# Em uma calculada quarta-feira

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/08/19/em-uma-calculada-quarta-feira/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-08-19T20:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-19T23:16:07-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Em uma crudelíssima semana, Logosgrafia em séries, Publicações

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Parte 2 ## A semana que não terminou Amanda morreu às duas horas e dezessete da madrugada. Às duas e vinte e três, a notícia já estava em três grupos de mensagens. Às duas e quarenta, alguém escreveu que não conseguia acreditar. Às três e onze, outra pessoa publicou uma fotografia antiga em que Amanda sorria ao lado de um bolo que ninguém lembrava quem havia comprado. Às seis, o escritório inteiro sabia. Às oito, ninguém sabia como se comportar. As flores continuavam sobre a mesa. As rosas haviam aberto demais durante a noite. Os lírios começavam a derramar um cheiro doce sobre os papéis. As margaridas permaneciam dentro do plástico, pequenas e constrangidas, como se tivessem sido compradas para outro tipo de ausência. O cartão ainda dizia: Que bom ter você de volta. Ninguém teve coragem de retirá-lo. Luísa chegou no horário de sempre. Usava uma camisa escura. Não a mesma da véspera. Aquela estava dentro de uma sacola no fundo do armário, com uma pequena mancha de sangue próxima ao punho. A Alexa perguntara se ela gostaria de adicioná-la à lista de roupas para lavar. Luísa mandara que se calasse. No escritório, algumas pessoas choravam. Outras falavam baixo. Outras trabalhavam com uma concentração excessiva, porque há quem só consiga suportar a morte fingindo que tem uma planilha urgente para terminar. — Você estava lá, não estava? — perguntou a recepcionista. Luísa pousou a bolsa sobre a mesa. — No banco? — Disseram que você viu. — Vi quando ela já tinha caído. A recepcionista levou a mão à boca. — Meu Deus. Luísa assentiu. Não havia resposta melhor. — E o marido? — Estava lá. — Foi ele? A pergunta saiu pequena. Quase envergonhada de existir. Luísa ligou o computador. — Foi uma queda. Não disse que fora um acidente. Não disse que Lucas era inocente. Apenas repetiu o que o corpo havia feito. Cair. Às nove horas, um funcionário da informática apareceu para recolher o computador de Amanda. Veio com uma caixa de ferramentas, dois cabos enrolados no braço e a expressão de quem fora chamado para resolver um problema técnico, não para desmontar os últimos vestígios de uma pessoa. — Vão precisar preservar os arquivos? — perguntou alguém. — Não me passaram nada. Ele tocou o mouse. A tela acendeu. Por um instante, uma página branca surgiu no monitor. Havia palavras. Nomes. O funcionário inclinou-se. Uma janela do sistema apareceu sobre o documento, pedindo atualização. — Sempre na pior hora — resmungou. Clicou em “adiar”. A tela apagou novamente. — Tem senha? Ninguém sabia. — Depois a gente vê isso lá embaixo. Ele desligou o monitor, desconectou os cabos e retirou a máquina. O arquivo seguiu aberto. Lucas. Léo. Ricardo. Luísa. Quatro nomes atravessando o corredor dentro de um computador que seria formatado assim que alguém preenchesse o formulário correto. Luísa observou a caixa desaparecer no elevador. Não sabia o que havia dentro dela. Mas soube que alguma coisa tinha ido embora. O celular vibrou. Ricardo. Dessa vez, havia uma mensagem. Você vai falar comigo hoje. Luísa leu. Guardou o aparelho. Uma colega aproximou-se com os olhos inchados. — A família está preparando o velório. — Que família? A mulher pareceu não compreender. — O marido. — Ah. Luísa voltou à tela. Lucas não tinha parentesco suficiente para procurar Amanda enquanto ela estava viva. Agora tinha o necessário para enterrá-la. Às dez e meia, o telefone tocou novamente. Não era Ricardo. Número desconhecido. Luísa atendeu. — Alô? — Senhora Luísa? A voz era masculina. Formal. — Sim. — Meu nome é Eduardo. Sou amigo do Lucas. Ela esperou. — Ele me passou seu contato. Disse que a senhora estava no banco ontem. — Eu