatura. Não precisava. Comi o papel. Não por dramaticidade. Por pragmatismo. A fome já havia me ensinado que quase tudo pode descer quando a alternativa é ser encontrado. O pão estava duro. O papel, nem tanto. Depois do café, nos colocaram em fila. Éramos sete. Sete que haviam alcançado perímetro externo durante a suposta invasão. Sete quase fugitivos. Sete corpos considerados interessantes por terem confundido uma armadilha com oportunidade. Fomos conduzidos por dois Palhaços até um corredor que eu ainda não conhecia. Isso, por si só, já era raro. Na quarta semana, eu julgava conhecer a Universidade como se conhece uma cicatriz: não por beleza, mas por repetição. Mas aquele corredor parecia ter sido guardado fora da rotina. As paredes eram mais limpas. Não limpas de verdade. Nada ali era. Mas havia menos mofo, menos rachadura, menos cartazes antigos. O chão estava seco. As lâmpadas não piscavam. As portas tinham fechaduras novas e placas sem poesia: ACESSO FUNCIONAL SUPERVISÃO INTERNA CONTROLE DE PERCURSO REGISTRO DE DISPONIBILIDADE Registro de Disponibilidade ficava no fim. Antes de entrarmos, uma funcionária de cabelo verde explicou a etapa. — O percurso externo simula condições de chegada à Ilha em cenário de baixa orientação. Vocês serão avaliados quanto à autonomia, resistência, tomada de decisão, percepção espacial e recuperação emocional. — E se alguém não quiser ser avaliado? — perguntou o homem mais velho. A funcionária sorriu. — Todos já estão sendo. Era difícil discutir com uma frase tão bem fechada. Recebemos pulseiras novas, pretas, mais apertadas. Um Palhaço passou uma haste metálica perto de nossos tornozelos, nossas costas, nossos pulsos. Não detectava armas, porque não havia armas. Detectava a ilusão de que ainda possuíamos superfícies privadas. — Uniformes leves — ordenou outro. Como se houvesse uniformes pesados. Fomos orientados a retirar as sandálias. Aquilo, disseram, melhoraria a aderência ao terreno. Também permitiria melhor leitura de pressão plantar. A Administração tinha descoberto uma maneira técnica de dizer “vocês correrão descalços”. A mulher do Grupo Azul perguntou: — É prova? A funcionária sorriu. — É preparo. Toda resposta ali era uma porta trancada com flor na maçaneta. Brenner apareceu pouco antes de sairmos. Veio pelo corredor lateral, carregando uma prancheta. Atrás dele, Heitor. Os dois não caminhavam juntos como antes. Havia meio metro a mais entre os corpos. Meio metro pode ser uma distância íntima quando as pessoas estão sendo observadas. Brenner não deveria olhar para mim. Olhou. Rápido. Depois olhou para a esquerda. Para uma porta cinza, quase invisível entre duas placas, com uma pequena trinca perto da maçaneta. Heitor percebeu alguma coisa. Não sei se o olhar. Não sei se o excesso de cuidado de Brenner ao não olhar de novo. Não sei se apenas a miséria ciumenta que transforma qualquer ar em prova. Mas percebi o maxilar dele endurecer. — Grupo pronto — disse Heitor. Grupo. A Administração gostava de nos chamar de grupo sempre que pretendia nos separar. Fomos levados ao pátio dos fundos. O dia estava claro, mas sem alegria. A antiga Universidade parecia maior daquele lado. Menos fachada, mais entranhas. Blocos administrativos, corredores de serviço, depósitos, paredes sem placas bonitas, janelas altas, grades discretas. Era a parte do campus que os passeios programados evitavam. Não havia murais de formatura, nem jardins, nem ruínas com valor sentimental. Ali a Universidade não fingia memória. Apenas funcionamento. À frente, começava uma trilha improvisada entre o bloco de Educação Física, o antigo estacionamento e o bosque seco. Cones brancos marcavam o início. Faixas azuis amarradas em