# Logosgrafia Apresenta: &#8220;É um ratinho?&#8221;, de Guido van Genechten

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/07/29/logosgrafia-apresenta-e-um-ratinho-de-guido-van-genechten/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-07-29T20:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-05T13:39:42-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia Apresenta, Pedagogia, Pedagogia e outras ciências, Publicações

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Em É um ratinho?, cada imagem parece oferecer uma resposta — até que uma dobra, um movimento ou uma nova perspectiva transforma aquilo que parecia certo. O livro convida a criança a observar, imaginar, levantar hipóteses e descobrir que uma imagem pode guardar muito mais do que mostra à primeira vista. Livro de imagem Autor e ilustrador: Guido van Genechten Educação Infantil Leitura, imaginação e investigação Um livro sem narrativa verbal não é um livro sem história. Em obras como É um ratinho?, de Guido van Genechten, a narrativa acontece por meio das imagens, das formas, das cores, das dobras e das relações que o leitor constrói entre uma página e outra. A criança não recebe tudo pronto. Ela observa uma parte da imagem, procura pistas, compara possibilidades e tenta antecipar aquilo que poderá aparecer. Ao abrir a página, descobre que a figura inicial podia transformar-se em algo diferente do que havia imaginado. Antes de descobrir o que a imagem “é”, a criança experimenta aquilo que ela “poderia ser”. Essa dinâmica faz da leitura uma pequena experiência investigativa. A pergunta presente no título não solicita apenas a identificação de um animal. Ela inaugura um jogo de percepção: o que estamos vendo, quais pistas encontramos e que outras formas podem surgir a partir delas? ## Um livro para ler com os olhos, o corpo e a imaginação Durante a leitura, as crianças podem apontar detalhes, movimentar o corpo para representar os animais, nomear cores, imitar sons, discordar dos colegas e modificar suas hipóteses. A experiência literária, portanto, não se limita à escuta silenciosa nem à procura de uma resposta correta. O livro cria condições para que cada criança participe conforme suas possibilidades. Algumas poderão nomear os animais; outras apontarão elementos das imagens, produzirão sons, realizarão gestos ou demonstrarão surpresa diante das transformações. Todas essas manifestações podem ser reconhecidas como formas legítimas de leitura e participação. ### Observar Perceber linhas, cores, formatos, posições e pequenos indícios presentes nas imagens. ### Levantar hipóteses Imaginar o que poderá aparecer e justificar as próprias ideias a partir das pistas encontradas. ### Comunicar Expressar descobertas por meio da fala, dos gestos, dos movimentos, dos sons e das produções gráficas. ### Reformular Perceber que uma hipótese pode ser modificada quando surgem novas informações. ## O diálogo com a BNCC Na Educação Infantil, a BNCC organiza o currículo a partir dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento e dos campos de experiências. Isso significa que o livro não precisa ser utilizado como pretexto para exercícios isolados ou para a antecipação de conteúdos escolares. Sua potência está nas experiências que pode favorecer: brincar com as imagens, participar da leitura, explorar diferentes formas de expressão, comunicar descobertas, conviver com interpretações distintas e construir conhecimentos por meio da curiosidade. Considerando especialmente o trabalho com crianças bem pequenas — de 1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses , a proposta pode dialogar com objetivos como: EI02EF01 Dialogar com crianças e adultos, expressando desejos, necessidades, sentimentos e opiniões. EI02EF03 Demonstrar interesse e atenção ao ouvir a leitura de histórias e outros textos, diferenciando escrita e ilustrações e acompanhando a leitura realizada pelo adulto. EI02EF04 Formular e responder perguntas sobre a história, identificando personagens, cenários e acontecimentos. EI02EF05 Relatar experiências, fatos, histórias ouvidas e produções audiovisuais assistidas. EI02EF06 Criar e contar histórias oralmente com base em imagens ou temas sugeridos. EI02CG05 Desenvolver progressivamente habilidades manuais em experiências de desenhar, pintar, rasgar, folhear e manipular diferentes materiais. EI02TS02 Explorar cores, texturas, superfícies, formas e volumes ao criar com materiais variados. EI02ET04 Identificar relações espaciais, como dentro e fora, em cima e embaixo, entre e ao lado, além de relações temporais como antes, durante e depois. EI02ET05 Classificar objetos considerando atributos como tamanho, cor, peso e forma. Importante: os objetivos da BNCC não precisam ser mobilizados todos ao mesmo tempo. O professor deverá selecionar aqueles que correspondem às experiências realmente planejadas, à faixa etária e aos interesses manifestados pelo grupo. ## Como realizar a leitura 1 ### Apresente o livro Convide as crianças a observar a capa, o formato, as cores e os elementos que aparecem inicialmente. Leia o título e acolha as primeiras hipóteses sem revelar antecipadamente as transformações. 2 ### Leia sem pressa Permita que as crianças examinem cada imagem. Faça pausas verdadeiras: o tempo de observação é parte da leitura, e não um intervalo entre duas falas do professor. 3 ### Acolha diferentes interpretações Em vez de perguntar apenas “que animal é esse?”, incentive a investigação: “O que você percebeu?”, “Onde está essa pista?” ou “Alguém imaginou outra coisa?”. 