# A Matadora de Tigrinhos #02

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/18/a-matadora-de-tigrinhos-02/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-18T20:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-31T14:46:55-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: A Matadora de Tigrinhos, Logosgrafia em séries, Publicações

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A Matadora de Tigrinhos ## Aposte nesta história Quatorze números. Quatorze capítulos. Escolha onde entrar — ou onde arriscar mais uma vez. [ 01 aberto ](https://logosgrafia.com/?p=12108) [ 02 ](https://logosgrafia.com/?p=12116) [ 03 ](https://logosgrafia.com/?p=12128) [ 04 ](https://logosgrafia.com/?p=12356) [ 05 ](https://logosgrafia.com/?p=12361) [ 06 ](https://logosgrafia.com/?p=12368) [ 07 ](https://logosgrafia.com/?p=12373) [ 08 ](https://logosgrafia.com/?p=12390) [ 09 ](https://logosgrafia.com/?p=12401) [ 10 ](https://logosgrafia.com/?p=12405) [ 11 ](https://logosgrafia.com/?p=12410) [ 12 ](https://logosgrafia.com/?p=12413) [ 13 ](https://logosgrafia.com/?p=12416) [ 14 ](https://logosgrafia.com/?p=12424) 01 Você continua chorando bonito 17/09 17 a 30 de setembro de 2026 Capítulo 2 ## O meme já estava em todos os lugares Quando Nina chegou à Casa Recomeço, havia um buquê encostado no portão. Não era um buquê discreto, desses que agradecem sem constranger. Era uma construção de rosas brancas, lírios, folhas plastificadas e laços dourados, grande o bastante para parecer homenagem póstuma ou pedido de casamento de alguém que havia cometido um erro muito sério. O cartão dizia: ✦ Para Melinda, que continua salvando vidas mesmo quando tentam destruir a sua. Nina leu duas vezes. Ao lado do buquê, um entregador equilibrava três caixas de doces e discutia com o segurança porque precisava fotografar o recebimento. Do outro lado da rua, duas equipes de televisão montavam tripés. Uma repórter segurava o microfone diante do portão fechado e repetia frases para a câmera, procurando o ponto exato entre a seriedade jornalística e a excitação de quem havia recebido uma pauta capaz de preencher o programa inteiro. — A fundadora da Casa Recomeço ainda não se pronunciou nesta manhã… Nina passou por ela sem diminuir o passo. — Nina! Nina, por favor! A Melinda vai falar com a imprensa? — Não. — Ela confirma que conheceu Luciana? Nina parou. A repórter percebeu que tinha conseguido alguma coisa e se aproximou. — A acusadora afirma que Melinda esteve envolvida numa rede clandestina de apostas há treze anos. Vocês pretendem apresentar documentos? — Você assistiu à live? — Assisti. — Então ouviu quando ela pediu que não transformassem a história dessa mulher em espetáculo. A repórter piscou. — Mas as acusações são graves. — E justamente por isso não deveriam ser tratadas como entretenimento na porta de uma casa onde há pessoas em tratamento. Nina entrou antes que a resposta pudesse ser transformada em nova pergunta. Dentro da recepção, encontrou outros sete arranjos florais, duas cestas de café da manhã, uma caixa com cartas escritas à mão e um saco de ração para cachorro, embora a Casa Recomeço não tivesse cachorro. — Quem mandou isso? — perguntou. — Uma senhora de Sorocaba — respondeu a recepcionista. — Disse que toda casa que salva gente devia ter um cachorro. — E o cachorro? — Ela disse que manda depois. Nina fechou os olhos por um instante. Aquela era a internet: uma mulher podia ser acusada de comandar um esquema criminoso às nove da noite e ganhar um cachorro às oito da manhã. — Onde está Melinda? — No quarto do Rafael. — Desde que horas? — Seis e meia. Nina olhou o relógio. — Ela dormiu? A recepcionista fez uma expressão que não chegava a ser resposta. O vídeo da live já acumulava milhões de visualizações. Trechos passavam em programas matinais, perfis de celebridades, canais jurídicos, páginas