# Farmar aura: quando o invisível ganha campeonato

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/08/08/farmar-aura-quando-o-invisivel-ganha-campeonato/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-08-08T13:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-08T11:51:16-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Crônicas Zargolinianas, Estudos de caso para mentes inquietas, Logosgrafia é pop, Logosgrafia URGENTE, Pedagogia e outras ciências, Publicações

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Por Paulo Ricardo Zargolin Lá vem um jovem idoso de quase quarenta criticando a juventude. Se foi isso que você pensou ao ler o título, é melhor recalcular a rota. A idade já me autoriza a reclamar da lombar. Talvez dos juros. Da juventude, não sei. Meu prontuário geracional é comprometedor demais. A curiosidade começou quando “farmar aura” escapou das redes e ganhou praça, público e campeonato. Em julho de 2026, [centenas de jovens ocuparam o Largo de São Mateus, em São Paulo](https://www.dm.com.br/entretenimento/campeonato-de-farmar-aura-reune-centenas-de-jovens-no-largo-de-sao-mateus-em-sp/), para disputar quem conseguia acumular mais daquilo que, tecnicamente, ninguém consegue pegar. Houve performances, reação da plateia e premiação. Poucos dias depois, a [Praça da Paz, em João Pessoa](https://www.pontopb.com.br/noticia/paraiba-260016241/praca-da-paz-recebe-primeiro-ycampeonato-de-farmar-auray-de-joao-pessoa.html), recebeu sua própria versão, com confrontos eliminatórios decididos pelo público. O invisível ganhou chaveamento. Nos jogos eletrônicos, “farmar” significa repetir ações para acumular experiência, recursos ou alguma vantagem. Aura, na gíria, virou essa pontuação imaginária de presença: a pessoa entra num lugar, faz alguma coisa e parece adquirir ou perder pontos diante de um tribunal que só existe porque todo mundo concordou em enxergá-lo. A aura gosta de esforço. Só prefere que ninguém veja o suor. A psiquiatra Ana Beatriz Barbosa chamou atenção para esse paradoxo em um [vídeo do PodPeople](https://www.youtube.com/watch?v=HZmz9Otp5T8). O próprio verbo poderia carregar uma ideia bonita: cultivo exige tempo. Se alguém passa anos cultivando o que leva para os outros, alguma coisa desse trabalho acaba irradiando. As redes descobriram que também é possível cultivar a impressão. E aí a agricultura ficou interessante. ## A coreografia do desinteresse Os encontros presenciais tornam visível uma coisa que no feed passa rápido demais. Assistindo aos registros desses campeonatos, aparece um repertório corporal curioso. Um braço atravessa lentamente o ar. A cabeça inclina alguns graus. O olhar escapa para o lado. Às vezes o corpo inteiro parece estacionado enquanto uma única parte continua cumprindo algum protocolo secreto. Há movimentos que retornam de participante para participante, atravessam vídeos e recebem pequenas mutações pelo caminho. Uma espécie de catatonia pop — estética, convém esclarecer, não prontuário. E aqui a gíria quase se explica sozinha. Farmar sempre envolveu repetição. O corpo pegou a metáfora antes da crítica. Repetir o gesto permite reconhecê-lo. Reconhecê-lo permite participar. E cada participante precisa executar algo que já pertence ao vocabulário coletivo deixando, se possível, a impressão de que acabou de inventá-lo. Ensaiar espontaneidade talvez seja uma das modalidades esportivas mais antigas da humanidade. ## Nosso prontuário também contém vídeos É nessa hora que o jovem idoso precisa entregar suas armas. A geração anterior à minha passou um período considerável da vida copiando passinhos de videoclipes. A coreografia chegava pronta e bastava um pouco de insistência para que salas, festas e corredores fossem ocupados por versões domésticas