estava. — A senhora presenciou a queda? — Parte dela. Houve uma pausa curta. — O Lucas prestou depoimento durante a madrugada. Foi liberado. — Que bom para ele. O homem ignorou o tom. — As câmeras não mostram tudo. Há um trecho encoberto pela estrutura da escada. — Entendo. — Ele está bastante abalado. — Imagino. — Eu trabalho na polícia. Não diretamente no caso. Só estou tentando orientá-lo para evitar que isso se prolongue desnecessariamente. Luísa recostou-se. — E como eu poderia ajudar? — Ele precisa conversar com a senhora. Se estiver disposta a prestar um depoimento voluntário, explicando que não viu nenhuma agressão, isso pode facilitar bastante. — Mas eu não vi nenhuma agressão. A resposta saiu antes da pergunta. Do outro lado, Eduardo relaxou. — Exatamente. Luísa olhou para a mesa de Amanda. As flores. O cartão. A cadeira vazia. — Peça para ele falar comigo. — Posso passar seu número? — Ele já tem. A ligação terminou. Poucos segundos depois, surgiu uma nova mensagem. Lucas: Precisamos conversar sobre o que você viu. Luísa não respondeu. Ainda. Às onze e quarenta, pediu para sair durante o horário do almoço. Ninguém perguntou por quê. Uma mulher que presenciara a morte de uma colega tinha adquirido, por algumas horas, o direito de fazer movimentos sem justificativa. Ricardo a esperava no estacionamento de um mercado desativado. Escolhera o lugar porque ficava longe do escritório, do banco e das câmeras que conhecia. Ainda assim, olhou ao redor antes de sair do carro. Luísa chegou a pé. Não demonstrou pressa. Ricardo fechou a porta com força. — Onde está o dinheiro? Ela parou diante dele. — Bom dia. — Não brinca comigo. — Já passou do meio-dia. — Eu estou falando sério. — Eu também. Não é mais bom dia. Ricardo aproximou-se. — Você esvaziou a conta. — Era uma conta conjunta. — O dinheiro não era seu. — Também não era seu. Ele segurou o braço dela. Luísa olhou para a mão. Depois para o rosto dele. — Cuidado. Ricardo soltou. Não por delicadeza. Porque se lembrou da camisa clara. Do sangue. Da ambulância. Da forma como Luísa saíra do banco enquanto uma mulher era levada sem vida. — O que você fez ontem? — perguntou. — Trabalhei. — Eu vi você sair de lá. — Muita gente saiu do banco. — Tinha sangue na sua roupa. Luísa olhou para o próprio punho escuro. Como se ainda pudesse encontrá-lo. — Foi um dia desagradável. — Amanda morreu. — Eu sei. — Você estava lá. — Você também. Ricardo permaneceu imóvel. — Eu fiquei do outro lado da rua. — Distância não é inocência. — Você matou aquela mulher? Luísa sorriu. Não muito. Apenas o suficiente para que ele não soubesse se a resposta seria pior que a pergunta. — Você me acha capaz? Ricardo demorou. Luísa deu um passo em sua direção. — Quando éramos namorados, você achava que eu não era capaz nem de perceber quando estava mentindo. — Não muda de assunto. — Você achava que podia quebrar meu espelho, desaparecer por dias, voltar com uma pétala e encontrar tudo no mesmo lugar. — O dinheiro. — Você achava que podia depositar o pagamento de um sequestro na minha conta porque eu era caidinha por você. — Eu confiei em você. Luísa riu. Dessa vez, sem esconder. — Não. Você me subestimou. Ricardo passou as mãos pelo rosto. — Aquele cheque pode ser rastreado. — Já foi. Ele a encarou. — O quê? Luísa abriu a bolsa. Retirou uma pasta transparente. Dentro dela havia folhas impressas, cópias de documentos e um boletim de ocorrência registrado na Delegacia Eletrônica. Entregou a primeira página a Ricardo. Ele leu em silêncio. A data era da noite anterior. O documento relatava que Luísa identificara um depósito de origem desconhecida numa conta conjunta antiga, realizado sem seu conhecimento ou consentimento por seu ex-companheiro, Ricardo. Ao tentar esclarecer a movimentação, descobrira que o valor havia sido integralmente retirado numa agência bancária por um casal. A mulher teria utilizado seus dados e se apresentado como titular da conta. Luísa também registrara suspeitar que Ricardo pudesse estar envolvido na retirada, já que fora responsável