# A apatia dos cigarros mentolados

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- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-05T19:00:00-03:00
- Modified: 2026-09-05T19:42:37-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Publicações, Vozes

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Vozes · Conto Por Dayana de Fátima Sanchez O despertador tocou, invadindo o ambiente com um ruído estridente, agudo e perturbador. Perto da janela, os canários cantavam como de costume. Os raios de um sol forte e brilhante entravam pelas frestas da janela, irradiando uma luz que muitos tomariam como presságio de um bom dia. Mas não Marina. Não seria um bom dia, definitivamente. Acordou sem querer acordar. Desligou o despertador com vontade de atirá-lo contra a parede, mas não o fez: já havia atirado e quebrado muitas coisas na noite anterior. Amaldiçoou o sol, o vento fresco da manhã e a música dos belos canários que outrora tanto amava. A cara inchada denunciava a dor de quem chorara até cair no sono. Tivera pesadelos vívidos, nos quais revivia, de inúmeras formas, o que acontecera na noite anterior. Levantou-se de forma automática, apática, como se viver aquele dia fosse uma obrigação. E, de certa forma, era. Lavou o rosto, escovou os dentes, mas não tinha forças para tomar um banho revigorante — não, ela não queria nada que a despertasse para aquele dia. Sem fome, tomou o café do dia anterior, frio e amargo. Naquela manhã, pareceu adequado. Fumou seu cigarro mentolado — uma fumante de cigarros mentolados, que patifaria —, pensou, menosprezando o próprio vício. Deparou-se com dois maços de cigarros reduzidos a bitucas em um cinzeiro improvisado que transbordava. Desde que havia sucumbido novamente ao vício, aquela era a primeira vez que fumava tanto. Sem fome, um pensamento lhe invadiu: “Não preciso comer. Tenho os cigarros.” Olhou para o relógio. Óbvio: mais uma vez, estava atrasada. Trocou rapidamente de roupa, calçou o que estava aos pés da cama, penteou o cabelo com a raiva que sentia e passou um batom qualquer. Estava sem forças para colocar a sua máscara maquiada. Correu pelo quarteirão e pegou o ônibus exatamente na hora em que ele parava no ponto. Estava vazio. Que sorte! Fez o trajeto sem os fones e sem a música de costume. A música que era o seu combustível de vida agora parecia apenas um desperdício de tempo, pensamentos e sentimentos. Tinha raiva até de sua playlist, feita com tanto cuidado e apreço semanas antes. Desceu do ônibus e andou os três quarteirões de sempre para chegar ao trabalho. Entrou no prédio, passou o crachá e subiu os quatorze andares em um elevador cheio de pessoas presas aos celulares, distantes e medíocres. Marina odiava pessoas e, naquele dia, odiava ainda mais. Passou por entre as mesas do escritório, balbuciando um bom-dia automático, sem olhar para os colegas. Sentou-se à sua mesa, ligou o computador e deparou-se com o memorando do chefe solicitando relatórios até as 18h. “Maldito, sempre pedindo tudo com urgência e em cima da hora.” Marina não aguentava mais o chefe sem noção, que parabenizava com um mero tapinha nas costas quando as metas eram cumpridas. Olhou para o celular: nenhuma mensagem. Um vazio invadiu seu peito com a lembrança das manhãs cheias de mensagens. Como duas pessoas conseguiam ter tanto assunto em apenas o intervalo de uma noite de sono? Mas era passado, um doloroso passado que preferia esquecer, mas não conseguia. Lembrou-se dos copos, pratos e porta-retratos quebrados, dos cacos de vidro ainda no chão, restos de uma explosão incontrolável de dor e raiva. Sim, teria que recolher os cacos quando chegasse. Mas o que faria com seus outros cacos? Talvez fosse melhor também recolhê-los e jogá-los fora. Imersa em si mesma, não percebeu quando Stela se aproximou de sua mesa. — Nossa, que cara péssima! Não me diga que dormiu chorando de novo?! — Por que você tem que chegar sempre em silêncio? — Não é culpa minha ter passos leves, querida. O pessoal está querendo almoçar naquele restaurante novo do outro lado da rua. Tá a fim de ir? Talvez role um chope para aguentar o resto da tarde com esses prazos impossíveis. Marina parou, pensou e chegou a cogitar que ficar bêbada talvez fosse o que ela precisava. Mas não. Não conseguiria interagir nem socializar com um sorriso no rosto, fazendo de conta que estava tudo bem, pois não estava. Estava tudo um caos, uma bagunça; sentia-se irreconhecível. — Bom, você que sabe. Mas pelo menos melhore essa cara péssima e fure o pneu daquele carro que ele tanto ama. Ele devia era manter um