postes e árvores indicavam o percurso. A faixa azul. Sempre ela. O mundo inteiro parecia ter sido reduzido a fitas coloridas ensinando o corpo a obedecer. A voz da funcionária soou atrás de nós: — Ao sinal, sigam a faixa azul até a zona de chegada. Não retornem. Não se agrupem. Não removam a pulseira. Não tentem acessar áreas funcionais. A vida melhor exige iniciativa responsável. Iniciativa responsável. Ou seja: corram, mas apenas na direção que escolhemos. Um apito. Os sete correram. Não foi uma largada heroica. Não éramos atletas, soldados, crianças em brincadeira. Éramos corpos treinados pela fome e depois reorganizados por uma instituição que descobrira como chamar medo de preparo. Ainda assim, corremos. No início, segui o grupo. A faixa azul passava pelo antigo estacionamento, contornava carcaças de veículos sem rodas e entrava numa alameda estreita entre dois blocos. Havia câmeras ali, visíveis demais. Refletores desligados, mas prontos. Palhaços em pontos altos, fingindo neutralidade. O homem mais velho ficou para trás nos primeiros minutos. O rapaz do joelho ferido tentou compensar a dor com orgulho e quase caiu. A mulher do Grupo Azul correu bem. Muito bem. Melhor que todos nós, talvez. Seu rosto não demonstrava pânico, apenas cálculo. Eu diminuí. Não porque estivesse cansado. Porque a faixa azul ia terminar. E eu precisava lembrar que Brenner não havia escrito “quando a faixa azul virar à esquerda” ou “quando chegar ao muro” ou “quando encontrar a porta”. Ele escrevera: quando terminar. Isso significava que haveria um ponto em que a Administração esperava que eu continuasse obedecendo mesmo sem cor. Depois do segundo bloco, a trilha se abriu num pátio estreito. A faixa azul seguia até uma parede, subia por um cano, prendia-se a uma janela baixa e acabava ali, rasgada, como se o percurso tivesse sido interrompido pelo tempo. À direita, havia uma seta pintada no chão. Azul. Recente. Todos seguiram a seta. Eu não. Por um segundo, parei. Foi o suficiente para sentir o mundo me puxando pelo pescoço. A seta era óbvia. A seta era segura. A seta era o caminho esperado. A seta era a Administração dizendo “continue livre por aqui”. Meu corpo, treinado por semanas de fila, quis obedecer antes de perguntar. Esse foi o terror mais íntimo daquele dia: perceber que a máquina já morava no joelho. Não segui a seta. Virei à esquerda. Para a porta cinza. Aquela que Brenner tinha indicado. Ela ficava no fim de um pequeno recuo entre paredes, quase coberta por um carrinho metálico e três caixas vazias. A maçaneta parecia comum. Tudo que salva ou condena costuma parecer comum na hora errada. Encostei a mão. Aberta. Não aberta demais. Destrancada. Entrei. Fechei sem bater. Por dentro, o ar era outro. Frio. Não o frio do clima. Frio de sala sem circulação humana, onde coisas são guardadas, registradas, esquecidas ou preparadas. O corredor interno era estreito, iluminado por lâmpadas brancas. Não havia faixa colorida no chão. Isso me deu vertigem. Depois de semanas, a ausência de orientação parecia mais ameaçadora que uma arma. Caminhei. Devagar. Do lado de fora, ouvi apitos. Passos. Um grito distante. Talvez tivessem percebido minha ausência. Talvez ainda não. A Administração possuía muitos olhos, mas também muita confiança em si mesma. E a confiança, quando cresce demais, cria cantos cegos. O corredor terminava em duas possibilidades: uma escada para baixo e uma porta com visor estreito, parcialmente coberto por plástico fosco. A sala dividida. Eu soube antes de abrir. Não por memória. Por sonho. Ou por aquela parte do corpo que reconhece o lugar onde a realidade finalmente alcança o pesadelo. Entrei. Era pequena. No centro, uma divisória