# O espectro #05: Ele saiu da tela

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- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-09T15:00:00-03:00
- Modified: 2026-09-09T15:00:00-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafía es más, O espectro, Publicações

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Logosgrafía es más · O espectro · capítulo 5 de 6 ## Ele saiu da tela Um filme não muda. Um morto não escolhe para onde olhar. Era nisso que Grant ainda conseguia acreditar. Capítulo integral exclusivo para assinantes Sementes. Logosgrafía es más · O espectroHoracio Quiroga · tradução e adaptação livre de Paulo Ricardo Zargolin para o Logosgrafia Na noite seguinte, voltamos. É uma frase difícil de defender. Ainda hoje. Duncan estava morto. Seu filme estava vivo. E, na noite anterior, seus olhos tinham abandonado a cena para encontrar os nossos. Qualquer pessoa sensata teria escolhido outro cinema. Outra cidade. Talvez outro continente. Nós voltamos ao Metropole. • • • Durante o dia, tentei reconstruir racionalmente o que havia acontecido. Era possível que eu estivesse enganado. Era possível que Enid estivesse enganada. Era até possível que estivéssemos enganados juntos. A culpa é uma excelente diretora. Reposiciona atores. Altera enquadramentos. Faz um homem morto olhar exatamente para onde nossa consciência prefere não olhar. Essa explicação me serviu durante algumas horas. Depois escureceu. E nós fomos ao cinema. • • • A sala encheu. As pessoas conversavam. Riam. Procuravam seus lugares. Ninguém parecia compreender que aquela noite tinha alguma coisa de extraordinário. Isso me irritou. Talvez porque eu já começasse a esperar que o mundo reconhecesse nossos presságios. O mundo raramente colabora. As luzes se apagaram. Enid segurou minha mão. O filme começou. • • • Esperamos. Já conhecíamos o caminho. A floresta. A luta. O ferimento. Duncan com a cabeça enfaixada. O divã. A mulher. O cadáver. A descoberta. O ódio. E então os olhos. Desta vez, não houve procura. Não houve hesitação. Duncan apareceu na tela e, quando chegou a cena, olhou diretamente para nosso camarote. Enid apertou meus dedos. Eu não me mexi. — Ainda falta um pouco — murmurei. Não sei exatamente o que quis dizer. Talvez acreditasse que existisse uma distância entre o olhar de Duncan e nós. Talvez precisasse acreditar. Enid não respondeu. Mas senti a mão dela tremer. • • • Quando as luzes se acenderam ao fim da sessão, respiramos. Esse detalhe me impressiona agora. Respiramos. Como se a claridade devolvesse ao mundo as regras. Com as lâmpadas acesas, Duncan voltava a ser um cadáver enterrado a quilômetros dali. O Metropole voltava a ser um teatro. A tela voltava a ser tecido. Enid voltava a ser Enid. Eu voltava a ser um homem racional. Era a escuridão que estragava tudo. Por alguns minutos, conseguimos acreditar nisso. Depois as luzes se apagaram outra vez. • • • Voltamos na noite seguinte. É possível que, a esta altura, você esteja perdendo a paciência conosco. Compreendo. Eu também perderia. Mas há uma espécie de medo que afasta. E outra que chama. O nosso já pertencia à segunda espécie. Não queríamos apenas saber se Duncan tornaria a olhar. Queríamos descobrir até onde ele conseguiria ir. Essa curiosidade parece estúpida quando o perigo já aconteceu. Antes disso, costuma parecer coragem. • • • Na cena do divã, os olhos vieram primeiro. Cravados em nós. Depois aconteceu outra coisa. Enid se inclinou para a frente. — Grant… — O quê? Ela não respondeu imediatamente. Duncan continuava deitado. O ator respirava com dificuldade. A mulher fictícia chorava sobre o cadáver fictício. Tudo como sempre. — Ele se mexeu. — Claro que se mexeu. É um filme. — Não. A voz de Enid falhou. — Não assim. Olhei. Duncan tinha uma das pernas pendendo para fora do divã. Meu corpo inteiro esfriou. Conhecíamos aquela cena. Havíamos assistido a ela tantas vezes que eu poderia descrever cada gesto sem olhar para a tela. Duncan não baixava a perna naquele momento. Nunca havia baixado. Mas ela estava ali. Pendurada. Como se procurasse o chão. • • • Há um instante preciso