# Por que continuamos jogando quando já sabemos que vamos perder?

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/08/por-que-continuamos-jogando-quando-ja-sabemos-que-vamos-perder/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-08T12:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-28T11:49:28-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Estudos de caso para mentes inquietas, Publicações

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Por Paulo Ricardo Zargolin Um estudo de caso para mentes inquietas sobre apostas, repetição, controle e a estranha dificuldade humana de aceitar que acabou. Você sabe que a máquina não foi construída para distribuir dinheiro. Sabe que, para continuar funcionando, a casa precisa ganhar. Sabe que aquela pessoa que aparece numa propaganda transformando uma quantia pequena numa pequena fortuna está ali justamente porque isso chama mais atenção do que todas as pessoas que apertaram os mesmos botões e simplesmente perderam. Você sabe. E, ainda assim, existe uma pergunta incômoda: por que alguém aperta outra vez? Talvez a resposta mais fácil seja imaginar que o jogador não compreendeu as probabilidades. Que faltou informação, inteligência, educação financeira ou capacidade de reconhecer uma armadilha óbvia. É uma explicação confortável porque cria uma distância segura. Eu saberia parar. O problema é que o jogo não precisa convencer alguém, durante horas, de que a vitória é provável. Pode bastar produzir, durante alguns segundos, uma sensação muito mais modesta: a próxima tentativa pode ser diferente. Estudos sobre transtorno do jogo mostram que a possibilidade de uma recompensa surgir a qualquer momento pode produzir excitação e reforçar a continuidade do comportamento. O jogador não retorna apenas pela expectativa de ganhar; pode retornar também para tentar recuperar perdas anteriores. Quanto menor o intervalo entre tentativa e possível recompensa, maior pode ser o poder de reforço daquele jogo (OLIVEIRA et al., 2022). É nesse ponto que uma palavra aparentemente inofensiva começa a mudar de significado: recuperar. Quem perdeu cem reais e aposta outros vinte pode não estar pensando nos vinte. Pode estar tentando apagar os cem. A aposta seguinte passa a carregar uma tarefa impossível: alterar retrospectivamente aquilo que já aconteceu. Se eu conseguir agora, a perda anterior terá valido a pena. Se eu parar agora, terei perdido de verdade. Se eu tentar mais uma vez, talvez ainda consiga sair daqui como alguém que ganhou. A literatura clínica sobre o jogo descreve inclusive uma progressão característica. Depois de experiências de vitória, o jogador pode passar a interpretar a sorte como habilidade; na chamada fase da perda, aparecem otimismo irrealista, aumento das apostas, utilização de economias, endividamento e uma crescente dificuldade de tolerar aquilo que já foi perdido (OLIVEIRA et al., 2022). Observe que alguma coisa mudou. No começo, o objetivo era ganhar. Agora, o objetivo pode ser não terminar perdendo. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas. ## A última tentativa Quase toda sequência de repetição conhece alguma versão desta frase: Só mais uma. Depois dessa eu paro. Vou tentar mais duas vezes. Agora é a última. Criamos limites para nós mesmos porque eles transformam a continuação numa espécie de exceção administrada. Não estou continuando indefinidamente. Estou apenas autorizando mais uma tentativa. Depois outra. E talvez outra. A última tentativa possui uma característica curiosa: raramente sabe que é a última. O problema também não pode ser reduzido à falta de informação. Ragazzo e Ribeiro observam que, diante de acontecimentos probabilísticos raros, as pessoas nem sempre dispõem de experiências anteriores suficientes para avaliar corretamente probabilidades e consequências. Para tomar decisões perfeitamente racionais, seria preciso estimar não apenas o possível resultado de cada alternativa, mas também suas probabilidades reais — algo muito mais difícil do que parece (RAGAZZO; RIBEIRO, 2012). O acaso, além disso, é um objeto particularmente irritante para a mente humana. Gostamos de perceber padrões. Se aconteceu duas vezes, procuramos a terceira. Se quase aconteceu, imaginamos que estivemos perto. Se uma escolha deu errado, perguntamos qual escolha teria dado certo. É difícil aceitar uma explicação que não contém intenção, aprendizagem