de madeira e vidro sujo separava o espaço em dois. Do lado em que eu estava, havia armários baixos, uma pia sem torneira, caixas empilhadas e uma mesa virada contra a parede. Do outro lado, atrás da divisória, via-se apenas uma faixa do chão, uma bancada metálica e a sombra de objetos pendurados. A porta tinha mesmo um visor. O plástico colado sobre ele tremia levemente com o ar do corredor. Agachei-me entre os armários e a parede. Meu coração fazia barulho demais. A primeira coisa que ouvi foi água. Não caindo como nos chuveiros. Fervendo. Depois, vozes. Duas, talvez três. — O sete desviou cedo. — O amarelo? — Sim. — Eu disse que ele não seguiria a seta. — Você não disse. Você apostou. Risadas baixas. Não eram risadas de Palhaços comuns. Não tinham o sorriso higiênico dos funcionários em contato conosco. Eram risadas de bastidor. Risadas sem cartaz. Risadas de gente que tirou a máscara porque acredita que ali só entram os rostos autorizados. — E a mulher do Azul? — Excelente tração. Pouca hesitação. Boa reação a terreno seco. — Dura? — Ainda não sabemos. Dura. A palavra entrou em mim como unha. Houve barulho de papel, algo sendo marcado. — Os que correm demais tensionam. — Depende do descanso. — Depende do medo. — Medo passa gosto. Outra risada. Eu queria não entender. Há momentos em que a inteligência é uma agressão contra o próprio dono. As frases vinham fragmentadas, técnicas, quase culinárias, quase médicas, quase administrativas. Nenhuma delas dizia tudo. Todas diziam demais. Um cheiro começou a entrar pela divisória. Peixe. Pão. Caldo velho. Alguma coisa ácida. Não era o cheiro do R.U. Não era comida servida para quase salvos. Era mais íntimo, mais fundo, mais antigo. Cheiro de cozinha pequena, de receita guardada por quem sobreviveu tempo demais para ter vergonha. Então ela entrou. Não a vi inteira. A divisória me oferecia pedaços: a barra de uma saia escura, sapatos baixos, mãos finas, uma tigela de metal, depois o braço erguendo alguma coisa até a boca. A mulher cantarolava. Baixo. Uma melodia antiga, ou talvez apenas uma sequência de notas que o tempo tinha roído até sobrar vício. Não era bonita. Também não era feia. Era pior: familiar sem pertencer a lugar nenhum. Ela mastigava. Devagar. Pão e peixe. Ou pão com peixe. Ou alguma preparação que eu não queria nomear. Os dentes dela começaram a ranger. No início, pensei que fosse o atrito comum da mastigação. Depois o som se alongou, ganhou ritmo, vibrou entre a boca e o osso, atravessou a divisória e encontrou meu ouvido como uma corda puxada. Rangia como violão. Não era metáfora. Era som de dente fazendo música sem perdão. A mulher mastigava e cantarolava, e os dentes acompanhavam como se houvesse dentro de sua boca um instrumento pobre, feito de esmalte, saliva e hábito. Violão ao dente. Pensei isso com uma clareza absurda, dessas que aparecem quando a mente, incapaz de fugir, começa a produzir título. — Ela ainda faz isso? — perguntou uma voz masculina. — Acalma os primeiros. — Acalma ou tempera? — As duas coisas, dependendo da fé. A mulher riu com a boca cheia. Não alto. O suficiente. Senti vontade de vomitar, mas meu estômago estava ocupado demais tentando desaparecer. A porta do outro lado se abriu. Passos mais firmes. Alguém importante entrou. Não vi o rosto. Vi botas melhores, bainha de casaco, uma mão com anel escuro. Os funcionários mudaram de postura pelo som. — Relatório da noite — disse a voz importante. — Sete alcançaram perímetro externo. — Quantos recuperáveis? — Três para serviço auxiliar, talvez quatro. Um resistente funcional. Uma excelente para percurso. Dois de baixo aproveitamento externo. — O resistente funcional é o amarelo? Silêncio. Meu corpo