em que o impossível deixa de ser hipótese. Não acontece quando o vemos. Acontece quando percebemos que já não conseguiremos explicá-lo. Duncan apoiou o pé. Devagar. Nenhuma pessoa na sala reagiu. Só nós. Na tela, a cena continuava. Os outros atores representavam seus papéis. A mulher permanecia curvada sobre o amante morto. O cenário permanecia o mesmo. Apenas Duncan havia abandonado o filme. Ele se sentou no divã. Enid levou a mão à boca. — Grant… — Cale-se. Não queria silenciá-la. Queria silenciar o que estava acontecendo. • • • Duncan ficou de pé com a lentidão de uma fera. Sem pressa. Os olhos nunca deixaram os nossos. Deu um passo. Depois outro. Veio do fundo do cenário. Aumentou. A câmera não o acompanhava. Ele simplesmente crescia porque se aproximava. A figura ocupou metade da tela. Depois quase toda. A cabeça enfaixada. O rosto branco. Os olhos vivos. Terrivelmente vivos. Enid agarrou meu braço. Duncan continuou avançando. Duncan cresceu até um primeiro plano monstruoso. Seu rosto já não parecia projetado. Parecia comprimido contra a superfície da tela. Como se houvesse alguma coisa atrás dela tentando atravessar. Eu não respirava. Ninguém na sala gritava. Ninguém se levantava. As pessoas continuavam assistindo ao filme que nós já não víamos. Para elas, Duncan permanecia no divã. Para nós, estava diante da tela. Procurando uma saída. • • • Então veio o clarão. Branco. Violento. Enid gritou. A imagem desapareceu. A sala se iluminou. Por alguns segundos não entendi o que havia acontecido. Depois vieram as reclamações. Assobios. Vozes. Alguma coisa falhara na projeção. A fita havia queimado. Só isso. Uma falha técnica. O tipo de acidente que qualquer cinema conhece. Para todos os outros, era isso. Para nós, aquele pedaço de filme havia queimado exatamente quando Duncan chegara perto demais. • • • As pessoas se viraram. Não para a tela. Para nós. O grito de Enid havia chamado atenção. Ela estava caída contra mim. Branca. Um homem na plateia disse: — A senhora está passando mal. Outro olhou para mim. — Ele parece pior. Não respondi. O funcionário do teatro apareceu com nossos casacos. Talvez quisesse ajudar. Talvez só desejasse retirar discretamente duas pessoas que estavam perturbando a sessão. Saímos. • • • Do lado de fora, a cidade continuava inteira. Isso começava a me parecer uma provocação. Enid não falou no caminho. Eu também não. Não discutimos o que havíamos visto. Não precisávamos. Duncan havia feito alguma coisa que um filme não pode fazer. Tinha alterado um gesto. Depois outro. Tinha se levantado. Tinha caminhado em nossa direção. E só não descobríramos o que aconteceria em seguida porque a fita queimara. Talvez tenha sido acidente. Talvez não. • • • No dia seguinte, Enid e eu não nos vimos. Foi a primeira vez em muito tempo. Não combinamos. Apenas aconteceu. Eu permaneci sozinho. Tentei trabalhar. Não consegui. Tentei ler. As palavras não paravam no lugar. Tentei dormir. Fechava os olhos e via Duncan levantando-se do divã. Então fiz uma coisa que jamais contei a Enid. Abri uma gaveta. Peguei meu revólver. Coloquei-o sobre a mesa. Fiquei algum tempo olhando para ele. Aquilo era ridículo. Uma arma contra uma imagem. Metal contra luz. Uma bala contra um homem que já estava morto. Mesmo assim, carreguei o revólver. • • • À noite encontrei Enid. Ela olhou para mim. Não perguntou se iríamos ao Metropole. Eu também não perguntei. Já sabíamos. Caminhamos juntos. Nenhum de nós mencionou Duncan. Nenhum de nós mencionou a fita. Nenhum de nós mencionou o que poderia acontecer caso ele conseguisse terminar o movimento interrompido na noite anterior. Chegamos ao teatro. Entramos. O funcionário rasgou os ingressos. As pessoas conversavam. A sala estava cheia. Tudo absolutamente normal. Sentamo-nos. Enid colocou a mão sobre a minha. Desta vez encontrou meus dedos fechados. — O que foi? — Nada. Ela me olhou. Eu sorri. As luzes começaram a baixar. Só então afastei o paletó. O revólver estava no meu bolso. E naquela noite eu não pretendia esperar para descobrir até onde um morto conseguia chegar. • • • Continua em #6 — Para além do que se vê