religiosas, páginas de fofoca e contas especializadas em frases motivacionais. A imagem de Melinda com os olhos marejados aparecia acompanhada de músicas tristes, filtros suaves e legendas que jamais haviam sido ditas por ela. “ Ninguém joga pedras em árvore que não dá frutos. “ Toda mulher forte já foi chamada de mentirosa por alguém que não suportou vê-la vencer. “ Quando você salva vidas, incomoda quem lucra com a morte. A última frase tinha sido compartilhada quase cem mil vezes. Nina subiu as escadas. Encontrou Melinda sentada ao lado da cama de Rafael, que dormia de costas para a porta. A mãe do rapaz permanecia numa poltrona, segurando uma bolsa contra o peito. Tinha o rosto cansado e o olhar de quem havia passado a noite pedindo desculpas por desconfiar. Melinda falava baixo: — O cartão fica com você pelos próximos dias. Não é castigo. É proteção. Ele vai tentar convencer vocês de que já está bem, e talvez até acredite nisso. A doença aprende a falar com a voz da pessoa. A mãe assentiu. — Eu fiquei com vergonha de perguntar aquilo ontem. — Você não precisa pedir desculpas. — Depois de tudo o que você fez por ele… — A senhora estava com medo. — Mas eu duvidei. Melinda segurou sua mão. — Quem ama alguém em tratamento aprende a desconfiar de tudo. Até da própria esperança. A mulher começou a chorar. Nina permaneceu na porta sem interromper. Era impossível assistir àquela cena e imaginar que a Casa Recomeço fosse apenas uma fachada. Melinda conhecia as famílias, lembrava os nomes dos medicamentos, sabia quem havia escondido dívida da esposa e quem fingia não ter acesso a aplicativos de aposta. Não aparecia somente para fotografias. Estava ali nas recaídas, nas mentiras, nas crises de abstinência que ninguém acreditava que pudessem existir sem substância alguma entrando no corpo. Quando Melinda saiu do quarto, Nina a abraçou sem avisar. — Bom dia para você também — disse Melinda. — Você precisava dormir. — Rafael tentou fugir de madrugada. — E a equipe não podia cuidar? — Podia. — Então? Melinda caminhou pelo corredor. — Eu estava acordada. — Claro que estava. — Quantas pessoas estão na porta? — Duas emissoras. Talvez três agora. Uma rádio quer entrar por telefone. Dois podcasts ofereceram episódio especial. Um deles escreveu “sem cortes e sem censura”, o que provavelmente significa com doze anúncios de suplemento alimentar. Melinda quase sorriu. — Não vou falar. — Ótimo. — Ainda. Nina parou. — O que significa ainda? — Significa que eu preciso pensar. — Os advogados disseram para esperar. — Os advogados também disseram que a live seria um erro. — Tecnicamente, ainda pode ser. — Quantas novas mensagens? Nina abriu o tablet. — Quatro mil e alguma coisa. Cento e vinte pedidos de informação sobre tratamento. Trinta e sete famílias perguntando sobre vagas. Dezessete empresas querendo doar. Uma fabricante de colchões quer mobiliar uma ala inteira. Melinda franziu a testa. — Nós não temos uma ala inteira. — Eles querem que a gente construa. — E os pacientes antigos? — Mandaram vídeos. A mãe do Davi gravou um depoimento. Melinda desviou o olhar. — Eu não queria que isso virasse campanha. — Não virou campanha. As duas olharam para os buquês espalhados pela recepção. — Ainda — completou Nina. Luciana havia dormido com a roupa do dia anterior. Acordou no sofá, com o pescoço dolorido e o celular descarregado sobre o peito. O vídeo que publicara durante a madrugada tinha recebido mais comentários do que qualquer coisa que produzira nos últimos três anos. A maioria era um convite para que desaparecesse. Vai trabalhar. Você quer dinheiro. Deixa a mulher em paz. Presa querendo dar lição de moral. Mostra as provas ou cala a boca. Luciana leu todos. Havia pessoas que evitavam comentários negativos por saúde mental. Ela os consumia com a dedicação de quem se alimenta do próprio veneno e depois culpa o fabricante da