# Em um interminável domingo

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/08/16/em-um-interminavel-domingo/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-08-16T20:00:00-03:00
- Modified: 2026-07-22T21:35:54-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Em uma crudelíssima semana, Logosgrafia em séries, Publicações

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Parte 2 ## A semana que não terminou O domingo não terminou quando a polícia foi embora. Os carros partiram levando o barulho, as perguntas e um homem que ainda não compreendia por que seu nome aparecia em um cheque de valor alto demais. Amanda foi levada para o hospital. Seu Leônidas, para averiguação. Ainda naquele dia, a condução fora convertida em prisão temporária, sustentada pelo cheque, pelas fotografias e pela suspeita de que tentara proteger o filho. E Luísa voltou para casa. Sem pressa. Sem surpresa. Sem as pétalas. Quando abriu a porta, a Alexa anunciou alguma coisa sobre a temperatura. Luísa não ouviu. Retirou os sapatos, deixou a clutch sobre o sofá e caminhou até o quarto. Os pedaços do espelho continuavam espalhados sobre a mesinha de cabeceira. Uma semana antes, refletiam sua alma despedaçada. Agora refletiam apenas o teto. Luísa buscou uma caixa, ajoelhou-se e começou a recolhê-los. Um por um. Sem cortar os dedos. Na segunda-feira anterior, às dezoito horas e quinze, o celular vibrara dentro da bolsa. Ela ainda estava no escritório. Amanda já havia desaparecido, embora ninguém soubesse. A notificação vinha do banco. Um cheque de valor alto havia sido depositado na conta conjunta que Luísa mantinha com Ricardo. Uma conta antiga, aberta quando os dois ainda acreditavam que poderiam dividir alguma coisa além das despesas. O valor estava em compensação. O nome do depositante, incompleto. Luísa olhara a tela por alguns segundos. Depois para a porta do elevador. Amanda não havia descido. Foi naquele momento que seu sorriso terminou. Na terça-feira, encontrou a primeira pétala. Na quarta, a segunda. Ricardo sempre gostara de sinais que pareciam românticos quando ninguém conhecia sua verdadeira função. Pétalas não deixavam histórico de chamadas. Não apareciam em aplicativos. Não precisavam ser apagadas. Na quinta-feira, ele telefonou. Na sexta, sentou-se diante dela no restaurante como se a semana não tivesse acontecido. Esperou o vinho. Esperou o prato. Esperou a sobremesa. Ricardo sempre esperava o instante em que uma mulher já havia interpretado gentileza demais para perceber que estava sendo usada. Foi somente depois que o garçom se afastou que ele falou do dinheiro. — Fiz um depósito na nossa conta. Luísa apoiou a colher ao lado do prato. — Eu vi. Ricardo não esperava. O rosto dele mudou apenas o suficiente. — Minha conta está bloqueada. Qualquer valor que entrar pode ser retido. — E você decidiu usar a minha. — A nossa. A correção veio rápida. Rápida demais. — De onde veio o cheque? Ricardo girou a taça. — De um serviço. — Que serviço? — Um serviço que ainda não terminou. Ela não perguntou novamente. Não naquele momento. Ricardo explicou que precisava confirmar um número. Alguém estava sendo procurado havia dias. Atendia às ligações, ouvia as perguntas e insistia que não era casado. Luísa conhecia o número. Conhecia também o homem. Lucas aparecia em confraternizações, fotografias e comentários de Amanda. Um marido tão cuidadosamente exibido que parecia ter sido escolhido para compor uma vitrine. Ela confirmou os últimos dígitos. Ricardo relaxou. Pouco. — Eu sabia que podia confiar em você. Luísa sorriu. Ele acreditou que era afeto. Era apenas compreensão. No sábado, o telefone tocou novamente. Dessa vez, Ricardo não falou primeiro. Uma voz masculina surgiu ao fundo. — O número que você passou é o mesmo. Outra voz respondeu alguma coisa que Luísa não compreendeu. — A gente já tinha esse. Houve movimento. Um ruído de porta. Depois: — Então por que ele insiste em dizer que não é casado? Luísa permaneceu em silêncio. Olhou para a tela do computador. O aplicativo do banco ainda estava