4 ### Valorize a surpresa Ao revelar a transformação da imagem, observe as reações das crianças. Não é necessário explicar imediatamente. O espanto, o riso, o gesto e a vontade de rever a página também fazem parte da experiência estética. 5 ### Retome o livro Em uma segunda leitura, as crianças já conhecem algumas surpresas e podem observar como cada transformação foi construída. Reler não significa repetir mecanicamente: significa descobrir outras camadas da obra. ## Perguntas que ampliam a experiência - O que você está vendo? - O que fez você pensar nisso? - Qual parte da imagem parece com um animal? - O que poderá aparecer quando abrirmos a página? - Alguém imaginou uma coisa diferente? - O que mudou na imagem? - Quais formas e cores continuaram iguais? - Que som esse animal poderia fazer? - Como ele poderia se movimentar? - Em que outra coisa essa forma poderia se transformar? As perguntas não devem formar um interrogatório nem funcionar como teste de atenção. Elas são convites para olhar novamente, compartilhar ideias e perceber que diferentes leitores podem construir diferentes caminhos de interpretação. ## Possíveis desdobramentos ### Jogo das transformações Disponibilize formas geométricas, recortes ou manchas para que as crianças imaginem no que cada elemento pode se transformar. ### Desenho com surpresa Produza desenhos em folhas dobradas, criando uma imagem inicial que se modifica quando a folha é aberta. ### Corpo de animal Convide o grupo a experimentar movimentos, gestos e sons inspirados nos animais encontrados durante a leitura. ### Caixa de imagens Reúna fotografias, silhuetas e fragmentos de figuras para que as crianças comparem cores, tamanhos, formas e texturas. ### Nova página coletiva Crie com as crianças uma página inspirada na lógica do livro, registrando as hipóteses e decisões do grupo. ### Pesquisa sobre animais Retome os animais que despertaram maior curiosidade e procure informações em livros, imagens e outros materiais selecionados pelo professor. O desdobramento não precisa acontecer imediatamente. Também não é necessário transformar toda leitura literária em uma sequência de tarefas. Em muitos momentos, ler, conversar, observar novamente e permitir que o livro permaneça disponível ao grupo já constitui uma experiência completa e significativa. ## O vídeo como recurso complementar O recurso audiovisual pode ampliar o contato com a obra, favorecer uma retomada da narrativa e apoiar situações em que o livro físico não esteja disponível para todas as crianças. No entanto, ele não substitui integralmente a experiência de manusear o livro, observar suas dobras e controlar o próprio tempo de leitura. Uma possibilidade é realizar primeiro a leitura mediada com o livro físico e utilizar o vídeo posteriormente, convidando as crianças a comparar as duas experiências: o que perceberam novamente, quais detalhes haviam passado despercebidos e de qual forma de leitura mais gostaram. Recurso complementar: apresentação audiovisual de É um ratinho?, de Guido van Genechten. [ Assistir diretamente no YouTube ](https://youtu.be/PwDDFPsI0rg?feature=shared) ## A mediação docente faz diferença Trabalhar com um livro de imagem não significa abandonar a intencionalidade pedagógica. Significa deslocá-la. O professor não precisa conduzir todas as crianças até uma única interpretação, mas organizar condições para que observem, formulem hipóteses, comuniquem suas ideias e ampliem progressivamente suas formas de ler. Uma mediação potente não antecipa todas as respostas. Ela sustenta a curiosidade, acolhe os gestos e as falas, devolve perguntas ao grupo e reconhece que o pensamento infantil também se manifesta por meio do corpo, do silêncio, da repetição e do desejo de olhar mais uma vez. O professor não lê a imagem no lugar da criança. Ele cria condições para que a criança se reconheça como leitora. ## O que observar e documentar ### Avaliar não é verificar quem acertou o animal. Durante as experiências, o professor pode observar como cada criança participa da leitura; quais detalhes percebe; como comunica suas hipóteses; se acompanha as transformações das imagens; como reage às ideias dos colegas; quais gestos, sons e palavras utiliza; e de que maneira retoma elementos do livro em brincadeiras e produções posteriores. Fotografias, pequenas transcrições de falas, registros das hipóteses, desenhos e anotações do professor podem compor a documentação pedagógica. Esses materiais ajudam a tornar visíveis os processos de aprendizagem sem reduzir a experiência a resultados padronizados. ## Literatura como experiência, não como pretexto É um ratinho? mostra que um livro aparentemente simples pode mobilizar observação, imaginação, linguagem, expressão corporal, percepção espacial, investigação e criação. Isso ocorre não porque a obra “ensine conteúdos” de maneira direta, mas porque oferece uma forma singular de olhar e de pensar. Ao aproximar literatura, brincadeira e investigação, o professor preserva a dimensão estética da obra e, ao mesmo tempo, cria experiências coerentes com os princípios da Educação Infantil. A BNCC aparece, então, não como uma lista acrescentada posteriormente ao planejamento, mas como referência para compreender as aprendizagens que emergem das interações entre crianças, adultos, imagens, materiais e histórias. Talvez o maior convite do livro seja justamente este: antes de ensinar a criança a procurar respostas prontas, permitir que ela descubra o prazer de formular uma boa pergunta. Referências BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. GENECHTEN, Guido van. É um ratinho? São Paulo: Gaudí Editorial. GRUPO EDITORIAL GLOBAL. É um ratinho?: projeto de leitura. Material de apoio pedagógico.
