# Vinte e cinco anos depois do terror

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/11/vinte-e-cinco-anos-depois-do-terror/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-11T12:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-30T17:42:12-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Crônicas Zargolinianas, Pedagogia e outras ciências, Publicações

---

Por Paulo Ricardo Zargolin Em 11 de setembro de 2001, eu estava na sexta série. Antes de ir para a escola, vi pela televisão imagens que evidentemente não compreendia por inteiro. Aviões, prédios, fumaça, gente correndo e jornalistas tentando organizar em palavras alguma coisa que parecia grande demais para caber numa manhã comum. Depois, como acontece mesmo nos dias em que o mundo parece mudar de eixo, peguei minhas coisas e fui para a escola. Talvez essa seja uma das primeiras estranhezas de qualquer acontecimento histórico: enquanto algo gigantesco acontece em algum lugar, milhões de pessoas continuam precisando cumprir horários, atravessar ruas, abrir lojas, entrar em salas de aula e descobrir, aos poucos, que aquilo que viram pela televisão também lhes diz respeito. Na escola, naturalmente, falou-se sobre o assunto. Os professores incentivaram pesquisas, embora eu já não me lembre exatamente do que precisava ser entregue nem de quais orientações recebemos. O que permaneceu na memória foi outra coisa: em algum momento, a pesquisa escapou da tarefa. Uma colega comentou que sua mãe trabalhava na Biblioteca Municipal de Jales e que, por isso, poderíamos nos encontrar lá para procurar outras fontes. Havia livros, jornais, revistas e materiais aos quais talvez não tivéssemos acesso em casa. Fomos. E continuamos procurando coisas que, pelo que me recordo, ninguém sequer havia solicitado. Vinte e cinco anos depois, é justamente essa parte que me parece mais estranha. Não a biblioteca, evidentemente. A curiosidade. Havia alguma coisa acontecendo no mundo e queríamos entender. Isso não significa que fôssemos uma geração extraordinária de pequenos intelectuais. Éramos alunos da sexta série e, muito provavelmente, pesquisamos mal, copiamos trechos demais, entendemos conceitos pela metade e produzimos conclusões que hoje fariam qualquer professor gastar alguns minutos a mais na correção. Mas havia inquietação. Queríamos saber o que tinha acontecido, quem estava por trás daquilo, por que os Estados Unidos haviam sido atacados, o que era o Afeganistão que começava a aparecer nos jornais, se haveria guerra e que mundo era aquele que, de uma hora para outra, parecia muito maior e mais perigoso do que o que conhecíamos até então. Uma pergunta puxava a outra, e isso talvez seja o que mais me chama atenção quando olho para aquela cena a partir de 2026. Hoje temos acesso a uma quantidade de informação que aquela biblioteca inteira provavelmente não poderia nos oferecer naquele momento. Carregamos jornais, arquivos, mapas, vídeos, documentos, enciclopédias e bibliotecas dentro do bolso. Ainda assim, desenvolvemos uma competência impressionante para atravessar tudo isso sem pesquisar quase nada. Vivemos cercados por respostas e, ao mesmo tempo, cada vez mais confortáveis com generalidades. Alguma coisa acontece e, em poucos minutos, já sabemos quem deve ser tratado como mocinho, quem deve ocupar o lugar do vilão, qual indignação devemos demonstrar e qual frase nos permite encerrar o assunto sem o inconveniente de realmente compreendê-lo. É o mesmo terreno em que a [fragmentação da verdade abre um abismo epistêmico](https://logosgrafia.com/2026/06/10/tres-sois-e-um-abismo-epistemico/): não necessariamente porque nos faltem informações, mas porque já chegamos a elas carregando certezas suficientes para dispensar perguntas. Contexto dá trabalho, contradição atrapalha e história demora. A generalidade, ao contrário, é rápida. Às vezes basta uma legenda, um vídeo curto ou uma frase suficientemente ampla para servir como opinião sobre política, guerra, educação, economia, tecnologia ou qualquer outro assunto que, até cinco minutos antes, desconhecíamos quase por completo. Não é necessário investigar muito quando já se chega à questão com a conclusão pronta. Talvez o problema contemporâneo nem seja a falta de informação, mas justamente sua abundância associada à ausência de curiosidade. Quando encontrar alguma coisa exigia sair de casa, ir até uma biblioteca, procurar