aberto. O cheque já havia sido compensado. O nome aparecia completo. Leônidas. Ela conhecia o sobrenome. Não por causa de Ricardo. Por causa de Lucas. — Não faz sentido — disse Luísa. Do outro lado, alguém pediu uma decisão. Ela precisava de tempo. — Não agora. Falou baixo. Medido. Quase sem voz. Não sabia que, a poucos metros do telefone, Amanda escutava. Ricardo enviou o endereço mais tarde. Junto dele, fotografias. Lucas entrando num carro. Léo esperando. Os dois atravessando uma porta que nenhum deles usaria se acreditasse estar sendo observado. Ricardo enviara tudo como garantia. Como se dividir provas fosse o mesmo que dividir controle. Luísa ampliou uma das imagens. Reconheceu Lucas. Reconheceu o filho de Leônidas. E compreendeu por que um homem casado havia passado a semana inteira dizendo que não era. O cheque comprava o desaparecimento de Amanda. Mas não havia sido emitido por quem parecia. Luísa já havia providenciado a retirada do dinheiro. Não pessoalmente. Não com o próprio rosto. Durante anos, resolvera problemas para gente que preferia não aparecer. Nunca imaginara que um dia usaria aqueles contatos para si. Ricardo confiara nela porque acreditava que uma mulher apaixonada não saberia fugir com aquilo que ainda pudesse mantê-la perto. Ele estava errado. Pouco depois, um envelope digital seguiu anonimamente para a polícia. O endereço. As fotografias. O nome de Leônidas. O suficiente para que todos encontrassem uma explicação antes de encontrar a verdade. Agora, ajoelhada diante do espelho quebrado, Luísa colocou o último fragmento dentro da caixa. Fechou a tampa. Ricardo perdera o dinheiro. Leônidas perdera a liberdade. Léo perdera o direito de fingir que Lucas era apenas um amigo. Lucas ainda não sabia exatamente o que perderia. E Amanda continuava viva. Essa parte não estava no cálculo. Luísa levantou-se. Foi até o armário e escolheu a roupa para o dia seguinte. Nada vermelho. Nada que chamasse atenção. Uma camisa clara, calça escura e sapatos baixos. A aparência adequada para uma colega preocupada. Talvez alguém levasse flores ao hospital. Talvez organizassem uma homenagem no escritório. Talvez passassem a manhã repetindo que o importante era Amanda estar bem. As pessoas gostavam de chamar sobrevivência de final feliz. Luísa colocou o celular para carregar. Havia quatro pessoas das quais precisaria se aproximar. Ricardo precisava recuperar o dinheiro. Leônidas precisaria provar que não havia emitido o cheque. Léo precisaria proteger o segredo revelado pelas fotografias. Lucas precisaria impedir que Amanda compreendesse por que o marido negara sua existência. Quatro necessidades. Quatro portas. E Luísa tinha alguma coisa capaz de abrir cada uma delas. A Alexa perguntou a que horas deveria programar o despertador. — Seis e meia. A resposta veio obediente. Luísa apagou a luz. Por alguns minutos, ficou olhando para o escuro. Pensou em Amanda dentro do armário. Pensou em Ricardo diante da conta vazia. Pensou no rosto de Léo quando as fotografias tocaram a mesa. Por fim, pensou em Lucas, do outro lado do telefone, tentando explicar que não era casado. A semana anterior havia começado com todos respondendo ao que era solicitado. Sem drama. Sem sentimentos. Sem oportunidades para expressar os pensamentos verdadeiros. A segunda-feira seria diferente. Dessa vez, Luísa não pretendia responder. Pretendia fazer as perguntas. Fechou os olhos. O domingo, finalmente, poderia terminar. Mas a semana, não. de 16 a 22 de agosto de 2026 ## Acompanhe a segunda parte da série. [ Domingo ](https://logosgrafia.com/?p=11184) [ Segunda ](https://logosgrafia.com/?p=11189) [ Terça ](https://logosgrafia.com/?p=11192) [ Quarta ](https://logosgrafia.com/?p=11195) [ Quinta ](https://logosgrafia.com/?p=11198) [ Sexta ](https://logosgrafia.com/?p=11205) [ Sábado ](https://logosgrafia.com/?p=11201) [](https://logosgrafia.com/category/cronicas-zargolinianas/)Outros textos reflexivos, [aqui](https://logosgrafia.com/category/cronicas-zargolinianas/). 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