# O espectro #06: Para além do que se vê

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- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-10T15:00:00-03:00
- Modified: 2026-09-10T15:00:00-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafía es más, O espectro, Publicações

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Logosgrafía es más · O espectro · capítulo 6 de 6 ## Para além do que se vê Grant volta ao cinema armado. A tela continua diante dele. O problema é que Duncan já aprendeu que ela não precisa ser uma fronteira. Capítulo integral exclusivo para assinantes Sementes. Logosgrafía es más · O espectroHoracio Quiroga · tradução e adaptação livre de Paulo Ricardo Zargolin para o Logosgrafia Naquela noite, eu estava armado. Isso não me tranquilizou. Armas funcionam melhor contra problemas que respeitam matéria. Duncan, até onde eu sabia, já não respeitava quase nada. Entramos no Metropole. Sentamos. Enid permaneceu ao meu lado. As luzes se apagaram. E o mundo perdeu novamente suas regras. • • • Eu conhecia cada minuto do filme. Sabia quando Duncan apareceria. Sabia quando seria ferido. Sabia quando colocaria o lenço na cabeça. Sabia quando se deitaria no divã. Sabia até quando deveria respirar mais fundo. O problema era justamente esse. Na noite anterior, ele havia começado a fazer coisas que eu não sabia. Minha mão permaneceu dentro do bolso. Os dedos fechados sobre o revólver. Enid percebeu. Não disse nada. Talvez tivesse medo de descobrir o que eu pretendia fazer. Eu também tinha. • • • Chegou a cena. O divã. A mulher. O morto. Duncan. Durante alguns segundos, tudo aconteceu como deveria. Quase senti alívio. Então ele olhou para nós. Diretamente. Sem transição. Sem hesitação. Não para a atriz. Não para o cadáver. Para nós. Enid se contraiu ao meu lado. Eu apertei o revólver. — Não olhe — murmurei. Ela não obedeceu. Eu também não. • • • Duncan começou a se levantar. Primeiro a perna. Depois o tronco. Depois ficou de pé. Exatamente como na noite anterior. Só que dessa vez a fita não queimou. Ele avançou. O rosto cresceu. A figura ocupou a tela inteira. Eu tirei o revólver do bolso. Ninguém percebeu. Ninguém parecia perceber nada. Para o restante da sala, Duncan continuava representando. Para nós, Duncan já havia abandonado o filme. • • • Chegou à borda da tela. Parou. Por um instante impossível, permaneceu ali. Metade imagem. Metade alguma outra coisa. Então aconteceu. Duncan se desprendeu. Não encontro palavra melhor. Saiu da tela. Não atravessou uma porta. Não rasgou tecido. Não houve passagem visível. A luz simplesmente deixou de contê-lo. Seu corpo veio pelo próprio feixe da projeção. Por cima das cabeças da plateia. Flutuando. Avançando. Com a cabeça enfaixada. Os olhos fixos nos meus. Enid gritou. Desta vez não foi apenas medo: foi um daqueles gritos em que a razão inteira parece se rasgar numa única corda vocal. Alguma coisa dentro dela se rompeu junto. Razão. Memória. Culpa. Tudo de uma vez. Duncan estendeu as mãos. Os dedos pareciam garras. E veio em nossa direção. • • • Levantei a arma. Apontei. Tenho certeza de que mirei o rosto de Duncan. Ainda hoje tenho. O cano estava voltado para ele. Meu dedo pressionou o gatilho. Disparei. • • • Não sei exatamente o que aconteceu depois. Houve fumaça. Gritos. Pessoas se levantando. Luzes. Por alguns segundos, não compreendi nada. Então percebi meu corpo. Inclinado para fora do camarote. Pesado. Imóvel. Morto. • • • A bala havia atravessado minha têmpora. Minha própria bala. Isso era impossível. Eu tinha apontado para Duncan. Lembro perfeitamente. Vi o rosto dele. Vi a faixa. Vi as mãos vindo em minha direção. Atirei no espectro. Mas o espectro não recebeu o tiro. Eu recebi. Talvez Duncan tenha desviado minha