# Em uma vertiginosa terça-feira

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/08/18/em-uma-vertiginosa-terca-feira/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-08-18T20:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-19T23:16:17-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Em uma crudelíssima semana, Logosgrafia em séries, Publicações

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Parte 2 ## A semana que não terminou Às cinco horas e quarenta e dois minutos, Amanda desistiu de dormir. Lucas estava ao lado. De costas. Respirava com a tranquilidade de quem acreditava que o pior já havia acontecido. Amanda permaneceu olhando para ele por algum tempo. Durante quase uma semana, imaginara aquele quarto. A cama. A janela. O pequeno ruído do ventilador no teto. Imaginara também o marido acordado, atravessando noites, telefonando para hospitais, delegacias, amigos e desconhecidos. Mas Lucas dormia como se tivesse apenas perdido algumas horas de trabalho. Amanda se levantou sem fazer barulho. O corpo ainda protestava contra movimentos simples. As pernas doíam. Os pulsos guardavam marcas arroxeadas. Havia uma pressão constante na cabeça, não exatamente dor, mas a lembrança física de que alguma coisa fora interrompida dentro dela. Foi até a sala. A câmera da entrada permanecia conectada ao tablet sobre o aparador. Lucas instalara o sistema meses antes, depois que um entregador deixara uma encomenda no portão errado. Desde então, quase nunca consultavam as gravações. Amanda abriu o aplicativo. Escolheu o sábado. A linha do tempo avançou em pequenos saltos. Carros. Sombras. Uma vizinha caminhando com o cachorro. O portão imóvel. Então, às dezenove horas e dezessete minutos, um homem apareceu. Amanda aproximou a imagem. Ele tocou o interfone. Esperou. Olhou para os lados. Lucas saiu alguns minutos depois. Não abriu o portão. Ficaram separados pela grade. A câmera não registrava o áudio com nitidez, mas Amanda reconheceu o movimento dos corpos. O visitante tentava explicar alguma coisa. Lucas permanecia rígido. A conversa terminou rápido. O homem ficou alguns segundos diante do portão fechado. Depois foi embora. Amanda pausou a imagem. Conhecia aquele rosto. Não pessoalmente. De fotografias do banco, eventos empresariais e matérias sobre sucessão familiar. Léo. Filho de Leônidas. Ela voltou a gravação. Assistiu novamente. Depois outra vez. Lucas surgiu no corredor. — O que você está fazendo? Amanda não se virou. — Tentando lembrar. Ele olhou para a tela. O rosto mudou. Pouco. Mas mudou. — Isso não vai te fazer bem. — Quem é ele? Lucas permaneceu em silêncio. Amanda apontou para a imagem congelada. — Quem é ele? — Léo. — Eu sei o nome. — Então por que perguntou? — Porque quero saber quem ele é para você. Lucas desviou os olhos. — Filho do dono do banco. — E veio fazer o quê na nossa casa enquanto eu estava sequestrada? — Ele estava preocupado. — Comigo? — Com a situação. Amanda fechou o aplicativo. — Qual situação? — Amanda, você precisa descansar. — Eu descansei dentro de um armário. A frase atravessou a sala. Lucas recuou um passo. Não por medo. Por falta de resposta. — Não vamos fazer isso agora. Amanda quase sorriu. Não agora. A expressão parecia ter passado a semana inteira mudando de boca. Lucas foi para o banheiro. Fechou a porta. O som do chuveiro começou pouco depois. Amanda permaneceu sentada. O celular dele estava sobre a mesa de centro. Virado para cima. A tela acendeu. Uma notificação surgiu. Léo Você disse que, quando ela voltasse… O restante desaparecia sob o limite da tela. Amanda não tocou no aparelho. Não precisava. A mensagem ficou acesa por alguns segundos. Depois sumiu. Mas já havia deixado luz suficiente. Quando Lucas voltou, encontrou-a no quarto, vestindo a mesma roupa escura do dia anterior. — Aonde você vai? — Trabalhar. — Você não vai. Amanda abotoou a camisa. — E depois vou ao banco. Lucas segurava a toalha ao redor da cintura. — Para quê? — Conversar com Léo. O silêncio aconteceu antes da resposta. — Você não vai falar com ele. — Então você vai comigo. — Não. — Por quê? — Porque isso não tem nada a ver com ele. Amanda olhou para Lucas. — A mensagem dizia outra coisa. A