pelo depósito e tinha acesso às informações da conta. Não afirmava tê-lo visto na agência. Não dizia conhecer a mulher. Apenas pedia que os fatos fossem investigados, pois desconhecia tanto a origem do dinheiro quanto a finalidade da movimentação. Ricardo ergueu os olhos. — Você está louca. — Continue. Havia cópias dos protocolos bancários. Pedidos de bloqueio. Uma contestação formal. O registro da comunicação à instituição financeira. — Eu não fui à agência — disse ele. — Eu sei. — E você também não. — Exatamente. Ricardo virou outra página. — Quem eram aquelas pessoas? — Um casal apaixonado. — O quê? — Disseram ao gerente que estavam retirando todos os investimentos para fazer uma viagem. Luísa sorriu. — Uma viagem longa. Um sonho antigo. Essas coisas costumam comover funcionários que passam o dia inteiro dentro de agências. — Eles se passaram por nós? — Tinham documentos. — Falsos. — Preparados. — E se forem encontrados? — Não serão. Ricardo devolveu as folhas. — Você armou tudo isso quando? — Antes de Amanda cair. O olhar dele mudou. Luísa percebeu. Não explicou. Deixou que a cronologia fizesse o trabalho. — Você sabia que ela ia morrer? — Não. — Mas estava preparada. — Eu estava preparada para você. Ricardo voltou a olhar para o boletim. — Você me colocou como responsável pelo saque. — Não coloquei. Luísa retirou a primeira página das mãos dele e apontou para o texto. — Registrei que você fez o depósito e que poderia estar envolvido na retirada. É uma suspeita bastante razoável diante das circunstâncias. — Você sabe que eu não estava lá. — Eu sei muitas coisas que não coloquei no boletim. — Esse papel não vai apagar seu nome da conta. — Não precisa apagar. Ela guardou a folha na pasta. — Só precisa fazer com que minha versão exista antes da sua. Ricardo respirava mais rápido. — O cheque veio do Léo. — Eu sei. — O pai deu um cheque em branco para ele. Luísa inclinou a cabeça. — Foi o que Léo disse? — Foi. — E você acreditou? — Ele é filho do homem. — Filhos nunca roubam os pais. O deboche encontrou o lugar certo. Ricardo apertou os papéis. — O cheque foi preenchido para o serviço. Se a polícia puxar a compensação, chega na conta. — E da conta chega a você. — Chega a nós dois. Luísa apontou para a pasta. — Chega primeiro a uma mulher que já comunicou que desconhecia a origem do dinheiro e pediu investigação. — Você acha que vão acreditar? — Não preciso que acreditem imediatamente. Ela aproximou-se. — Preciso apenas que duvidem de você primeiro. Ricardo ficou em silêncio. — O pai dele foi preso por causa do cheque. — Conduzido. — Continua detido. Luísa não demonstrou surpresa. — A polícia acha que Leônidas mandou sequestrar Amanda para proteger o filho. — E você sabe que não foi ele. — Sei o que Léo contou a você. — Ele disse que o pai deu o cheque. — Então Leônidas não terá dificuldade para confirmar. Ricardo ficou em silêncio. Os dois sabiam que a confirmação talvez nunca viesse. Se Leônidas dissesse que não entregara cheque algum, Léo seria exposto. Se admitisse que o entregara em branco, precisaria explicar por que permitira ao filho movimentar uma quantia tão alta. Em qualquer versão, alguém perderia. Luísa abriu novamente a bolsa. Retirou um pequeno pacote envolvido em papel pardo. Sacudiu-o diante de Ricardo. O dinheiro produziu um ruído seco. — O que é isso? — Sua parte. Ele pegou o pacote. Abriu. Contou com os olhos. — Isso não é nem dez por cento. — Não. — Você acha que isso resolve? — Acho que compra um quarto barato, combustível e alguns dias fora da cidade. — Eu não vou fugir. — Então fique. Luísa guardou os documentos. — Vá à polícia. Conte tudo. Ricardo permaneceu segurando o pacote. — Conte que sequestrou uma mulher porque o amante do marido dela pagou com um cheque em nome do próprio pai. Ela aproximou-se. — Explique que depositou o dinheiro numa conta conjunta sem me avisar porque acreditava que eu era burra de amor. Ricardo não respondeu. — Depois diga que foi roubado. — Você vai pagar por isso. Luísa sorriu. — Com o dinheiro que roubei de você? Ele avançou