# O espectro #04: O morto na tela

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/08/o-espectro-04-o-morto-na-tela/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-08T15:00:00-03:00
- Modified: 2026-09-08T15:00:00-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafía es más, O espectro, Publicações

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Logosgrafía es más · O espectro · capítulo 4 de 6 ## O morto na tela O morto retorna como imagem. Grant e Enid acreditam que a repetição pode transformar culpa em hábito. Até os olhos de Duncan começarem a sair do lugar. Capítulo integral exclusivo para assinantes Sementes. Logosgrafía es más · O espectroHoracio Quiroga · tradução e adaptação livre de Paulo Ricardo Zargolin para o Logosgrafia Duncan estava morto. Esse era o fato. Convém começar por ele porque, naquela noite, tudo o que aconteceu depois pareceu empenhado em torná-lo discutível. Na tela do Metropole, porém, Duncan Wyoming estava vivo. Não vivo como alguém lembrado. Não vivo como uma fotografia. Vivo no pior sentido possível. Movia-se. Respirava. Sorria. Ocupava espaço. Sua imagem crescia até o rosto parecer grande demais para pertencer a um homem. Enid segurava meu braço. Eu sentia seus dedos tensos. Não precisava olhar para ela. Sabia exatamente o que estava vendo. O mesmo que eu. Duncan. O marido morto. Meu melhor amigo morto. O homem que havia confiado Enid a mim. E que agora reaparecia diante de nós sem saber, naturalmente, que a distância entre a filmagem e aquela noite havia sido suficiente para mudar tudo. Quando o filme fora rodado, Enid ainda era sua mulher. Eu ainda era seu amigo. Agora ela estava comigo. E Duncan continuava sorrindo. • • • Durante toda a sessão, não dissemos uma palavra. Também não desviamos os olhos. Há pessoas que, diante de uma coisa terrível, fecham os olhos. Nós fizemos o contrário. Assistimos até o fim. Talvez por culpa. Talvez por fascínio. Talvez porque algumas dores só se tornem suportáveis quando nos obrigamos a encará-las até perderem a forma. Não perderam. Quando as luzes se acenderam, permanecemos sentados por alguns segundos. Enid estava pálida. Eu também devia estar. Saímos do teatro em silêncio. O caminho de volta pareceu mais longo do que deveria. Na rua, tudo funcionava normalmente. Carros. Gente entrando em restaurantes. Pessoas discutindo. Rindo. Vivendo. Nenhuma delas tinha acabado de passar duas horas ao lado de um morto. Nós tínhamos. • • • Em casa, Enid finalmente me olhou. Segurou meu rosto entre as mãos. Havia lágrimas em seus olhos. Mas ela sorria. Esse sorriso me feriu mais do que o choro. Porque eu entendi. Não era Duncan que ela queria. Era o contrário. Ela queria que Duncan deixasse de estar ali. Queria que aquela imagem se tornasse apenas uma imagem. Queria olhar para a tela e enxergar um ator. Não um marido. Não uma acusação. Não um morto. Aproximei meu rosto do dela. — Eu sei. Enid não respondeu. — Nós vamos nos acostumar. Ela continuou me olhando. — Precisamos nos acostumar. Essa talvez tenha sido nossa primeira grande estupidez. A segunda foi voltar ao cinema na noite seguinte. • • • Voltamos. À mesma sessão. Ao mesmo filme. Ao mesmo morto. E depois voltamos outra vez. E outra. Pode parecer absurdo. Era. Mas havia uma lógica. Pelo menos acreditávamos que havia. O que precisávamos esquecer? Duncan? Impossível. O que precisávamos esquecer era o efeito de vê-lo. A surpresa. A culpa. A sensação obscena de estarmos traindo um homem que já não podia ser traído. Se assistíssemos ao filme vezes suficientes, Duncan se tornaria apenas personagem. Era essa a ideia. Transformar o morto em fita. Transformar a memória em repetição. Transformar a culpa em hábito. Os vivos fazem isso com frequência. Às vezes funciona. • • • O Páramo virou um sucesso. A atuação de Duncan era excelente. Eu precisava admitir. Talvez justamente por conhecê-lo tão bem, eu enxergasse a força daquele trabalho. O filme tinha violência. Florestas. Conflito. Ferimentos. Homens empurrados ao limite. Era o tipo de papel que lhe servia. Em determinada cena, Duncan aparecia ferido depois de uma luta. Tinha a cabeça envolvida por um lenço. Respirava com dificuldade. Estava estendido sobre um divã. Diante dele, uma mulher se desesperava sobre o cadáver de outro homem. Seu amante. E então Duncan descobria. Ali, diante dele. Descobria que a mulher amava justamente aquele homem. O morto. A ironia teria sido apenas desagradável. Se tivesse parado aí. Não parou. • • • Duncan era um grande ator. Naquele momento, isso se tornava quase insuportável. A câmera permanecia longamente sobre seu