toalha pareceu apertar-se entre os dedos dele. — Você mexeu no meu celular? — Não precisei. — Isso é invasão. Amanda terminou de abotoar a camisa. — Invasão é acordar dentro de um armário. Saiu do quarto antes que ele encontrasse outra palavra. Às oito horas e onze minutos, Amanda entrou novamente no escritório. As flores permaneciam sobre a mesa. Algumas já começavam a inclinar-se. O cartão continuava aberto, exibindo assinaturas que agora pareciam menos preocupadas do que curiosas. Luísa já estava trabalhando. Ou fingindo. Levantou os olhos quando Amanda passou. — Voltou cedo. — Eu não fui embora tarde. Amanda sentou-se. Ligou o computador. O arquivo da véspera surgiu entre os documentos recentes. Quatro nomes. Lucas. Léo. Ricardo. Luísa. Ao lado do último: A voz. Amanda acrescentou algumas linhas. Léo esteve em casa no sábado. Mensagem no celular de Lucas: “Você disse que, quando ela voltasse…” Leônidas aparece no cheque? Hesitou antes da última pergunta. Não sabia ainda por que pensara em cheque. Talvez pela mensagem que vira no celular de Luísa. Talvez porque Ricardo roubara dinheiro. Talvez porque a polícia houvesse levado Leônidas e mostrado fotografias ao filho. As peças ainda não formavam uma imagem. Mas já pertenciam à mesma caixa. Amanda salvou o arquivo. Depois abriu o bloco de notas do celular e repetiu os quatro nomes. Não confiava inteiramente na própria memória. Não depois do escuro. Não depois das vozes. Luísa acompanhava tudo por reflexos. A tela do computador. O movimento dos dedos. O celular colocado ao lado do teclado. — Vai escrever um livro? — perguntou. Amanda não levantou os olhos. — Talvez uma lista. — De quê? — Coisas que não posso esquecer. Luísa voltou para a própria tela. — Algumas coisas melhoram quando são esquecidas. — Para quem? Luísa não respondeu. Às nove horas e três minutos, Amanda se levantou. Pegou a bolsa. Guardou o celular. — Vai sair? — Banco. A palavra produziu uma pausa curta demais para ser percebida por qualquer outra pessoa. Luísa percebeu. — Vai encontrar seu marido? — Entre outras pessoas. Amanda caminhou até o elevador. As portas se fecharam. Luísa esperou vinte segundos. Desligou o monitor. Pegou a bolsa. Disse à recepcionista que precisava resolver um problema pessoal. Era verdade. Na calçada, Amanda já entrava num carro de aplicativo. Luísa chamou outro. Não precisou pedir que o motorista seguisse ninguém. Bastou informar o endereço do banco. Ricardo telefonou durante o caminho. Ela recusou. Ele ligou novamente. Recusou outra vez. Na terceira tentativa, Luísa desligou o aparelho. O banco ocupava um prédio alto, coberto por vidros que refletiam o céu sem permitir que ninguém visse o que acontecia por dentro. Amanda chegou primeiro. O segurança a reconheceu. Talvez das fotografias divulgadas. Talvez das muitas vezes em que aparecera ali para almoçar com Lucas. — Bom dia, senhora Amanda. — Bom dia. A palavra saiu sem pertencer ao dia. Lucas a esperava próximo aos caixas eletrônicos. Sem gravata. Com o paletó dobrado sobre o braço. — Eu pedi para você não vir. — E eu pedi para você me levar até Léo. — Ele não está disponível. — Então vou esperar. — Amanda. — Em qual andar? Lucas olhou ao redor. Algumas pessoas já começavam a observar. — Vamos conversar em outro lugar. — Conversamos em casa. — Você não me deixou explicar. — Explique agora. — Não aqui. Amanda riu. Um som curto. Sem humor. — Aqui foi onde você atendeu às ligações. Lucas ficou imóvel. — Que ligações? — As que perguntavam por um homem casado. A cor deixou o rosto dele. Amanda aproximou-se. — Eles ligavam. Você atendia. E dizia que não era casado. — Eu não sabia quem eram. — Mas sabia quem eu era. Lucas baixou a voz. — Você não entende. — Então me leve até quem entende. Ela olhou para o painel dos elevadores. O último andar exigia autorização. Diretoria. Presidência. Família. Amanda apertou o botão. Nada aconteceu. Tentou novamente. Lucas segurou sua mão. — Você não vai subir. Amanda puxou o braço. — Tire a mão de mim. — Você está alterada. — Fiquei seis dias presa. — Exatamente. Você não está em condições de fazer isso. — De descobrir que meu marido dorme com o filho do patrão? Uma mulher que aguardava