relacionamento com aquele carro, só acho. Marina revirou os olhos, mas Stela lhe deu uma ideia: furar os pneus do carro. Seria engraçado ver o desespero. Imagine os quatro pneus furados, sem poder sequer usar o único estepe. Teria que abrir a carteira para comprar quatro pneus. Seria o mínimo depois de toda a palestrinha de término. Sério, quem faz uma palestra para terminar com alguém? Teve outra ideia, melhor ainda: riscar o carro de fora a fora. O precioso carro, ao qual ele dedicava um zelo excessivo que tantas vezes a incomodara. Quantas vezes desejara ser aquele carro para receber o mínimo de cuidado? Marina não o odiava. Odiava-se. Continue gratuitamente ## Os cacos ainda não terminaram de falar. A leitura deste conto é gratuita. Para chegar ao final, basta cadastrar seu e-mail no formulário abaixo e escolher a modalidade FREE. Não há cobrança. A assinatura gratuita libera a continuação desta publicação e inclui seu e-mail na newsletter do Logosgrafia. Já recebe a newsletter? Use o mesmo e-mail para continuar. Na hora do almoço, continuava sem fome. Foi alimentar-se dos cigarros mentolados, isolada na parte de trás do prédio. Olhou para o celular: ainda sem mensagens. Foi quando um homem charmoso, de cabelos grisalhos, perfumado e com aparência jovial se aproximou e se sentou na mureta do jardim ornamentado. Acendeu um cigarro — mentolado — e a cumprimentou. Marina acenou com a cabeça, mas observou o rapaz. Reconheceu-o do elevador. Trabalhava dois andares abaixo, em uma empresa de marketing. Lembrou-se dos boatos que circulavam no prédio: ele havia sido promovido a diretor-geral, apenas um cargo abaixo do CEO, e, com o novo salário, comprara um carro importado — outro apaixonado pelo próprio carro, pensou com desdém. Os boatos, talvez maldosos, ainda diziam que ele estava em processo de divórcio, pois pegara a esposa na cama deles com outro rapaz, vinte anos mais novo. Marina esboçou um leve sorriso sarcástico. Todo castigo para homem era pouco. O homem notou e sorriu de volta. Marina olhou-o e, sem graça, enrubesceu. Ele comentou algo sobre o tempo, a correria e como a pausa para o cigarro — mentolado — era uma urgência. Ela concordou, cabisbaixa. Ele então perguntou se ela estava bem. Marina respondeu que sim. — Não me convenceu. Eu reconheço esse olhar de que nada está bem. “Que inferno! Por que todo mundo tem que falar da minha cara?” Devia ter usado a sua máscara, pensou, irritada consigo mesma. “Nunca mais sair sem maquiagem”, anotou mentalmente. — Perdoe-me se a ofendi com meu comentário — hum, atencioso ele, espécie em extinção, observou Marina —, só queria dizer que reconheço essa feição, pois por semanas estive exatamente assim. Passar por um término é doloroso demais, cruel, sabe? Você deposita seus sonhos e desejos em um amor que imagina duradouro e, quando tudo desmorona, você se vê sem chão. — Sei como é — respondeu Marina, lembrando-se da noite anterior. — Mas, enfim, a gente se recupera. Pelo menos é o que minha terapeuta diz, e eu tento me agarrar, ainda que sem esperança, a essa frase. — Não sei se acredito… — Nem eu, mas tenho que acreditar pelos meus filhos. Aliás, preciso buscá-los na escola e levá-los para casa. Espero que minha mãe já esteja lá. Não sei o que faria sem ela! Até mais! Aff. “Não sei o que faria sem minha mãe!” Todos uns ridículos, filhinhos de mamãe. A esposa, no mínimo, deve ter cansado de competir com a velha. Mais um menino crescido que não enfrenta o domínio da mãe. Bem fez ela em arrumar um amante mais jovem; deve ter ferido o ego dele. Bom, todo castigo para homem era pouco, principalmente para homens casados com a mãe. Marina julgou e esboçou outro sorriso sarcástico antes de retornar à sua prisão — aliás, à mesa de trabalho. Ao chegar em casa à noite, aliviada por aquele dia ter acabado, deparou-se com seus cacos pelo chão. Simplesmente ignorou. Não queria lidar com aquilo, não pelas próximas semanas. Foi para o banho, colocou seu pijama mais confortável e jantou seus cigarros mentolados. Deitou-se em posição fetal na cama bagunçada, ainda com resquícios do término da noite anterior. Colocou os fones de ouvido e deu play na playlist que havia nomeado “A apatia dos cigarros mentolados”. Uma playlist com os rocks mais pesados e agressivos. Um paradoxo, pensou, mas aquelas músicas tinham o poder de acalmá-la. Dormiu profundamente ao som das vozes guturais, da bateria agressiva e da guitarra pesada, numa crescente e violenta raiva. Eram as músicas de uma boa noite de sono para alguém cujos cacos ficariam jogados por ali por um bom tempo.
