# Quem canta seus males espanta: o dia em que Nino perdeu a voz

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/08/08/quem-canta-seus-males-espanta-o-dia-em-que-nino-perdeu-a-voz/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-08-08T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-08T12:30:10-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Acervo, Publicações

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🌱 Este conteúdo faz parte do acervo reservado aos assinantes Semente. Se você já é Semente, basta acessar sua conta para continuar a leitura. Se ainda não é, assine para abrir esta e outras gavetas do acervo do Logosgrafia. Uma criança de trezentos anos também pode ser colocada de castigo. As consequências, naturalmente, são um pouco diferentes. No episódio 66 de Castelo Rá-Tim-Bum, “Quem canta seus males espanta”, Nino e Dr. Victor se desentendem por causa de uma apresentação musical. Victor dispõe de recursos disciplinares que meus pais, felizmente, jamais tiveram: com um feitiço, simplesmente tira a voz do sobrinho. Acabou a discussão. Ou deveria ter acabado. Porque Nino logo descobre um pequeno defeito no sistema. Ele não consegue falar. Mas consegue cantar. Há episódios do Castelo Rá-Tim-Bum que ficaram na memória por uma imagem, uma música, uma aparição da Caipora, uma maluquice do Dr. Abobrinha. Outros são difíceis de reconstruir tantos anos depois porque se misturaram naquele grande casarão mental em que guardamos a televisão da infância. “Quem canta seus males espanta” merece uma prateleira própria. Primeiro porque sua ideia central é deliciosa. Dr. Victor consegue retirar de Nino a fala, mas não consegue retirar dele a voz. O feitiço é suficientemente poderoso para interromper uma conversa e suficientemente incompetente para enfrentar uma melodia. Nino encontra uma brecha. E canta. Para uma criança, isso bastava como brincadeira. Revendo a premissa tantos anos depois, há qualquer coisa de maravilhosamente Castelo Rá-Tim-Bum nessa solução. A magia nunca encerrava completamente as coisas por ali. Sempre sobrava uma portinha. Talvez porque aquele Castelo inteiro fosse uma portinha. Você entrava para descobrir o que havia atrás de uma porta e encontrava um rato tomando banho. Olhava para uma cobra e ela conversava. Uma parede podia abrigar passarinhos músicos. Uma televisão infantil podia, sem grandes cerimônias, decidir que estava na hora de levar seu público ao Teatro Municipal de São Paulo. E é justamente aí que o episódio 66 fica especialmente bonito. A brincadeira com Nino e sua voz vai desembocar em uma grande apresentação musical de “Tico-Tico no Fubá”, registrada no Teatro Municipal. Se o vídeo não carregar, [assista diretamente no Google Drive](https://drive.google.com/file/d/1vSj3wQtSa4lq_kdIPz8XYWrt9--zjbY6/view?usp=sharing). De repente, o Castelo sai do Castelo. O cenário tão familiar da TV Cultura dá lugar a um dos palcos mais importantes do país, e aquela turma que normalmente víamos espalhada entre lustres falantes, encanamentos musicais e bolas perdidas aparece envolvida numa produção muito maior. Anos depois, Cinthya Rachel ainda [se lembraria do vestido de princesa usado para gravar “Tico-Tico no Fubá” no Teatro Municipal](https://www1.folha.uol.com.br/fsp/serafina/sr2604200909.htm). É um daqueles momentos em que se percebe a confiança que o programa depositava nas crianças que estavam do outro lado da televisão. Ninguém precisava interromper a história para avisar que aquilo era cultura. A cultura estava acontecendo. Esse talvez seja um dos fósseis mais interessantes encontrados quando escavamos o Castelo Rá-Tim-Bum hoje. Havia uma ambição gigantesca escondida dentro da aparente simplicidade de um programa infantil. O Teatro Municipal podia aparecer. Um choro composto por Zequinha de Abreu no começo do século XX podia ocupar vários minutos. E uma criança podia assistir a tudo aquilo pelo prazer de saber se Nino conseguiria recuperar sua voz. A aula acontecia sem tocar o sinal. “Tico-Tico no Fubá”, aliás, já carregava uma viagem enorme antes de chegar ao Castelo. A composição de Zequinha de Abreu atravessou décadas, ganhou diferentes letras e interpretações e se tornou conhecida internacionalmente; o [Instituto Moreira Salles conserva um belo percurso dessas várias versões](https://radiobatuta.ims.com.br/playlists/tico-tico-no-fuba-quase-cem-anos). Nada disso precisava constar na prova de sexta-feira. Talvez por isso tenha ficado. É curioso perceber quanto do nosso repertório cultural foi construído dessa maneira. Antes de sabermos quem havia composto determinada música, já a reconhecíamos. Antes de conhecermos um prédio histórico, talvez já tivéssemos passado por ele na televisão. Antes de entendermos a referência, a referência já morava conosco. A infância não arquiva com ficha catalográfica. Ela empilha. Décadas depois, a gente começa a abrir as caixas. E lá está o episódio 66. Nino sem voz. Dr. Victor convencido de que tinha resolvido a situação. Uma fresta no feitiço. O Teatro Municipal. E aquele tico-tico insistente correndo atrás do fubá. Agora que o Castelo Rá-Tim-Bum também começa a ocupar seu lugar neste acervo, vale guardar episódios assim inteiros, e não apenas como lembrança genérica de uma infância diante da TV Cultura. Algumas cenas explicam por que o programa continuou conosco mesmo depois que crescemos demais para visitar Nino todas as tardes. Ele nos apresentava coisas. Às vezes nem percebíamos que estávamos sendo apresentados. Foi assim também com uma certa cantora que ajudou “Tico-Tico no Fubá” a atravessar o mundo. Mas essa caixa fica fechada só mais um pouquinho. É assunto para outra Nostalgrafia. ## Continue pelo acervo Há outras estantes esperando para serem abertas. [ ### Logosgrafia é pop Filmes, músicas, personagens e acontecimentos populares começam como entretenimento e terminam dizendo alguma coisa sobre nós. 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