atendimento desviou o olhar. O segurança aproximou-se alguns passos. Lucas soltou Amanda. — Fale baixo. — Foi isso que você fez enquanto eu estava desaparecida? — Amanda. — Falou baixo para ninguém descobrir? — Você não sabe o que está dizendo. — Eu vi o vídeo. Lucas olhou para ela. — Vi Léo no portão. Vi você saindo. Vi você mandar que ele não voltasse. — Ele foi até lá porque estava preocupado. — A mensagem dele também era preocupação? Lucas respirou fundo. — Você mexeu no meu telefone. — “Você disse que, quando ela voltasse…” — Pare. — Quando eu voltasse, o quê? — Pare. — Você prometeu o quê a ele? Lucas segurou o braço dela novamente. Dessa vez com mais força. — Não faça uma cena. Amanda olhou para os dedos fechados sobre sua pele marcada. — Eles me amarraram aqui. Apontou para o próprio braço. — Você não vai fazer isso também. Lucas soltou. O elevador abriu atrás dele. Um funcionário saiu. Amanda tentou entrar. Lucas bloqueou a passagem. — Não. As portas se fecharam. Amanda permaneceu olhando para ele. Depois viu a escadaria lateral. Uma placa indicava acesso aos andares superiores. Começou a caminhar. — Amanda. Ela não parou. — Amanda, volte aqui. Empurrou a porta corta-fogo. Os primeiros degraus pareceram simples. No segundo lance, as pernas começaram a pesar. No terceiro, o ar ficou curto. O corpo ainda carregava o armário. A cadeira de ferro. O pão com margarina. Mas Amanda continuou. Lucas voltou ao elevador. Passou o crachá. A porta se abriu. Luísa entrou no prédio quando o painel indicava que ele já subia. Viu o segurança olhando para a escadaria. Ouviu alguém comentar sobre a esposa de Lucas. Não perguntou. Atravessou o saguão. A porta corta-fogo ainda se movia lentamente. Luísa entrou. Escutou passos acima. Mais altos. Mais rápidos. Subiu. No último lance, Amanda segurava o corrimão. Respirava pela boca. A porta do andar executivo estava a poucos metros. Então se abriu. Lucas surgiu diante dela. Havia subido pelo elevador. — Chega. Amanda tentou passar. Ele bloqueou o caminho. — Saia da frente. — Você precisa ir embora. — Quero falar com ele. — Não vai. — Está protegendo seu amante? Lucas olhou para a porta. Depois para a escadaria. — Você não sabe o que Léo fez. A frase escapou. Amanda percebeu. — O que ele fez? — Eu não disse isso. — Você sabe. — Não sei de nada sobre o sequestro. — Eu não falei em sequestro. Lucas fechou os olhos. Por um instante. Suficiente. — Foi ele? — Não. — Foi por isso que você não chamou a polícia? — Não. — Foi por isso que você dizia que não era casado? — Eu não sabia quem estava ligando. — Mas esperava que eu não voltasse. Lucas abriu os olhos. Amanda tentou atravessar. Ele segurou seu braço. Ela puxou. — Solte. — Escute. — Solte. — Eu não mandei ninguém fazer nada com você. — Mas sabia. — Não sabia. — Sabia que ele queria me tirar do caminho. — Não. — E deixou. — Não. — Você deixou. Amanda tentou passar novamente. Lucas a afastou. Não com violência suficiente para derrubá-la. Apenas o bastante para interromper o movimento. — Você quer a verdade? — perguntou. Amanda permaneceu diante dele. Ofegante. — Quero. Lucas ainda segurava seu braço. — Quando você desapareceu, eu não fiquei com medo. A mão dele afrouxou. — Fiquei aliviado. Amanda não respondeu. — Eu não sabia onde você estava. Não sabia o que tinham feito. Mas, por algumas horas, eu pude viver sem precisar mentir. O rosto dela mudou. Não de raiva. De compreensão. Uma compreensão pior do que qualquer dúvida. — Então você queria que eu morresse. — Não foi isso que eu disse. — Mas foi o que sentiu. — Amanda… — Você queria que eu não voltasse. Ela recuou. Um passo. Lucas tentou alcançá-la. — Não. Amanda afastou a mão dele. O calcanhar encontrou apenas metade do degrau. O corpo, ainda fraco, tentou corrigir o movimento. Não conseguiu. Por um segundo, permaneceu suspensa. O rosto voltado para Lucas. Os olhos abertos. Depois caiu. O primeiro impacto foi contra a borda do degrau. O segundo contra o corrimão. O terceiro já não pareceu produzir dor. A escadaria recebeu o corpo aos poucos. Como se cada degrau exigisse sua parte. Lucas desceu gritando o nome dela. Luísa parou um lance abaixo. Viu Amanda passar. Viu o braço solto. A