garrafa. Ligou o aparelho na tomada e abriu a câmera. Seu rosto apareceu deformado pela proximidade. Ela afastou o celular, ajeitou os cabelos com os dedos e percebeu que parecia exatamente aquilo que diziam sobre ela: cansada, amarga e mal-intencionada. Não se importou o suficiente para mudar. Apertou o botão de gravação. — Bonito. Interrompeu. Recomeçou. — Bonito. Sete minutos de lágrima, uma camiseta branca e ninguém mais pergunta onde foi parar o dinheiro. Parou novamente. A frase estava boa. Quase limpa. Isso a incomodava. Luciana confiava mais na própria raiva quando ela vinha com cascalho. Gravou outra vez. — Vocês são muito fáceis. É só uma mulher bonita chorar com uma parede de fotografia atrás que todo mundo esquece de perguntar por que ela estava numa festa com gente presa por lavagem de dinheiro. Aproximou o rosto da câmera. — Eu não estou pedindo que gostem de mim. Não sou influencer, não tenho equipe para escolher o lado do meu rosto que parece mais inocente. Eu fui presa. Fui condenada. Meu nome saiu em jornal enquanto ela desaparecia dos documentos como se nunca tivesse existido. Respirou. — E agora a santa resolveu salvar as pessoas que gente como ela ajudou a destruir. O telefone escorregou um pouco. A imagem tremeu. Luciana continuou. — Ela sabe como a internet funciona. Sabia que, quando pedisse para não me atacarem, vocês fariam exatamente isso. Sabia que cada lágrima viraria um soldado. E sabia porque ela sempre foi boa em transformar os outros em armas. A voz começava a falhar, não de emoção, mas de cansaço. — Vocês querem prova? Eu tenho. Só não vou entregar tudo de uma vez para ela mandar apagar. Era a pior frase possível. Luciana percebeu assim que terminou. Parecia chantagem. Parecia que esperava alguma proposta. Parecia que segurava documentos como quem segura o preço de um resgate. Mesmo assim, publicou. Não havia mais espaço em sua vida para o luxo de pensar antes. Às dez e quinze, o convite veio de um programa nacional. A apresentadora queria entrevistar Melinda ao vivo no início da tarde. O produtor prometia tratamento respeitoso, tempo para falar da ludopatia e nenhuma exibição da fotografia de Luciana, caso essa fosse uma condição. Melinda ouviu a proposta com o telefone sobre a mesa. — Eles aceitaram tudo? — perguntou. — Aceitaram — respondeu Olívia, sua assessora, pela chamada de vídeo. — Mas querem uma resposta sobre o passado. — Eu já respondi. — Você falou de sentimentos. Televisão gosta de sentimentos, mas precisa fingir que gosta de fatos. Nina encostou-se à parede. Olívia continuou: — Você pode negar qualquer participação em esquema de apostas? Melinda sustentou o olhar da assessora na tela. — Posso dizer que nunca fui investigada, denunciada ou condenada. — Não foi isso que perguntei. — É o que eu vou responder. Por um instante, ninguém falou. Olívia inclinou a cabeça. — Melinda, existe alguma coisa que eu precise saber? — Existe uma mulher usando o passado para destruir uma instituição que atende dezenas de famílias. — Isso eu já sei. — Então sabe o suficiente. A assessora respirou fundo. — Está bem. Você entra às duas. Roupa clara, mas não branca. — Por quê? — Porque a camiseta da live já virou símbolo de pureza. Se repetir, vão dizer que foi planejado. Melinda olhou para Nina. — Foi planejado? — O quê? — A camiseta branca. — Era a roupa que você estava usando. — Então não foi. Olívia sorriu sem humor. — A verdade é maravilhosa. Pena que às vezes precisa de direção de arte. O programa abriu com imagens da Casa Recomeço. Pacientes caminhando pelo jardim. Familiares numa roda de conversa. Um quadro com dias sem apostar. Uma mulher colocando o telefone dentro de uma caixa e entregando a chave a uma terapeuta. A apresentadora adotou o tom de quem estava prestes a fazer uma pergunta difícil, mas já havia escolhido a resposta desejada. — Melinda, antes