# O espectro #03: Quatro meses

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/07/o-espectro-03-quatro-meses/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-07T15:00:00-03:00
- Modified: 2026-09-07T15:00:00-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafía es más, O espectro, Publicações

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Logosgrafía es más · O espectro · capítulo 3 de 6 ## Quatro meses Duncan está morto há quatro meses. Grant e Enid ainda tentam descobrir se o amor pode sobreviver à culpa sem se tornar outra forma de assombração. Capítulo integral exclusivo para assinantes Sementes. Logosgrafía es más · O espectroHoracio Quiroga · tradução e adaptação livre de Paulo Ricardo Zargolin para o Logosgrafia Durante dois meses, fui impecável. Talvez seja a palavra mais exata. Não fui apenas correto. Fui impecável. Cuidei de Enid. Acompanhei seus silêncios. Respeitei seu luto. Esperei que comesse quando não tinha fome. Fiquei por perto quando ela não queria ficar sozinha e me afastei quando percebia que minha presença começava a pesar. Não a toquei além do necessário. Não disse nada que pudesse ser confundido com esperança. Não deixei escapar aquilo que, durante tanto tempo, eu já havia aprendido a esconder. Duncan teria ficado satisfeito. Esse pensamento me ajudava. E me destruía. Porque cada gesto correto repetia a última coisa que ele me pedira. Seja seu irmão. Havia dias em que eu quase conseguia acreditar que seria possível. Outros em que bastava Enid levantar os olhos para mim. Então tudo desmoronava. • • • No terceiro mês, desisti. Não da lealdade. Não do amor. Desisti apenas de fingir que uma coisa podia eliminar a outra. Foi numa noite qualquer. Talvez uma noite fria. Talvez eu tenha inventado o frio depois. A memória tem esse costume detestável de melhorar a iluminação das cenas importantes. Enid estava sentada. Fiquei diante dela por algum tempo sem dizer nada. Ela percebeu. Claro que percebeu. Sempre percebia. — O que foi? Não respondi. Aproximei-me. Ajoelhei. Quando ela entendeu, tentou se levantar. Segurei suas mãos. Não com força. Com desespero. — Não. Foi tudo o que ela disse. Ainda assim, abaixei a cabeça sobre seus joelhos. Enid ficou imóvel. Eu podia ouvir sua respiração. — Eu amo você. Ela se contraiu. Como se eu tivesse cometido alguma violência apenas por transformar o silêncio em frase. — Não diga isso. — Preciso dizer. — Não precisa. — Preciso. Enid tentou afastar minha cabeça. Eu não deixei. Talvez isso pareça indigno. Foi. Alguns dos momentos decisivos da vida possuem pouca dignidade quando vistos de perto. — Grant… — Eu amo você. — Cale-se. — Amo há muito tempo. — Cale-se. — Você sabe. Ela parou. Foi o pior silêncio de todos. Levantei um pouco o rosto. — Você sabe. — Não. — Sabe. — Não sei. — Sabe. Enid fechou os olhos. Eu já tinha atravessado o ponto em que ainda seria possível voltar. — Diga apenas isso. — O quê? — Que você sabia. — Grant… — Diga. — Não. — Que sempre soube. Ela começou a chorar. Não aquele choro ruidoso que pede consolo. Foi pior. Seu corpo simplesmente cedeu. As mãos que antes tentavam afastar-me caíram sobre o colo. Por um instante nossos olhos se encontraram. Depois Enid dobrou-se sobre si mesma. Eu me levantei. Não havia mais nada a fazer. Naquele momento, qualquer palavra seria outra forma de crueldade. Saí. Deixei-a sozinha. • • • Voltei uma hora depois. Do lado de fora, havia neve. Entrei com o rosto frio e as roupas úmidas. Enid estava composta. Eu também. É uma habilidade curiosa dos adultos: podemos destruir alguma coisa e, sessenta minutos depois, perguntar se a outra pessoa quer chá. Falamos pouco. Nenhum de nós mencionou o que havia acontecido. Durante os dias seguintes, retomamos a rotina com uma delicadeza quase profissional. Mas já não havia inocência. Talvez nunca tivesse havido. Agora, porém, sabíamos. Eu sabia que ela sabia. Ela sabia que eu sabia que ela sabia. E Duncan continuava morto. Isso não melhorava nada. • • • Há uma mentira confortável que os vivos contam sobre o casamento. Dizem que basta existir amor. Não basta. Enid havia querido Duncan. Nunca duvidei disso. Havia carinho. Lealdade. Uma vida em comum. Memória. Tudo aquilo que transforma duas pessoas numa unidade reconhecível aos olhos dos