de artistas internacionais. Eu vivenciei o Harlem Shake. Durante algum tempo pareceu inteiramente razoável colocar uma pessoa fazendo movimentos suspeitos diante de colegas imóveis, cortar o vídeo e retornar segundos depois com todo o ambiente possuído por alguma entidade coreográfica. Nós fizemos isso voluntariamente. E sobrevivemos. Pokémon GO torna a acusação geracional ainda mais difícil. O jogo foi [anunciado em 2015](https://apps.voxmedia.com/at/theverge-pokemon-go-the-first-year) e [lançado em julho de 2016](https://pokemongolive.com/post/launch/). Em pouco tempo havia adultos perfeitamente funcionais desviando trajetos, ocupando praças e olhando para o celular porque um monstrinho invisível estaria, aparentemente, atrás de uma árvore. Dez anos depois, [Pokémon GO continua oficialmente vivíssimo](https://pokemongolive.com/news/pokemongo-10th-anniversary-art). E existe outra sobrevida que o comunicado oficial dificilmente registraria: aquela instalada silenciosamente em alguns celulares até hoje, talvez na terceira tela, discretamente posicionada entre um aplicativo de banco e outro que ninguém abre há seis meses. Não pedirei nomes. Toda geração guarda um pequeno museu de comportamentos que pareciam perfeitamente normais enquanto estavam acontecendo. Há vergonha que envelhece e vira folclore. O ponto interessante aparece quando comparamos o objeto da brincadeira. Errar o passinho significava errar uma coreografia. Em Pokémon GO, o fracasso podia ser perder o monstrinho. No campeonato de aura, o participante leva uma matéria-prima bem mais escorregadia para o centro da roda: ele mesmo. O gesto passa a funcionar como evidência de presença, estilo, segurança, carisma — qualquer coisa capaz de fazer a plateia concluir que aquela pessoa tem “aura”. E a plateia conclui. Em voz alta. ## O algoritmo ganhou cordas vocais Essa é uma das imagens mais bonitas e estranhas desses encontros. Aquilo que no celular seria curtida, visualização e comentário reaparece na praça como grito. O algoritmo ganhou cordas vocais. Existe inclusive algo saudável nessa contradição. Uma linguagem criada e espalhada por telas conseguiu colocar adolescentes na rua, reunidos com desconhecidos, inventando performances e rindo juntos. Considerando o estado geral das coisas, jovens ocupando uma praça para brincar não me parece exatamente um sinal do Apocalipse. O campeonato talvez seja a parte mais franca do fenômeno. Todos conhecem o acordo. A pessoa entra na roda querendo parecer interessante, a plateia sabe que está avaliando isso e ninguém precisa fingir que o julgamento surgiu por acidente. A encenação vem com regulamento. O negócio fica mais complicado quando levamos a plateia para casa. Uma experiência pode começar já acompanhada de sua própria miniatura. A roupa antecipa a fotografia. A viagem produz enquadramentos antes mesmo da chegada. Até uma atitude verdadeiramente generosa pode, durante alguns segundos, fazer nascer a imagem mental do belo vídeo que aquilo renderia. A câmera ainda está no bolso. O enquadramento já aconteceu por dentro. ## A capa também entrou no campeonato Foi justamente por isso que a capa deste texto precisava participar da brincadeira. O caminho visual estava praticamente pronto: um adolescente diante do celular, alguma luz neon, corações flutuando, talvez números de curtidas subindo pelo fundo. O kit completo da representação contemporânea de “jovens e redes sociais”. Deixamos esse pacote na prateleira. A decisão editorial foi implicar o próprio acervo. Por isso a Rainha de Zagos desafia [Lia](https://logosgrafia.com/estantes/logosgrafia-em-series/lia-no-pais-da-logosgrafia/), que ergue a carta quadrada de [MAGENTA!](https://logosgrafia.com/estantes/jogos-logosgraficos/magenta/), dividida em