inteiro ficou pequeno. — Sim. — O que chegou ao muro? — Sim. — Ele foi encaminhado? — Em percurso. — Quero revisão da rota. Não desperdicem velocidade. Não desperdicem velocidade. Havia muitas maneiras de alguém ser reduzido a carne. Algumas começavam pelo elogio. A mulher voltou a mastigar. O violão recomeçou. Dessa vez mais perto. Ou eu já estava dentro do som. — E os de baixo aproveitamento? — perguntou a voz importante. — Deglutição inicial. A palavra veio limpa. Técnica. Quase bonita. Deglutição inicial. De repente, todas as doçuras institucionais se reorganizaram diante de mim. Mensagem dadivosa. Vida melhor. Disponibilidade integral. Higiene. Integração. Quase salvos. Orientação livre. Deglutição inicial. A Administração não inventava palavras para esconder a violência. Inventava palavras para que a violência pudesse circular em documentos sem sujar a mão de quem assinava. A mulher disse: — O pão está pronto. — Para quem? — Para os que voltarem chorando. — E se não voltarem? — Voltam. Outra risada. O som dos dentes, agora, parecia mais alto que as vozes. Talvez porque eu não conseguisse deixar de ouvi-lo. O violão ao dente rangia no centro da sala como se afinasse alguma fome coletiva. Eu me movi um pouco para trás. Devagar demais. Mesmo assim, uma caixa rangeu. O mundo parou. Não totalmente. A água continuou fervendo. Mas as vozes cessaram. A mulher parou de mastigar. Foi o silêncio mais comprido da minha vida. Uma bota se aproximou da divisória. Depois outra. Pelo vidro sujo, vi a sombra de um corpo inclinando-se. Prendi a respiração. O visor da porta, coberto por plástico, tremia levemente. No corredor, passos rápidos. Alguém bateu à porta do outro lado. — Comissão no pátio interno — disse uma voz. — Problema com auxiliar. A bota parou. A voz importante se afastou um passo. — Agora? — Agora. — Quem? A resposta veio baixa demais para eu ouvir. Mas ouvi a reação. Um suspiro irritado. Depois: — Tragam o verde provisório. Verde provisório. Brenner. A mulher voltou a mastigar. Um único ranger. Curto. Quase satisfeito. Os passos se afastaram. A porta abriu, fechou. As vozes diminuíram no corredor ao lado. Fiquei imóvel por mais alguns segundos, talvez minutos, talvez uma vida anterior inteira. Quando me atrevi a respirar, senti que o ar entrava errado, como se meu corpo também tivesse aprendido alguma coisa que não poderia desaprender. Eu precisava sair. Não pela porta por onde entrei. Aquela levava ao corredor interno que talvez já estivesse sendo revistado. Havia outra saída? Olhei ao redor. Armários, caixas, parede, pia seca, mesa virada. Atrás da mesa, uma passagem estreita bloqueada por uma cortina plástica amarelada. Rastejei até lá. Levantei a cortina. Um corredor de serviço. Escuro. Sem câmeras visíveis. Sem faixas. Sem slogans. A ausência de frases da Administração quase me fez chorar. Entrei. O corredor descia levemente, acompanhando a parte interna do prédio. Tubulações expostas corriam pelo teto. À direita, portas sem identificação. À esquerda, pequenas janelas altas davam para pátios fechados que eu nunca tinha visto. Era uma Universidade dentro da Universidade. Não a dos contemplados. Não a dos quase salvos. A outra. A que respirava sem precisar parecer dadivosa. Andei encostado à parede. De vez em quando, vozes passavam atrás de portas. Ouvi risos. Talheres. Um rádio antigo. Alguém pedindo mais água. Alguém dizendo que o Comitê não gostava de atrasos. Comitê. A palavra tinha peso de mesa longa. Em uma das portas entreabertas, vi uniformes pendurados. Uniformes completos dos Palhaços. Camisas, calças, botas, braçadeiras, crachás sem nome, frascos de tinta verde alinhados numa prateleira. A cor parecia mais viva