um passo. Ela não recuou. — Você não sabe com quem está mexendo. — Sei. A resposta veio tranquila. — Estou mexendo com um homem que não pode ir à polícia, não pode cobrar judicialmente, não pode explicar a origem do dinheiro e não sabe se a mulher diante dele empurrou alguém de uma escada. Ricardo olhou para ela. A dúvida apareceu novamente. Luísa deixou que permanecesse. — Fica de esmola, amor. Tocou o pacote nas mãos dele. — E desapareça por alguns dias. — Isso não acabou. — Não. Ela começou a caminhar. — Mas você acabou de ficar sem dinheiro para continuar. Ricardo não a seguiu. Luísa atravessou o estacionamento. Atrás dela, o pacote continuava fechado entre as mãos dele. Os trocados eram pouco para recomeçar. Mas suficientes para fugir. Às duas da tarde, a notícia da morte de Amanda já havia chegado ao último andar do banco. Leônidas continuava detido. A esposa telefonava para advogados. Léo não atendia às chamadas do pai. Lucas permanecia em casa, revendo mentalmente o instante em que o corpo de Amanda deixara de encontrar o degrau. Às três e dezesseis, Eduardo voltou a telefonar. — Falei com o responsável pela investigação — disse. — Um depoimento espontâneo ajudaria. Lucas estava sentado no chão da sala. A câmera interna permanecia ligada no tablet. A imagem congelada mostrava Léo diante do portão. — Ela disse alguma coisa? — Disse para você procurá-la. Lucas olhou para o celular. A mensagem enviada a Luísa continuava sem resposta. — Você acha que vão me indiciar? — As imagens não mostram um empurrão. — Mas mostram que eu segurei o braço dela. — Por isso a testemunha é importante. — Ela viu o final. — Melhor ainda. Lucas fechou os olhos. — Eu disse uma coisa antes de ela cair. — Que coisa? — Nada. — Lucas. — Não importa. Eduardo ficou em silêncio. — Converse com a testemunha — disse por fim. — Antes que ela decida lembrar de outro jeito. A ligação terminou. No escritório, Luísa retornou com quinze minutos de atraso. Ninguém percebeu. A mesa de Amanda havia sido parcialmente desmontada. Os objetos pessoais estavam dentro de uma caixa. Uma caneca. Dois porta-retratos. Um creme para as mãos. As flores permaneciam. O cartão também. Luísa sentou-se. Abriu o navegador. Pesquisou o nome de Leônidas. As notícias mais recentes informavam que o empresário permanecia sob custódia enquanto a polícia apurava a origem do cheque e sua relação com o sequestro. Havia uma fotografia dele entrando numa viatura. Outra de Léo deixando a delegacia com o rosto coberto. Luísa ampliou a imagem. O filho parecia menor sem o pai ao lado. Mais fácil de assustar. Mais fácil de conduzir. Abriu uma nova página. Pesquisou advogados criminalistas. Depois fechou. Ainda não precisava contratar ninguém. Precisava ser a pessoa que encontraria a solução. O telefone vibrou. Lucas: Preciso saber o que você vai dizer à polícia. Luísa leu. Digitou uma resposta. Apagou. Digitou novamente. Luísa: Depende do que você tem para me dizer. Enviou. A resposta veio quase imediatamente. Lucas: Onde? Luísa olhou para a mesa vazia ao lado. As rosas começavam a perder pétalas. Uma delas caiu sobre o teclado que já não estava ali. Ela escreveu o endereço. Não do escritório. Não do banco. De um café próximo à delegacia onde Leônidas permanecia detido. Lucas respondeu: Amanhã. Luísa guardou o celular. No subsolo do prédio, o computador de Amanda aguardava sobre uma bancada. O técnico conectou o cabo de energia. A tela acendeu. O documento voltou a aparecer. Quatro nomes. Uma voz. Uma mensagem incompleta. O técnico aproximou o rosto. Antes que pudesse ler, alguém o chamou do corredor. — Precisamos liberar três máquinas hoje. — Já vou. Ele deixou o computador ligado. A porta se fechou. Na tela, o cursor piscava depois da última pergunta escrita por Amanda: Leônidas aparece no cheque? No andar de cima, Luísa fechou a página de notícias. Ela ainda não sabia da pergunta. Mas já começava a preparar a resposta. de 16 a 22 de agosto de 2026 ## Acompanhe a segunda parte da série. 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