mão. Talvez tenha deslocado minha percepção. Talvez eu fosse mais culpado do que gostaria de admitir e o revólver apenas tenha obedecido a alguma parte de mim que eu desconhecia. Prefiro uma explicação mais simples. Errei. Um erro. Nada mais. Um pequeno erro de pontaria. Custou apenas minha vida. • • • Três dias depois, Enid morreu. Não perguntarei como. Há perguntas que se tornam pequenas demais quando já atravessamos a morte. O importante é que nos encontramos outra vez. Porque a morte, ao contrário do que os vivos gostam de repetir, não resolveu absolutamente nada. Nem Duncan. Nem o amor. Nem o cinema. • • • Agora talvez você compreenda melhor por que Enid e eu continuamos entrando em salas de projeção. Estamos mortos. Sim. Mas continuamos juntos. E continuamos esperando. Não O Páramo. Esse filme já nos ensinou o que tinha para ensinar. Duncan venceu aquela sessão. Não pretendemos oferecer uma segunda. Nossa esperança está em outro filme. O último. O outro trabalho que ele deixou antes de morrer. Chamava-se: Para além do que se vê. • • • Há sete anos esperamos sua estreia. Sete anos. Para quem está morto, pode ser muito. Pode não significar nada. A produtora continua anunciando. Adia. Troca o nome. Promete. Filmes fazem isso. Às vezes parece que a indústria do cinema também desconhece a passagem do tempo. Mas Duncan é o protagonista. E isso basta. Porque agora entendemos uma coisa que não compreendíamos antes. A tela não separa necessariamente um mundo do outro. Às vezes abre passagem. Duncan encontrou essa passagem porque nós estávamos vivos do lado de cá. Nosso medo. Nossa culpa. Nossa presença. Alguma coisa permitiu que ele se desprendesse da imagem. E, se ele conseguiu vir até nós… talvez nós consigamos fazer o caminho contrário. • • • É nisso que Enid e eu apostamos. Uma fresta. Um movimento errado. Um instante em que Duncan se esqueça de permanecer morto. Se seus ciúmes sobreviveram ao túmulo, melhor ainda. Que olhe para nós. Que nos reconheça. Que venha. Desta vez estaremos esperando. Não dentro de corpos frágeis. Não com um revólver. Não com o medo de quem ainda tem alguma coisa a perder. Estamos mortos. Isso oferece certas vantagens. • • • Entre a vida e a morte existe uma cortina. Duncan já conseguiu afastá-la uma vez. Sempre imaginei que fosse espessa. Não é. É fina. Às vezes basta luz. Uma imagem. Um gesto. Uma obsessão forte o bastante. Duncan abriu uma fissura uma vez. Talvez abra outra. E, quando isso acontecer, Enid e eu não seguiremos em direção ao túmulo dele. Faremos o contrário. Entraremos. Voltaremos. À vida. Ao calor. Ao peso de um corpo. Ao toque. À fome. Ao sono. Ao amor que pode novamente ser sentido com pele, sangue e respiração. É estranho. Passei boa parte da vida desejando o que não podia tocar. Agora passo a morte inteira desejando exatamente a mesma coisa. • • • Talvez Para além do que se vê estreie amanhã. Talvez no próximo mês. Talvez daqui a um ano. Existe ainda outro problema. Podem trocar o título. Hollywood gosta disso. E, se mudarem o nome, podemos perdê-lo. Por isso não arriscamos. Assistimos a todos. Todas as estreias. Todos os filmes. Todas as noites. • • • E assim voltamos ao começo. Às dez em ponto, Enid e eu entramos no Grand Splendid. Chova. Faça frio. Esteja lotado. Não importa. Escolhemos um camarote. Se estiver vazio, sentamos. Se estiver ocupado, também. Ninguém reclama. Às vezes uma mulher sente um arrepio. Às vezes um homem olha para trás. Às vezes alguém tem a impressão de que existe outra pessoa na escuridão. Existe. Somos nós. Enid e eu. Mudos. Atentos. Olhando para a tela. Esperando Duncan. Esperando uma fresta. Esperando que, desta vez, o morto cometa o erro. Às dez em ponto. Todas as noites. Até que alguma coisa volte a nos ver. • • • FIM