dentro do vidro. Menos cabelo, mais veneno. Havia também narizes vermelhos em caixas transparentes, centenas deles, organizados por tamanho. Passei sem tocar em nada. Mais adiante, encontrei uma escada estreita. Subi. A cada degrau, o som do pátio interno crescia. Não gritos. Não exatamente. Um murmúrio coletivo, contido, atravessado por comandos. Cheguei a um corredor superior com janelas altas voltadas para baixo. Agachei-me sob uma delas. Olhei. O pátio interno ficava entre três blocos administrativos, escondido de quem circulava pelas faixas coloridas. Ali não havia ruína decorativa. Havia mesas, refletores, cadeiras, uma estrutura metálica no centro e, ao fundo, a bandeira branca da Administração. Em torno dela, Palhaços de cabelo verde formavam fileiras. Alguns auxiliares cinzentos estavam separados à direita. Entre eles, Brenner. Meu peito se fechou. Ele estava de pé, sem a prancheta, sem o sorriso pela metade, sem saber onde colocar as mãos. Heitor estava alguns passos atrás, rígido, bonito, com o rosto duro demais para parecer inocente. No centro do pátio, três pessoas sentavam-se a uma mesa comprida. Não usavam cabelo verde. Essa foi a primeira coisa que notei. E por algum motivo isso me assustou mais. A Administração verdadeira não precisava de cor. Uma mulher de casaco escuro lia algo numa pasta. Um homem gordo bebia água em copo de vidro. Outro, muito magro, limpava os dentes com a língua enquanto observava Brenner. Não havia pressa. A pressa era para nós. O alto escalão tinha recuperado o antigo privilégio de demorar. Não consegui ouvir tudo. O vidro abafava. A distância roubava palavras. Mas algumas frases subiram inteiras, como se tivessem escolhido me encontrar. — … desvio de porta funcional… — … rota não autorizada… — … perda temporária de disponibilidade… Brenner respondeu algo. Não ouvi. A mulher do casaco escuro falou mais alto: — A acusação preliminar é interferência na disponibilidade de um contemplado. Interferência na disponibilidade de um contemplado. A frase atravessou o vidro e me encontrou agachado no corredor, ainda com cheiro de peixe e pão preso na garganta. Eu era o contemplado. A disponibilidade era minha. A interferência era Brenner. Tive vontade de bater no vidro. Gritar. Descer. Fazer alguma coisa nobre, idiota e terminal. Mas o corpo, esse covarde competente, permaneceu agachado. Talvez porque Brenner não tivesse deixado uma porta destrancada para que eu voltasse por ela. Talvez porque a salvação de ninguém mereça ser desperdiçada em gestos bonitos demais. Heitor deu um passo à frente. Não ouvi o início. Ouvi apenas quando sua voz subiu. — … não foi operacional. A mulher do casaco virou o rosto para ele. Heitor continuou. — Foi afetivo. O pátio mudou. Não sei explicar melhor. Os corpos não se moveram muito, mas o ar mudou. Os Palhaços se entreolharam. Os auxiliares cinzentos abaixaram a cabeça. O homem gordo parou de beber água. O magro sorriu com a boca fechada. Brenner olhou para Heitor como se tivesse recebido, ao mesmo tempo, uma facada e uma explicação. Afetivo. Heitor pronunciou a palavra como quem entrega uma prova e esconde um ferimento. Ciúme, pensei. E o pensamento foi tão vulgar que quase me pareceu esperança. No meio de tudo aquilo — caça, cozinha, Comitê, portas funcionais, disponibilidade —, um homem bonito de cabelo verde ainda era capaz de condenar outro por ciúme. A máquina tinha caprichos. Eu já sabia. Mas agora via o capricho acender uma fogueira. A mulher do casaco fechou a pasta. Não ouvi a sentença. Ainda não. Uma sirene curta soou em outro ponto do prédio. Dois Palhaços passaram correndo pelo corredor abaixo de mim, falando sobre o muro leste. Muro leste. O lado oposto. A