bolsa abrindo. O celular deslizando pelo piso. Depois o silêncio. Não um silêncio completo. Havia o alarme de uma porta. Os passos de Lucas. Uma voz chamando ajuda. Mas, entre todos os sons, alguma coisa havia terminado sem fazer ruído. Amanda estava caída no patamar. Os olhos fechados. Uma linha de sangue começava a desenhar-se junto aos cabelos. Lucas ajoelhou-se. — Amanda. Tocou o rosto dela. — Amanda, olha para mim. Ela não olhou. O segurança entrou na escadaria. Depois outro funcionário. Alguém chamou uma ambulância. Alguém pediu que Lucas se afastasse. Ele não se afastou. — Foi um acidente — disse. Ninguém havia perguntado. Luísa desceu devagar. A bolsa de Amanda estava aberta dois degraus acima. Documentos. Chaves. Uma pequena pétala vermelha. E o celular. Luísa abaixou-se. — É dela — disse a uma funcionária que passava. — Vou guardar para entregar à família. A mulher assentiu. Ao recolher o aparelho, o punho da camisa roçou na mancha que começava a alcançar o degrau. Luísa percebeu, mas não tentou limpá-la. Todos estavam olhando para o corpo. O aparelho ainda estava desbloqueado. Luísa abriu o bloco de notas. Encontrou os quatro nomes. Lucas. Léo. Ricardo. Luísa. Abaixo: A voz. Léo esteve em casa. Mensagem: “Você disse que, quando ela voltasse…” Dinheiro roubado. Cheque. Leônidas? Luísa leu uma vez. Depois outra. Apagou a nota. Abriu a lixeira do aplicativo. Apagou novamente. Verificou as mensagens. As fotografias. Os arquivos recentes. Nada. Guardou o celular dentro da bolsa. A pétala permaneceu no degrau. Os paramédicos chegaram. Afastaram Lucas. Colocaram Amanda sobre uma prancha. Um deles procurou sinais que já não pareciam interessados em responder. Luísa entregou a bolsa a um policial. — Caiu durante a confusão. — A senhora viu o que aconteceu? Ela olhou para Lucas. Ele permanecia junto à parede. As mãos manchadas. — Vi o final. — Ele a empurrou? Lucas levantou os olhos. Luísa esperou. Havia respostas que podiam abrir portas. Outras podiam fechá-las para sempre. — Não consegui ver — disse. O policial anotou. A maca atravessou o saguão. As pessoas se afastaram. A porta se abriu. A manhã entrou. Amanda saiu do banco da mesma forma que chegara ao escritório no dia anterior. Sozinha no meio de muitas pessoas. Luísa permaneceu alguns minutos. Observou Lucas ser levado para uma sala reservada. Observou o segurança mostrar onde estavam as câmeras. Observou o gerente telefonar para alguém no último andar. Léo não apareceu. Ainda. Quando saiu do banco, havia uma ambulância parada junto à calçada. Um policial conversava com o motorista. O celular de Luísa continuava desligado. Ela respirou fundo. Atravessou a porta giratória. Do outro lado da avenida, Ricardo estava dentro de um carro. Esperava havia quase uma hora. Tinha seguido Luísa depois que ela ignorara todas as ligações. Vira Amanda entrar. Vira Luísa chegar pouco depois. Vira os funcionários correrem. Vira a ambulância. Agora via Luísa sair. Sem pressa. Sem surpresa. Com uma pequena mancha de sangue na manga clara. Os olhos dos dois se encontraram através do trânsito. Luísa não parou. Ricardo também não saiu do carro. Mas, pela primeira vez desde que depositara o cheque naquela conta, ele compreendeu que o dinheiro talvez fosse apenas a menor das coisas que ela havia roubado. No escritório, o computador de Amanda permanecia ligado. O arquivo ainda estava aberto. Quatro nomes sobre a página branca. E uma voz finalmente reconhecida. de 16 a 22 de agosto de 2026 ## Acompanhe a segunda parte da série. [ Domingo ](https://logosgrafia.com/?p=11184) [ Segunda ](https://logosgrafia.com/?p=11189) [ Terça ](https://logosgrafia.com/?p=11192) [ Quarta ](https://logosgrafia.com/?p=11195) [ Quinta ](https://logosgrafia.com/?p=11198) [ Sexta ](https://logosgrafia.com/?p=11205) [ Sábado ](https://logosgrafia.com/?p=11201) [](https://logosgrafia.com/category/cronicas-zargolinianas/)Outros textos reflexivos, [aqui](https://logosgrafia.com/category/cronicas-zargolinianas/). [](https://logosgrafia.com/logosgrafia-em-series/)Conheça outras séries, [aqui](https://logosgrafia.com/logosgrafia-em-series/). [](https://logosgrafia.com/)Volte ao início, [aqui](https://logosgrafia.com/).