de falarmos das acusações, eu quero perguntar como você está. Melinda respirou. Vestia uma blusa bege, brincos pequenos e maquiagem suficiente para televisão, mas insuficiente para esconder completamente a noite sem sono. — Estou tentando continuar. — Você se arrepende da live? — Não. Eu me arrependo de ter sido obrigada a fazê-la. A frase encontrou imediatamente o silêncio certo. — Luciana afirma que vocês participaram juntas de uma rede clandestina de apostas. — Luciana e eu convivemos com algumas das mesmas pessoas há treze anos. Eu era muito jovem. Frequentei lugares que hoje não frequentaria e confiei em quem não deveria. Mas nunca fui investigada, denunciada ou condenada por qualquer esquema de apostas. — Ela diz que foi usada como laranja. Melinda baixou os olhos. — Eu não conheço todos os detalhes do processo dela. E não acho justo discutir publicamente uma história pela qual ela já pagou. — Você a perdoa? A pergunta veio acompanhada de um close. Melinda demorou. — Perdoar seria me colocar acima dela. A apresentadora inclinou-se um pouco para a frente. — E onde você se coloca? — Longe o bastante para não desejar que ela volte a sofrer. Perto o bastante para entender que alguma coisa ainda dói. Houve uma pausa. — Eu só espero que um dia ela pare de precisar me destruir para continuar existindo. A frase atravessou o estúdio como uma flecha educada. Não levantava a voz. Não insultava. Não acusava diretamente. Apenas reduzia Luciana a uma mulher cuja existência dependia da ruína alheia. Nas redes, milhares de pessoas começaram a repetir: Ela não precisa destruir ninguém para existir. Depois veio o depoimento de Davi. Apareceu num vídeo gravado no jardim da Casa Recomeço. Jovem, bonito e articulado, falava com a segurança de quem já havia contado a mesma história em muitas palestras. — Eu comecei apostando dez reais. Quando percebi, estava devendo quase duzentos mil. Vendi o carro, menti para minha mãe, roubei dinheiro do meu avô. Quando cheguei à casa, ninguém mais acreditava em mim. Fez uma pausa. — Melinda acreditou. A câmera voltou para o estúdio. Melinda chorava em silêncio. — Você salvou esse rapaz? — perguntou a apresentadora. — Não. Ele fez o trabalho mais difícil. Nós só não deixamos que fizesse sozinho. Era uma resposta quase irritantemente perfeita. E, naquela tarde, o país se apaixonou por ela. O meme nasceu vinte e três minutos depois do encerramento da entrevista. Um perfil de humor publicou uma montagem feita por inteligência artificial. Melinda aparecia com armadura dourada, cabelos esvoaçantes e uma pequena espada luminosa. Ao redor dela, mascotes de tigre fugiam carregando moedas. Acima da imagem, em letras arredondadas: A MATADORA DE TIGRINHOS Nina encontrou a postagem quando já havia mais de cinquenta mil curtidas. — Meu Deus. Melinda, sentada no banco traseiro do carro, olhou para a tela. — Isso é horrível. — É maravilhoso. — Eu pareço personagem de jogo infantil. — Essa é a piada. — Tem gente perdendo casa por causa desses jogos. Nina continuou passando as imagens. Já havia versões em que Melinda aparecia esmagando máquinas caça-níqueis, montada num tigre ou expulsando mascotes de uma favela digital. — Estão usando humor para falar de ludopatia. — Estão usando meu rosto. — Seu rosto já está sendo usado para coisa muito pior. Melinda observou outra montagem. — Não quero parecer que estou brincando com uma doença. — Então não brinca. — Como? — Compartilha com informação sobre tratamento. Telefone da casa, sinais de dependência, canais de ajuda. Usa a atenção. Melinda devolveu o aparelho. — Você gostou mesmo disso, não gostou? — Eu já estou pensando na camiseta. — Nina. — Para arrecadar dinheiro. — Claro. — Cem por cento para o atendimento. Melinda ficou olhando pela janela. — Sem camiseta. — Caneca? — Nina. — Está bem. Dois minutos depois, autorizou a publicação. A