ou justiça: aconteceu porque aconteceu. Por isso transformamos sequências aleatórias em histórias. Talvez agora. Ontem chegou perto. Nunca acontece quatro vezes seguidas. Depois de perder tanto, alguma coisa precisa vir. Não precisa. Mas uma sequência de eventos pode começar a parecer uma narrativa muito antes de possuir qualquer narrativa. ## Talvez estejamos fazendo a pergunta errada Diante de uma máquina, o jogador naturalmente pergunta: qual é a chance de eu ganhar? Só que talvez essa não seja a única pergunta relevante. Para quem projeta, oferece ou explora um jogo, pode existir outra: qual é a chance de ele jogar novamente? Essas duas perguntas parecem semelhantes. Não são. Uma trata do resultado de uma rodada. A outra trata da repetição. E talvez seja justamente na distância entre uma e outra que esteja escondida a parte mais interessante desta história. No Logosgrafia, os [ textos e publicações ](https://logosgrafia.com/category/publicacoes/) continuam transformando perguntas aparentemente simples em outras um pouco mais difíceis. A leitura continua ## Até aqui, falamos sobre ganhar e perder. E se ganhar dinheiro não for a única coisa que alguém compra quando aposta? A continuação deste estudo é liberada gratuitamente para assinantes Free do Logosgrafia. Nela, entramos em expectativa, velocidade, algoritmos e sensação de controle. E há uma história se aproximando: [ A Matadora de Tigrinhos chega em 17 de setembro ](https://logosgrafia.com/estantes/logo-ai/). Continuação ## Talvez uma aposta também compre alguns segundos de futuro. Entre o toque e o resultado existe um intervalo muito pequeno no qual nada terminou de acontecer. O dinheiro ainda pode voltar. A combinação ainda pode surgir. O improvável ainda pode acontecer. Durante alguns segundos, o passado não desaparece, mas perde temporariamente sua autoridade. Ainda dá. Esse intervalo importa. Ragazzo e Ribeiro chamam atenção para diferenças estruturais entre os jogos: frequência dos eventos, intervalo entre apostas e pagamentos, proporção entre sorte e habilidade, possibilidade de “quase acerto”, grau de participação do jogador e velocidade com que os resultados aparecem. Jogos de frequência contínua permitem ciclos de aposta muito mais rápidos e podem intensificar problemas associados ao jogo patológico (RAGAZZO; RIBEIRO, 2012). Os mesmos autores fazem uma pergunta especialmente interessante: onde está exatamente a utilidade experimentada pelo jogador? No resultado? Ou na expectativa? Talvez parte do prazer esteja naquele período em que ainda não sabemos se perdemos ou ganhamos e podemos imaginar um resultado improvável (RAGAZZO; RIBEIRO, 2012). Se isso estiver correto, uma máquina não precisa produzir vitórias suficientes para mudar a vida de alguém. Precisa produzir possibilidades suficientes para que alguém continue. ## Então colocamos a máquina dentro do bolso Durante muito tempo, jogar exigia um lugar. Um cassino. Uma casa de apostas. Uma lotérica. Alguma distância entre o impulso e a ação. O ambiente digital reduziu boa parte dessa distância. O jogo agora pode estar no sofá, na cama, no banheiro, no intervalo do trabalho ou enquanto uma partida de futebol acontece na televisão. A literatura recente sobre apostas digitais discute justamente a combinação entre facilidade de acesso, publicidade, influenciadores, algoritmos personalizados e estratégias de gamificação. Esses elementos ajudam a construir ambientes capazes de captar e reter atenção e podem ampliar riscos de comportamentos compulsivos (FREIRE et al., 2025). A revisão de Freire e colaboradores destaca também a relação entre apostas online, juventudes, vulnerabilidades e promessa de ganhos financeiros fáceis, tratando a ludopatia como problema emergente de saúde pública (FREIRE et al., 2025). Costa chama atenção para outro aspecto dessa transformação: plataformas acessíveis e altamente interativas passaram a apresentar as apostas não apenas como entretenimento, mas também como possibilidade de ganho financeiro rápido, num cenário em que saúde mental, endividamento e proteção de populações vulneráveis passaram a integrar o próprio debate regulatório (COSTA, 2025). A velha máxima diz que a casa sempre ganha. Talvez devêssemos torná-la um pouco mais precisa. A casa não precisa ganhar todas. Aliás, deixar alguém ganhar ocasionalmente pode fazer parte da experiência que sustenta a