rosto. Primeiro surpresa. Depois compreensão. Depois desolação. Depois ódio. Tudo se acumulava nos olhos. A direção prolongava a cena até quase a violência. Duncan parecia respirar dentro da própria tela. Enid e eu permanecíamos imóveis. No escuro. Juntos. O marido morto assistindo à revelação de uma traição fictícia. A mulher real dele ao lado do amigo real. Era difícil não perceber a coincidência. Difícil e, ainda assim, possível. Durante algumas noites. • • • Havia momentos em que Duncan caminhava em direção à câmera. O rosto aumentava. Os olhos ocupavam quase toda a tela. Chegava tão perto que eu tinha a impressão absurda de que seus cabelos poderiam nos tocar. Depois ele recuava. A sala voltava a existir. A perspectiva se recompunha. O feitiço se desfazia. Até a noite seguinte. E nós voltávamos. Sempre voltávamos. Hoje não sei explicar por quê. Talvez já não fosse apenas culpa. Talvez houvesse ali uma espécie de chamado. Alguma coisa nos puxava para aquele teatro. Fazia-nos chegar à mesma hora. Sentar no mesmo escuro. Esperar a mesma cena. Ver Duncan descobrir, outra vez, a infidelidade de uma mulher que não era Enid e matar um homem que não era eu. Era tudo ficção. Era isso que repetíamos. Ficção. Luz. Imagem. Uma sequência já registrada. Nada poderia acontecer de diferente. Era justamente essa certeza que tornava possível voltar. Um filme não muda. • • • Até que mudou. Não de um jeito que pudesse ser medido. Não no começo. Foi só uma impressão. Uma noite, durante a cena do divã, senti alguma coisa na nuca. Não frio. Não exatamente. Era a sensação de estar sendo observado. Olhei para a tela. Duncan continuava onde sempre estivera. Ferido. Respirando com dificuldade. O rosto dominado pela descoberta da traição. Mas os olhos… Havia alguma coisa errada nos olhos. Naquela cena, Duncan deveria olhar para a mulher. Depois para o cadáver. Depois para algum ponto além deles. Eu já conhecia cada movimento. Tínhamos visto o filme vezes demais. Naquela noite, porém, tive a impressão de que seu olhar estava ligeiramente deslocado. Para a esquerda. Não para a esquerda dele. Para a nossa. • • • Não disse nada a Enid. Talvez porque esperasse estar enganado. Talvez porque dizer tornasse real. Na noite seguinte, observei desde o começo. Esperei pela cena. O lenço na cabeça. O divã. A mulher sobre o cadáver. A revelação. Os olhos de Duncan. Outra vez. Mais próximos. Não fisicamente. Na direção do olhar. Como se alguma coisa situada fora da cena começasse a interessá-lo. Enid apertou minha mão. Não olhei para ela. Ela também havia percebido. • • • Existem leis. Eu sabia disso. Existem princípios físicos. Um filme registra o que foi feito diante da câmera: a persistência gelada de um instante, o relevo imóvel de um segundo que já viveu. Nada mais. O gesto fica preso. O rosto fica preso. Os olhos ficam presos. Um morto pode continuar andando numa tela por décadas. Mas não porque esteja vivo. Porque a luz sabe repetir. A película deveria guardar apenas o rastro químico de Duncan. Duncan não podia enxergar. Duncan não podia escolher. Duncan não podia mudar. Era simples. O homem estava enterrado. A imagem estava projetada. Entre uma coisa e outra não existia caminho. • • • Ainda assim, noite após noite, os olhos se moviam. Muito pouco. Talvez apenas o suficiente para que continuássemos duvidando. Uma noite, estavam voltados para algum ponto à esquerda. Na outra, um pouco mais. Na seguinte, mais. O movimento era lento. Quase ridículo. Mas acontecia. Enid passou a entrar no teatro em silêncio absoluto. Eu também. Já não precisávamos falar sobre aquilo. Sabíamos. A cena começava. Duncan descobria a traição. O rosto endurecia. O ódio surgia. E os olhos avançavam mais um pouco em nossa direção. • • • Eu ainda tentava pensar racionalmente. Não era Duncan. Não podia ser Duncan. Era uma ilusão. Sugestão. Culpa. Uma repetição vista tantas vezes que nosso cérebro havia começado a inventar diferenças. Era possível. Era até provável. E talvez eu tivesse acreditado nisso. Se, naquela noite, Enid não tivesse tremido antes de mim. A mão dela se fechou sobre a minha. Com força. Eu olhei. Duncan estava deitado no divã. A cabeça enfaixada. O corpo imóvel. Exatamente como sempre. Mas seus olhos já não estavam na mulher. Nem no cadáver. Nem em algum ponto da cena. Estavam fora dela. Atravessavam a tela. Atravessavam a sala. Atravessavam a escuridão. E paravam no camarote onde estávamos. Enid não respirava. Eu também não. Duncan Wyoming, morto havia meses, olhava diretamente para nós. E, dessa vez, não havia como fingir que era o filme. • • • Continua em #5 — Ele saiu da tela
