# Maracangalha #16: Café forte, sem açúcar

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/04/maracangalha-16-cafe-forte-sem-acucar/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-04T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-28T18:18:26-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia em séries, Maracangalha, Publicações

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Maracangalha Capítulo 16 Por: Paulo Ricardo Zargolin Ísis havia saído sem dizer para onde, mas Laura ouviu quando ela murmurou “vou tomar um açaí”. Estava quente. Um calor de cansaço, daqueles que fazem a cidade parecer mais embaçada do que nublada. Cristina, da janela, observou até que o portão se fechasse. Só depois respirou. Era o tipo de saída que deixava rastros: perfume no corredor, um gole de água esquecido, fones ainda pendendo do pescoço. Laura ficou. Sentada no sofá, com um livro no colo, mas sem ler. O rádio, em seu posto antigo, continuava insistente. Estalos, chiados, ruídos que não viravam palavra. Parecia que alguém do outro lado estava tentando falar e não encontrava o idioma. Cristina apareceu na porta. Segurava as mãos como quem carrega coisa frágil. — Posso? — Pode — respondeu Laura, sem erguer os olhos. A tia sentou-se com cuidado. Apoiou-se na borda do sofá, parecendo que se sentar de todo fosse arriscar demais. — O Plínio passou aqui mais cedo. Silêncio. — Comentou que sente tua falta. Que você anda distante. Eu disse que andava… pensativa. Outra pausa. O rádio estalou. — Às vezes eu acho — continuou Cristina, com voz que fingia neutralidade — que você e a Ísis andam… íntimas demais. Não falo por mal. Só observo. Vocês foram criadas como primas. O livro se fechou. Sem estalo. Apenas o som do fim. — Cuidado com as palavras, tia. — Eu só… — Se for pra falar com meias-palavras, não fale. — Eu me preocupo. — Com o quê? Com o que os outros vão pensar? Com o que a Marta pensaria? — Com você. Com teu futuro. Com tua imagem. Com tua paz. — Paz não é viver pela metade, tia. Paz não é fingir. Cristina endireitou a coluna. Encarou a sobrinha. O rosto severo, mas os olhos cansados. — Você não sabe como era. Na minha época… — Eu sei. Porque você ainda vive nela. — E você acha que está pronta pra enfrentar tudo isso? Sozinha? Com essa cidade inteira cochichando? — Melhor cochichos do que viver calada. Melhor o escândalo do que o arrependimento. O rádio chiou forte, como se reagisse. — A Marta… — disse Cristina, baixo, quase para si. — Ela… era mais do que amiga. Mais do que irmã de criação. Mais do que eu soube dizer. Ou permitir. Laura não respondeu. O ar pareceu mudar de densidade. — Eu não toquei nela. Nunca. Mas amei. E me calei. Achei que, com o tempo, passava. Não passou. Então tentei me tornar outra coisa. A mulher que costura, que reza, que educa. Mas dentro… ainda tinha ela. Ainda tem. — Por isso o Plínio? Cristina assentiu, com um aceno que não precisava ser completo. — Porque se você se arriscar… Oviu a moça noutro dia? Ela deixou um ex-namorado em São Paulo. E não sei se aguento assistir você sofrendo… A frase ficou ali, entre elas, refletindo em um espelho sujo. Mostrava, mas não tudo. Laura respirou. Não havia raiva agora, só um reconhecimento do abismo. — Eu não sou você, tia. E você não é sua época. A gente ainda pode mudar alguma coisa. — Com a cidade contra? — Com coragem. E alguma lucidez. Um copo de cada. As duas ficaram em silêncio. Laura se levantou. Foi até a cozinha. Voltou com duas xícaras. Café forte, sem açúcar. — Agora? — Agora. Cristina pegou a xícara com mãos que tremiam pouco. Sentaram-se lado a lado. O rádio, por fim, parou de chiar. Mas não era silêncio. Era presença que não precisava de mais palavra. Não estava tudo dito. Nunca estaria. Mas pela primeira vez, o que não se disse foi escutado. [](https://logosgrafia.com/2026/08/28/maracangalha-15-o-barulho-da-fritura/)Retome ao décimo quinto capítulo, [aqui](https://logosgrafia.com/?p=12210). [](https://logosgrafia.com/2026/07/12/a-ilha-uma-novela-distopica-em-sete-capitulos/)Leia “A Ilha”, [aqui](https://logosgrafia.com/2026/07/12/a-ilha-uma-novela-distopica-em-sete-capitulos/). [](https://logosgrafia.com/)Volte ao início, [aqui](https://logosgrafia.com/).