continuação. O jogador pensa naquela rodada. A casa pode pensar em milhares. Você precisa que sua vitória aconteça enquanto seu dinheiro ainda existe. A casa pode esperar. ## A fantasia de controle Outro fenômeno aparece repetidamente na literatura sobre transtorno do jogo: a sensação de excepcionalidade. Talvez eu tenha percebido alguma coisa. Talvez comigo seja diferente. Talvez exista uma estratégia que ninguém descobriu. Em relatos clínicos aparecem fantasias de grandes vitórias, desejo de ser exceção, sensação de poder e crença de estar no controle. Um dos casos apresentados por Oliveira e colaboradores descreve uma mulher que permanecia durante horas diante de máquinas acreditando que conseguiria encontrar uma lógica capaz de vencê-las (OLIVEIRA et al., 2022). Talvez seja um erro chamar isso simplesmente de irracionalidade. Há alguma coisa quase narrativa nesse processo. Nós queremos que escolhas produzam consequências. Queremos que experiências produzam aprendizagem. Queremos acreditar que observar suficientemente um sistema permitirá entendê-lo. O acaso oferece uma resposta muito menos satisfatória: não há nada para descobrir. E então começamos a procurar mesmo assim. ## Talvez não estejamos jogando apenas por dinheiro Nos atendimentos descritos no estudo da Psicologia USP, aparecem jogadores para os quais outras atividades — trabalho, relações afetivas e formas comuns de lazer — já não produzem prazer comparável ao jogo. Surgem também sentimentos de tédio, monotonia, culpa, raiva e dificuldades para reconhecer a dimensão dos impactos causados às pessoas próximas (OLIVEIRA et al., 2022). Isso amplia bastante a pergunta inicial. Talvez algumas pessoas joguem pelo dinheiro. Outras, pela recuperação do dinheiro. Pela expectativa. Pelo risco. Pelo intervalo. Pela sensação de que alguma coisa extraordinária ainda pode acontecer. Ou pela possibilidade de permanecer mais alguns segundos dentro de uma história cuja conclusão ainda não foi determinada. Por que continuamos jogando quando já sabemos que vamos perder? Talvez a própria pergunta contenha uma pequena armadilha. Porque nem sempre continuamos acreditando que vamos ganhar. Às vezes continuamos porque ainda não conseguimos aceitar que perdemos. E uma nova rodada promete exatamente isso: adiar o ponto final. ## Uma história está chegando Talvez seja por isso que este estudo esteja sendo publicado às vésperas de uma ficção chamada [ A Matadora de Tigrinhos ](https://logosgrafia.com/estantes/logo-ai/). Não vamos explicar o título. Não vamos explicar a história. E muito menos contar o que acontece nela. Podemos dizer apenas que ela chega ao Logosgrafia em 17 de setembro e que algumas das perguntas levantadas neste estudo também rondam aquele universo: acaso, repetição, máquinas, impulso, controle e aquilo que imaginamos compreender quando acreditamos estar jogando. Até um dos títulos de capítulo parece conhecer esse território: Na terceira, eu paro. Não vamos explicar por quê. Por enquanto, talvez seja suficiente deixar uma última pergunta sobre a mesa: quando acreditamos que estamos aprendendo a jogar contra uma máquina, quem está aprendendo com quem? [ A Matadora de Tigrinhos ](https://logosgrafia.com/estantes/logo-ai/) está no prelo. O jogo ainda nem começou. ## Referências COSTA, Luiza Ferreira. Jogos de azar e a era digital: análise de legalidade das apostas e suas consequências. Libertas Direito, Belo Horizonte, 2025. FREIRE, Sara Régia Vieira; MONTE, Francisco Thiago Paiva; GOMES, Mayara Farias; NOGUEIRA NETO, José Maria; ALVES, Samara Vasconcelos. Entre o lucro e o sofrimento: o transtorno do jogo como risco à saúde pública. Id on Line Revista de Psicologia, v. 19, n. 77, p. 112–134, jul. 2025. DOI: 10.14295/idonline.v19i77.4227. OLIVEIRA, Maria Paula Magalhães Tavares de; CASTRO, Juliana Saldanha de; BRAGA, Edilson de Oliveira; RASZEJA, Bruno Chagas. Transtorno de jogo: contribuição da abordagem psicodinâmica no tratamento. Psicologia USP, v. 33, e210007, 2022. DOI: 10.1590/0103-6564e210007. RAGAZZO, Carlos Emmanuel Joppert; RIBEIRO, Gustavo Sampaio de Abreu. O dobro ou nada: a regulação de jogos de azar. Revista Direito GV, São Paulo, v. 8, n. 2, p. 625–650, jul./dez. 2012. ZARGOLIN, Paulo Ricardo. A Matadora de Tigrinhos. Logosgrafia, 2026. No prelo. Quer saber o que vem depois? [ Avance para o futuro no Logo Aí. ](https://logosgrafia.com/estantes/logo-ai/)