seus quatro quadrantes — magenta, ciano, amarelo e preto. [ZAGO](https://logosgrafia.com/estantes/jogos-logosgraficos/zago/) entra na disputa. E, quando a cena ameaça adquirir solenidade demais, [uma tia apaixonada atravessa o céu num tapete voador](https://logosgrafia.com/estantes/jogos-logosgraficos/familia-em-transito/). [Do nada.](https://logosgrafia.com/estantes/jogos-logosgraficos/do-nada/) Como deve ser. Ali se encontram pedaços de universos que o Logosgrafia vem construindo: personagens, jogos, signos e absurdos familiares retirados das próprias gavetas para disputar presença dentro de uma única imagem. Havia também um cuidado menos visível nessa escolha. Colocar adolescentes reais na capa os transformaria imediatamente em espécimes do fenômeno que estamos examinando. Seria confortável demais apontar a câmera para eles enquanto o texto passa vários parágrafos tentando lembrar das nossas próprias ridicularidades. Então colocamos os nossos bonecos no palco. A caricatura caiu sobre o próprio acervo. E aconteceu uma coisa melhor: antes mesmo da primeira linha, o Logosgrafia já estava farmando a própria aura. A capa acabou virando uma pequena confissão editorial. Estamos todos no jogo. A tia no tapete só teve a gentileza de chegar voando. ## Depois que o público vai embora É aqui que a provocação de Ana Beatriz retorna com mais força. Uma imagem pode ser inteiramente verdadeira e, ainda assim, começar a reorganizar a experiência que pretende apenas registrar. Posso gostar genuinamente de alguém e gostar também da imagem de mim mesmo sendo alguém que gosta daquela pessoa. Posso defender uma causa honesta e descobrir, no caminho, que aquela defesa também me veste muito bem. A condição humana comporta essas sobreposições com uma tranquilidade assustadora. A novidade está na precisão dos instrumentos disponíveis para medi-las. Reputação já dependeu muito de convivência, memória e fofoca. Agora ela vem com painel de controle. Caráter cresce em outro ritmo. Costuma aparecer naquela faixa pouco instagramável da existência em que seria fácil levar vantagem e ninguém descobriria. É péssimo material para campeonato: demora, não tem placar e frequentemente acontece sem testemunha. Farmar aura durante uma tarde na praça pode render uma ótima brincadeira. Passar a vida inteira obedecendo à plateia imaginária já é um esporte bem mais caro — e há competidores de todas as idades. Daqui a alguns anos, provavelmente haverá outra gíria. Os gestos de hoje parecerão estranhos. Alguém encontrará um vídeo antigo e perguntará, horrorizado: — Vocês faziam isso? Fazíamos. Eles também fizeram. E outros farão alguma coisa ainda mais inexplicável depois de nós. Essa parte me preocupa pouco. A pergunta boa começa quando termina a disputa, o público dispersa, o celular volta para o bolso e ninguém mais está contando os pontos. O que sobra? Caráter tem esse inconveniente. Costuma começar o expediente justamente quando a plateia foi embora. ## Continue pelo acervo Este texto atravessou inquietação, jogo e memória. As três continuam em outras estantes do Logosgrafia. [ Olhar de novo ### Estudos de Caso para Mentes Inquietas Situações públicas, conflitos e cenas do cotidiano examinados além das respostas fáceis. Abrir outra inquietação → ](https://logosgrafia.com/estantes/estudos-de-caso-para-mentes-inquietas/) [ Colocar em movimento ### Jogos Logosgráficos ZAGO, MAGENTA!, Do nada!, Família em Trânsito e outras ideias feitas para sair da tela. Começar uma partida → ](https://logosgrafia.com/estantes/jogos-logosgraficos/) [ Lembrar outra vez ### Nostalgrafia Televisão, músicas, objetos e pequenas vergonhas geracionais que retornam carregando alguma coisa. Voltar por outro caminho → ](https://logosgrafia.com/estantes/nostalgrafia/)