tropa de contenção ainda procurava o fugitivo onde a Administração acreditava que todo fugitivo decente deveria estar: perto do limite visível, dos refletores, das rotas medidas, dos lugares onde o medo vira planilha. Eu estava dentro. No lugar onde ninguém me procurava porque ninguém imaginava que um contemplado pudesse passar pela ala reservada a quem administrava a contemplação. Essa foi a brecha. Não minha coragem. Não minha inteligência. A arrogância deles. Afastei-me da janela antes que o corpo me traísse e decidisse ficar olhando. O corredor seguia para os fundos do prédio. Caminhei abaixado, passando por portas entreabertas, armários, caixas de mantimentos, tubos, mapas do campus, telas desligadas. Em uma parede, havia um quadro com rotas marcadas em vermelho e azul. Reconheci o pátio dos fundos, o muro baixo, a biblioteca, o bosque seco, a seta falsa, a porta cinza. Reconheci, em linhas e pontos, a minha quase fuga da noite anterior e a minha fuga daquele dia. Eu não estava escapando de uma caçada. Estava atravessando o desenho dela. No fim do corredor, uma porta metálica tinha uma placa simples: SERVIÇO — FUNDOS Sem slogan. Sem promessa. Sem gratidão. Empurrei. A porta abriu para uma área externa estreita, ainda dentro do perímetro da Universidade. Um corredor de carga, cercado por muros baixos, depósitos e grades enferrujadas. Adiante, depois de um pátio de concreto rachado, ficavam os portões dos fundos. A cidade estava além deles. Não a Ilha. A cidade. Escura, ruim, viva. Dei um passo para fora. O ar tinha cheiro de mato queimado, lixo antigo e liberdade sem propaganda. Nunca um cheiro tão ruim me pareceu tão honesto. Atrás de mim, porém, o pátio interno respondeu com um ruído seco de alto-falante. A voz da mulher do casaco escuro se espalhou pelos corredores de serviço, limpa, amplificada, intoleravelmente calma: — Confirmada a interferência na disponibilidade de um contemplado. Confirmada a motivação afetiva. Parei. A área de carga parecia vazia. Os portões dos fundos estavam a menos de cinquenta passos. Cinquenta passos. Talvez menos. A voz continuou: — O auxiliar Brenner será submetido à correção terminal por contaminação de função. Correção terminal. Não sentença. Não execução. Não morte. Correção terminal. A Administração jamais desperdiçava uma chance de ofender a linguagem antes de ofender o corpo. Agarrei a lateral de uma pilastra para não cair. Havia, à minha esquerda, uma escada metálica curta que subia até uma plataforma de manutenção. Dali, talvez fosse possível ver o pátio interno por cima do muro de serviço. Talvez não. Talvez eu devesse continuar andando. Talvez Brenner tivesse deixado aquela porta destrancada justamente para que eu não transformasse sua culpa em espetáculo. Mas a voz da mulher ainda ecoava. E o nome dele ainda estava no ar. Brenner. Meu colega de beliche. O rapaz do primeiro banho. O quase Palhaço. O homem que me dera uma porta. Subi um degrau. Depois outro. O violão ao dente, distante, recomeçou em algum lugar atrás das paredes. Ou talvez fosse apenas meu crânio rangendo. Do alto da plataforma, vi uma fresta do pátio. Vi os cabelos verdes formando círculo. Vi Heitor imóvel. Vi Brenner no centro, pequeno demais para a distância, claro demais sob a luz. Não vi a morte. Ainda não. Mas vi o instante em que ela foi autorizada. E entendi que, se eu desse mais um passo para enxergar melhor, talvez nunca chegasse aos portões dos fundos. Acompanhe A Ilha, [aqui](https://logosgrafia.com/category/logosgrafia-em-series/a-ilha/). Acompanhe mais séries, [aqui](https://logosgrafia.com/estantes/logosgrafia-em-series/). [](https://logosgrafia.com/)Volte ao início, [aqui](https://logosgrafia.com/).