outros. Mas havia faltado alguma coisa. Uma espécie de febre. Uma chama de insensatez, extravio, injustiça. Fogo bastante para queimar a moral inteira de alguém antes que essa pessoa consiga chamar aquilo de erro. Comigo, Enid tinha isso. E eu sabia. Talvez por isso tenha insistido. Talvez por isso ela tenha resistido tanto. Porque, quando existe apenas desejo, ainda podemos chamá-lo de erro. Quando existe amor, o erro começa a exigir argumentos. • • • Três dias depois voltamos a Hollywood. A distância ajudou. Por pouco tempo. Um mês mais tarde, tudo se repetiu. Outra sala. Outra noite. Outra vez eu aos pés de Enid. Parece humilhante quando escrito. Foi. — Amo você mais a cada dia. — Grant. — Diga que algum dia vai me amar. — Não. — Diga apenas que acredita em mim. — Não. — Que sabe o quanto eu amo você. — Não. Ela tentou se afastar. Eu permaneci. — Deixe-me. — Enid… — Deixe-me! Não respondi. Acho que tremia. Ela percebeu. E então perdeu a paciência. Segurou meu rosto entre as mãos. Com força. Olhou diretamente para mim. Havia raiva. Havia medo. Havia alguma coisa que eu esperei meses para ver e teria preferido nunca ter visto. — Você não entende? Fiquei imóvel. — Não vê o que está fazendo comigo? Não respondi. E então ela disse. De uma vez. Sem elegância. Sem possibilidade de recolher depois. — Eu também amo você. O mundo não mudou. É isso que decepciona nas grandes revelações. Nenhuma janela se abre. Nenhum trovão. Nenhuma música. A sala continua a mesma. Mas alguma coisa deixa de poder voltar ao lugar. Enid soltou meu rosto. Chorava. — Amo você com toda a alma. Depois veio a parte que talvez importasse mais. — E estamos cometendo um crime. • • • Duncan estava morto havia quatro meses. Cento e vinte dias. Eu contei. Naturalmente contei. O homem que havia morrido confiando a mulher ao melhor amigo. A mulher que tentava sobreviver ao marido. O amigo que havia jurado, mesmo sem pronunciar a palavra, que seria digno daquela confiança. Quatro meses. É muito? É pouco? A resposta depende de quem está morto. Para Duncan, quatro meses já eram uma eternidade. Para nós, pareciam quatro dias. Mas a vida não costuma esperar que o luto termine para continuar. Isso também é uma espécie de crueldade. Enid e eu paramos de lutar. Não de uma vez. Não com coragem. Apenas deixamos de fingir que perderíamos aquela batalha. Nosso amor não se tornou mais simples quando foi aceito. Tornou-se mais fundo. Mais culpado. Mais necessário. Às vezes eu ainda pensava em Duncan. Às vezes Enid também. Nenhum de nós dizia. Há fantasmas que começam muito antes da morte. • • • Algum tempo depois estávamos em Nova York. Foi lá que soube da estreia de O Páramo. O filme. Um dos últimos trabalhos de Duncan. A notícia me atingiu com uma força que eu não esperava. A produção vinha sendo anunciada havia meses. Eu sabia que existia. Sabia que Duncan estava nela. Sabia que, cedo ou tarde, seria exibida. Ainda assim, quando li que finalmente entraria em cartaz, alguma coisa se moveu dentro de mim. Contei a Enid. Ela permaneceu em silêncio. — Quer ir? Talvez eu não devesse ter perguntado. Talvez ela não devesse ter aceitado. Ficamos nos olhando por algum tempo. Um longo tempo. Bastava dizer não. Nenhum dos dois disse. Havia medo. Havia curiosidade. Havia também uma arrogância muito própria dos vivos: a convicção de que já superamos aquilo que ainda não fomos obrigados a encarar. Fomos. Naquela noite, entramos no Metropole. As luzes se apagaram. A sala mergulhou numa penumbra avermelhada. Enid segurou minha mão. A projeção começou. E então ele apareceu. Enorme. Pálido. Com o mesmo rosto que eu havia visto pela última vez sobre um travesseiro. Duncan Wyoming. Vivo outra vez. Pelo menos na tela. Senti o braço de Enid tremer sob meus dedos. Não olhei para ela. Ela também não olhou para mim. Duncan sorriu. O mesmo sorriso. Os mesmos gestos. O mesmo corpo. A mesma confiança. E, a poucos metros dali, na escuridão do camarote, sua mulher estava sentada ao lado de seu melhor amigo. Minha mão continuava sobre o braço dela. Duncan não podia saber. Era apenas um filme. Uma sequência de imagens. Luz sobre uma tela. Nada mais. Foi isso que pensei. Naquele momento, eu ainda acreditava que os mortos respeitavam certas regras. • • • Continua em #4 — O morto na tela
