# Minhas antigas vizinhas

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/07/24/minhas-antigas-vizinhas/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-07-24T12:30:00-03:00
- Modified: 2026-07-24T23:21:46-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Crônicas Zargolinianas, laboratório, Publicações

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[](https://i0.wp.com/logosgrafia.com/wp-content/uploads/2026/07/feita-em-laboratorio-1.png?ssl=1) Uma revoada, um antigo endereço e a breve tentação de sentir saudade daquilo que foi muito melhor depois que acabou. Hoje passei perto do apartamento em que morei durante certo período da vida. [Há lugares que deixamos para trás](https://logosgrafia.com/2026/05/07/o-dilema-dos-retornos/), mas que insistem em permanecer na rota do supermercado. Na volta, encontrei uma revoada de maritacas fazendo festa nas árvores da esquina. Haviam descoberto algumas frutinhas e comemoravam como quem acabava de receber uma herança. O som era alegre, vivo e um pouco mais alto do que a alegria precisava ser. Quando nos mudamos para lá, tudo parecia um sonho. As aves sobrevoavam a sacada, pousavam na fiação e anunciavam o começo e o fim dos dias. Tirávamos fotos quando se aproximavam. Nos primeiros tempos, chamávamos aquilo de canto. Havia certa poesia em morar entre lojas, carros, prédios e criaturas coloridas. Duas semanas mais tarde, já sentíamos saudade de dormir. O alvorecer deixou de ser um fenômeno poético e passou a ser uma agressão sonora. Em pouco tempo, aquela convivência deixou de ser contemplativa e se tornou inconveniente. Um mês depois, já não morávamos perto de aves lindas. Morávamos num lugar infestado de bichos. A transformação de “pássaros encantadores” em “bicudas barulhentas” foi bastante rápida. A poesia durou menos do que o contrato de aluguel. Logo descobrimos também o interesse delas pela fiação do ar-condicionado, uma vez que já não bastava acordar os moradores: era preciso ameaçar os eletrodomésticos. O que antes cantava começava a produzir prejuízo. Houve ainda o período em que acreditávamos ter um rato dentro do sofá. Durante alguns dias, convivemos com a possibilidade de um roedor ter escolhido nossa sala para morar. O invasor, porém, não estava dentro de casa. Era um pássaro que decidira construir um ninho num pequeno buraco do lado de fora da janela. Quando descobrimos o verdadeiro responsável, a abertura já estava imensa. Ele não havia feito um ninho. Havia iniciado uma obra. Naquela tarde, o alvoroço da esquina trouxe de volta as lembranças boas e, logo em seguida, todas as outras. Foi bom rever a cena com a certeza de quem estava só de passagem. Claro, continuo achando bonitas essas aves, sobretudo quando pertencem à paisagem de outra pessoa. Fui embora ouvindo a algazarra e agradecendo por elas não saberem onde moro agora. Afinal, nem toda [nostalgia](https://logosgrafia.com/category/nostalgrafia/) deseja um retorno. Algumas pedem apenas que a gente continue caminhando. [ ⚗ Feita em laboratório ](https://logosgrafia.com/?page_id=11216) Esta crônica nasceu de uma experiência prática de autoria em interação com inteligência artificial. No [primeiro tubo de ensaio do Laboratório](https://logosgrafia.com/?p=11220), você poderá acompanhar o relato original, as primeiras versões, os excessos recusados, a técnica da enumeração e as escolhas que conduziram ao texto final. [ Seja uma Semente e conheça o processo ](https://logosgrafia.com/?p=11220) Continue pelas [ Crônicas Zargolinianas ](https://logosgrafia.com/category/cronicas-zargolinianas/).