postagem da Casa Recomeço trazia a imagem do meme e o texto: Casa Recomeço O humor pode abrir conversas importantes, mas a ludopatia não é brincadeira. Se você ou alguém da sua família perdeu o controle sobre as apostas, procure ajuda. Abaixo, telefone, endereço e informações de acolhimento. A imagem explodiu. Celebridades compartilharam. Jornalistas repetiram a expressão. Um deputado prometeu apresentar um projeto de lei inspirado na “coragem da Matadora de Tigrinhos”. Uma empresa de camisetas perguntou oficialmente sobre licenciamento. Melinda não inventara o apelido. Apenas o recebera com modéstia suficiente para transformá-lo em coroa. Luciana assistiu à entrevista numa lanchonete. O televisor estava alto demais e o café custava mais do que ela gostaria. À sua frente, um rapaz chamado Kadu Vilar mexia no telefone enquanto esperava o pagamento. Kadu tinha quatrocentos e oitenta mil seguidores, cabelo cuidadosamente despenteado e uma biografia que o definia como “comunicador independente”. Produzia vídeos sobre política, celebridades, crimes antigos, golpes financeiros e qualquer assunto que pudesse ser dividido em três partes com a promessa de que “o final era inacreditável”. — Você viu o meme? — perguntou ele. Luciana não respondeu. Na televisão, Melinda sorria para Davi. — Essa mulher é boa — disse Kadu. Luciana pousou a xícara com força. — Eu não te paguei para elogiar. — Eu não estou elogiando. Estou falando que ela é boa. Tem diferença. — Você disse que ia contar minha versão. — Vou contar. — Hoje. — Assim que cair o restante. Luciana abriu o aplicativo bancário. — Eu já paguei metade. — E eu já fiz metade do trabalho. Vim até aqui. — Seu trabalho é ligar a câmera. Kadu finalmente levantou os olhos. — Meu trabalho é fazer as pessoas olharem para você sem fechar o vídeo nos primeiros dez segundos. Ela transferiu o dinheiro. Ele conferiu. — Agora sim. Kadu posicionou um pequeno tripé sobre a mesa, afastou os copos vazios e observou o fundo. — Essa parede é feia. — É uma lanchonete. — Eu sei que é uma lanchonete. O problema é que parece uma lanchonete. — E o que você queria? Um tribunal? — Queria uma parede neutra. Vamos para aquele lado. Luciana mudou de lugar. — Sorri um pouco. — Eu não tenho motivo para sorrir. — Então não sorri. Mas também não olha como se fosse morder alguém. — Eu fui presa por causa dela. — Eu sei. Essa é a pauta. Kadu ligou a câmera e mudou completamente de expressão. Kadu GRAVANDO — Gente, eu estou aqui com uma mulher que está sendo massacrada nas redes sem que ninguém tenha parado para ouvir sua história. Luciana olhou para ele. A voz era acolhedora, indignada, quase fraterna. — Luciana, antes de qualquer coisa, eu quero dizer que este é um espaço seguro para você falar. Ela franziu a testa. — Seguro? Kadu fez um gesto discreto para que continuasse. — É. — Você me cobrou para estar aqui. Ele manteve o sorriso. — A gente corta essa parte. Desligou a câmera. — Luciana, pelo amor de Deus. — Eu menti? — Não é sobre mentir. É sobre entender enquadramento. — O enquadramento é que você me cobrou. — O enquadramento é que eu estou dando espaço para uma mulher silenciada. O pagamento é pelo meu trabalho. — Então fala que é publicidade. — Ninguém assiste publicidade de denúncia. Ela cruzou os braços. Kadu aproximou-se um pouco. — Escuta. Você quer convencer as pessoas ou quer estar certa sozinha? — Eu quero que saibam o que ela fez. — Então precisa ser mais simpática. Luciana soltou uma risada seca. — Eu fui para a cadeia. Perdi meu emprego. Minha família não fala comigo. Ela ficou rica salvando gente de um vício que ajudou a alimentar. E eu preciso ser simpática? — Precisa. — Ela chorou e virou santa. — Exatamente. — Eu não sei chorar daquele jeito. — Então tenta não parecer feliz quando fala que ela vai cair. Luciana o encarou. — Eu vou parecer o quê? — Injustiçada. Ferida. Humana. — Eu