uma estante, consultar um jornal ou perguntar a alguém, pesquisar era uma ação deliberada. Hoje a informação nos alcança antes mesmo que tenhamos formulado uma pergunta, e existe o risco de confundirmos essa proximidade permanente com conhecimento. Não são a mesma coisa. Saber que algo aconteceu é muito diferente de querer compreendê-lo. Ter uma opinião também não resolve a diferença. Por isso não me interessa reconstruir aqui a cronologia do 11 de Setembro. Há livros, documentários, arquivos e trabalhos muito melhores para isso. O que me interessa, vinte e cinco anos depois, é uma cena bem menor: alguns adolescentes numa biblioteca municipal do interior de São Paulo procurando informações sobre um acontecimento ocorrido a milhares de quilômetros porque aquilo havia nos perturbado o suficiente para que quiséssemos saber mais. Nem tudo o que encontramos deve ter sido bom. Nem tudo devia ser confiável e certamente não entendemos tudo. O ponto não é transformar aquela pesquisa numa epopeia escolar, mas lembrar que havia nela um gesto hoje cada vez mais raro: procurar significava admitir que ainda não sabíamos. Esse gesto exige algum desconforto diante da própria ignorância. Exige [desconfiar da primeira explicação e investigar o que existe por baixo da narrativa](https://logosgrafia.com/2026/08/12/a-pegada-do-diabo-e-o-desgaste-da-verdade/), aceitar que talvez haja mais de uma camada numa mesma questão e suportar por algum tempo a ausência de uma conclusão confortável. Generalidades são muito mais econômicas. Com elas, é possível falar de política sem história, de guerra sem geografia, de educação sem pedagogia, de economia sem números, de [inteligência artificial](https://logosgrafia.com/laboratorio-2/) sem tecnologia e de praticamente qualquer tragédia humana sem conhecer sequer os nomes envolvidos. O mundo inteiro pode ser comprimido até caber numa opinião pronta. Não sei se em 2001 éramos mais curiosos. Seria uma conclusão conveniente demais e provavelmente falsa. Também não tenho interesse em produzir uma elegia da biblioteca contra a internet, como se a dificuldade de acesso à informação fosse alguma virtude perdida. Não era. O que me interessa é outra coisa: naquela tarde houve uma biblioteca, uma colega dizendo que poderíamos encontrar mais informações, professores que haviam tratado um acontecimento do mundo como matéria de investigação e alguns alunos que continuaram procurando mesmo quando ninguém mais precisava mandar. Talvez seja por isso que, vinte e cinco anos depois, o terror de que me lembro não seja exatamente o mesmo sobre o qual quero escrever. O de 2001 apareceu na televisão de forma brutal, explícita e impossível de ignorar. O de hoje é muito mais discreto, porque se instalou confortavelmente na sensação de que já sabemos o bastante. Recebemos o mundo mastigado, substituímos perguntas por posicionamentos, confundimos acesso à informação com conhecimento e acumulamos milhares de manchetes enquanto conhecemos cada vez menos assuntos de verdade. É uma forma de empobrecimento intelectual parecida com aquela em que deixamos de estudar ideias para apenas [pertencer a certezas prontas](https://logosgrafia.com/2026/06/17/o-curioso-caso-da-academia-que-quer-ser-altar/). Em setembro de 2001, diante de algo que não entendíamos, fomos procurar. Vinte e cinco anos depois, talvez a pergunta mais incômoda não seja o que aprendemos desde então, mas em que momento começamos a achar que não precisávamos mais saber. Continue caminhando — ## Outras estantes do Logosgrafia Uma pergunta pode levar a uma lembrança, uma investigação ou uma história. Escolha por qual corredor deseja continuar. — [ Quando o presente desperta lembranças ### Nostalgrafia Programas, músicas, filmes, livros e personagens revisitados pelas marcas afetivas que deixaram em uma geração. Voltar por este caminho → ](https://logosgrafia.com/estantes/nostalgrafia/) [ Quando uma pergunta pede investigação ### Estudos de Caso Acontecimentos, vídeos e conflitos observados em suas dimensões éticas, sociais, culturais e políticas. Examinar os casos → ](https://logosgrafia.com/estantes/estudos-de-caso-para-mentes-inquietas/) [ Quando o cotidiano vira literatura ### Crônicas Zargolinianas Memórias, estranhamentos, ironias e pequenos acontecimentos transformados em histórias. Entrar nas crônicas → ](https://logosgrafia.com/estantes/cronicas-zargolinianas-2/)
