# Isso o livro não conta #03: a marca de uma cartolina

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/06/isso-o-livro-nao-conta-03-a-marca-de-uma-cartolina/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-06T17:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-21T20:18:13-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Crônicas Zargolinianas, Isso o livro não conta, Publicações

---

Por Paulo Ricardo Zargolin Em meados de 2004, li A marca de uma lágrima, de Pedro Bandeira. Não lembro exatamente em quantos dias terminei o livro. Também não saberia reconstruir, sem trapacear com a memória, todas as cenas que me acompanharam durante a leitura. O que permaneceu não foi apenas o enredo, mas uma experiência literária paralela, vivida fora das páginas e provavelmente mais dramática do que qualquer coisa prevista pelo autor. A professora Graciete, de Língua Portuguesa, havia preparado uma lista de livros. Cada aluno deveria escolher uma das obras para ler e estudar para a prova. Até aí, tudo dentro da normalidade escolar. Mas havia uma segunda tarefa. Os estudantes que tivessem escolhido o mesmo livro deveriam formar um grupo e produzir um cartaz. Não seria apenas um resumo escrito com canetinha e decorado com alguma borda ondulada. O cartaz deveria funcionar como uma espécie de apresentação crítica da obra, um review expositivo que ficaria no pátio da escola. Em 2004, naturalmente, nós não chamávamos aquilo de review. Era um cartaz. A palavra “cartaz” possui uma inocência enganosa. Faz parecer que basta comprar uma cartolina, escrever o título com letras grandes e distribuir algumas informações pelo espaço restante. Mas todo estudante que já participou de um trabalho em grupo sabe que uma cartolina pode carregar conflitos estéticos, disputas de poder e pequenas tragédias diplomáticas. Começamos a produção durante a aula. Em algum momento, talvez por entusiasmo, talvez por excesso de confiança, talvez porque ninguém mais quisesse transportar uma cartolina sem amassá-la, levei o trabalho para casa. Eu terminaria tudo. Essa frase costuma inaugurar desastres. Em casa, dediquei-me ao cartaz. Organizei os elementos, escrevi, desenhei, colei e tomei decisões gráficas que, naquele momento, considerei perfeitamente defensáveis. Não me lembro de sua aparência exata. A memória, generosamente, eliminou as provas. Lembro apenas de voltar à escola com a sensação de missão cumprida. As meninas do meu grupo olharam para o cartaz. Depois olharam para mim. Depois olharam novamente para o cartaz, talvez na esperança de que ele melhorasse durante o segundo exame. Não melhorou. Elas acharam horrível. Não um pouco carregado. Não ligeiramente confuso. Não uma proposta ousada que ainda precisava de refinamento. Horrível. A avaliação foi tão contundente que pediram à professora Graciete um novo prazo para refazer o trabalho. Meu cartaz não precisava de ajustes. Precisava deixar de existir. Ali estava, enfim, a verdadeira marca de uma lágrima. O livro de Pedro Bandeira falava de dores que eu acompanhava como leitor. O cartaz, porém, produziu uma dor inédita e inteiramente minha: a descoberta de que esforço, intenção e resultado não são necessariamente a mesma coisa. Eu havia trabalhado. Eu havia me dedicado. Eu havia levado a cartolina para casa. Nada disso obrigava o trabalho a ficar bonito. Essa talvez tenha sido uma das primeiras críticas editoriais que recebi na vida, embora ninguém tenha usado essa expressão. Minhas colegas não conheciam palavras como “identidade visual”, “composição”, “hierarquia da informação” ou “direção de arte”. Conheciam uma palavra mais eficiente: Horrível. Não lembro como ficou a segunda versão. Provavelmente mais organizada. Talvez mais colorida. Certamente mais aceita pelo grupo. Também não me recordo da nota, da prova ou do tempo durante o qual o cartaz permaneceu exposto no pátio. Lembro apenas do veredito. É curioso perceber o que a escola imagina que está ensinando e aquilo que, de fato, permanece. A professora Graciete queria que lêssemos, interpretássemos e apresentássemos uma obra. Eu aprendi tudo isso. Mas aprendi também que produzir alguma coisa e mostrá-la aos outros envolve riscos. Quem cria pode ser recusado. Quem escreve pode ser corrigido. Quem desenha pode descobrir que o belo que enxergou sozinho não sobrevive ao olhar coletivo. E quem leva uma cartolina para terminar em casa pode voltar com um pedido oficial de prorrogação do prazo. Hoje, olhando para trás, tenho certa ternura por aquele cartaz condenado. Talvez ele fosse realmente horrível. Tudo indica que sim. Mas havia nele alguma coisa que ainda reconheço: a vontade de não apenas cumprir uma tarefa, mas de transformá-la em algo meu. A técnica ainda não tinha chegado. O gosto estético era discutível. A execução provocou uma pequena crise entre adolescentes. Mas a vontade já estava lá. O livro não conta que, em algum lugar de 2004, um garoto leu A marca de uma lágrima, levou uma cartolina para casa e voltou à escola acreditando ter produzido uma obra. Também não conta que suas colegas discordaram energicamente. E que, muitos anos depois, ele ainda se lembraria menos da lágrima da capa do que daquela cartolina que ninguém quis pendurar no pátio. Porque… …isso o livro não conta. Quer conhecer A marca de uma lágrima? A capa acima é da edição que li naquela época. Para quem quiser conhecer a obra hoje, deixo abaixo uma sugestão de compra de uma edição mais recente na Amazon. [ Ver o livro na Amazon ](https://link.amazon/B0hXTQ8mY)