sou humana. — Na câmera, ainda não. Kadu voltou para o lugar e religou a gravação. A doçura retornou à voz como se nunca tivesse saído. Kadu GRAVANDO — Luciana, você sente que sua história foi apagada para que outra mulher pudesse construir a própria reputação? Ela olhou para a lente. Tentou suavizar o rosto. Pareceu apenas mais cansada. — Minha história não foi apagada. Foi escrita do jeito que convinha a ela. — E o que você gostaria de dizer às pessoas que acreditam em Melinda? Luciana respirou. — Que continuem acreditando. Kadu hesitou. — Continuem? — Quanto mais alto colocarem essa mulher, maior vai ser o barulho quando ela cair. O influenciador permaneceu em silêncio por um segundo. Depois encerrou o vídeo. — Ficou ruim? — perguntou Luciana. — Ficou ótimo para engajamento. — E para convencer? Kadu guardou o telefone. — Eu faria outro. — Você disse que esse estava bom. — Para mim, está excelente. Para você, talvez não. Luciana observou a tela da televisão. O meme de Melinda aparecia novamente. Uma heroína dourada, sorrindo entre tigres derrotados. Pegou o próprio celular. Escreveu: Luciana Ela não mata os tigrinhos. Ela alimenta a mãe deles. Publicou. Kadu leu por cima de seu ombro. — Essa frase é boa. — Eu sei. — Devia ter usado no vídeo. — Você pode usar. — Em outro vídeo? — Quanto? Ele sorriu. Agora sem câmera alguma. Melinda entrou no banheiro da Casa Recomeço e trancou a porta. O meme já estava em todos os lugares. Nina respondia a jornalistas. Olívia negociava entrevistas. Uma gráfica se oferecera para produzir gratuitamente cartazes com a nova identidade da campanha. Melinda abriu a conversa arquivada. Não havia nome. Não havia fotografia. A última mensagem ainda era a mesma: Conversa arquivada · sem nome · sem fotografia Eu sei. Ela digitou: A repercussão saiu do controle. A resposta veio quase imediatamente. Não parece que você esteja sofrendo com isso. Melinda olhou para o próprio reflexo. Luciana publicou outro vídeo. Eu vi. Ela ainda tem alguma coisa? Melinda demorou antes de responder. Luciana sempre teve coisas. O problema é fazer alguém acreditar nela. Três pontos apareceram na tela. Quer que eu cuide disso? Melinda apagou a primeira resposta. Depois apagou a segunda. Por fim, escreveu: Ainda não. Guardou o celular. Do lado de fora, Nina bateu à porta. — Melinda? O meme passou no jornal. — Já estou indo. — E o perfil da casa ganhou cento e dez mil seguidores. — Ótimo. — Você está bem? Melinda abriu a porta com um sorriso cansado. — Estou tentando continuar. Nina a abraçou pelo braço e as duas seguiram pelo corredor. No celular de Melinda, a conversa arquivada recebeu mais uma mensagem. ••• Conversa arquivada Quando você quiser, ela desaparece. Melinda não abriu. Ainda. Naquela noite, uma figura surgiu em milhões de telas. Não tinha passado, documentos ou idade verificável. Era uma mulher de olhos dourados, pele iluminada e cabelos escuros atravessados por mechas cor de cobre. Seus movimentos eram precisos demais para parecerem humanos e suaves demais para serem inteiramente artificiais. Atrás dela, moedas caíam como chuva. A transmissão acontecia ao mesmo tempo em português, espanhol e inglês. Em cada idioma, os lábios acompanhavam perfeitamente as palavras. Em cada país, o rosto parecia ligeiramente diferente, ajustado para produzir familiaridade sem jamais pertencer a lugar algum. Ela sorriu. No canto da tela, um tigre abriu a boca e revelou dentes brilhantes. AO VIVO — Boa noite, jogadores. Milhares de comentários começaram a subir. A mulher inclinou a cabeça, como se pudesse enxergar cada pessoa do outro lado. — Hoje, a sorte não vai esperar por você. O nome apareceu em letras douradas: TIGRESA. E, enquanto o país celebrava a mulher que matava tigrinhos, a mãe de todos eles começava mais uma transmissão. 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