# Maracangalha #18: Sob os cadernos adormecidos

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/18/maracangalha-18-sob-os-cadernos-adormecidos/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-18T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-31T13:45:07-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia em séries, Maracangalha, Publicações

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Maracangalha Capítulo 18 Por: Paulo Ricardo Zargolin A casa tinha cheiro de produto de limpeza e exaustão recolhida. Cristina retirara os panos do varal antes das cinco, como fazia em toda segunda, e foi dormir cedo, fiel à cadência dos próprios gestos. O rádio, desligado, ainda ocupava um espaço sonoro: seu silêncio rangia. Laura caminhava pelos cômodos com uma inquietação que nem vassoura alcançava. Ensaiava toques nos objetos sem tocá-los de fato. Abriu o baú do quarto. A poeira subiu como lembrança com forma. Sob os cadernos adormecidos, um lenço de linho azul. E, sob ele, uma fotografia esquecida: duas mulheres encostadas à sombra de um portão. Uma era Cristina. A outra, provavelmente Marta. Jovens, quase felizes. A suposta Marta sorria com a leveza de quem ainda não conhecia despedidas. Cristina, não. Seu rosto era de quem segurava mais do que o braço. "O toque não vinha. Mas e o desejo? Seria bom saber do que agora ela sabia?", pensou. O arrepio que veio não era susto — era reconhecimento. Com a foto nas mãos, Laura cruzou o corredor. Parou diante do dormitório de Ísis. A porta entreaberta, o abajur aceso, o fone largado. Jazz sussurrava baixinho. O quarto respirava em outro compasso. — Posso? — Claro — respondeu a prima postiça, com olhos que acolhiam sem pressa. Laura sentou-se devagar à beira da cama. Estendeu a imagem. — Estava no fundo do baú. Ísis pegou o papel com delicadeza. Bastou um segundo para reconhecer a mãe. — Marta. — E Cristina. — Estavam próximas. — Muito. A fotografia permaneceu entre elas. Não como objeto — mas como presença. — Hoje me deu vontade de sair de Maracangalha — disse Laura, sem medir. — Não por fuga. Por exaustão. — E por que ficou? — Porque ainda tenho coisas por dizer. E isso me prende mais que qualquer muro. Ísis apenas olhou. Esperava. — Você tem o direito de saber — continuou Laura. — Mas tem coisa que a gente só conta quando o outro consegue amar o que doeu na gente. O quarto encolheu. O abajur titubeou. — E se eu disser que já amo o que você ainda esconde? Laura respirou. A resposta ardia — mas não era a hora. — Então eu preciso ter certeza de que é amor mesmo. E não só vontade de entender. Ísis pousou a imagem sobre o lençol. — Entender não é pouco. Mas eu não vim pra te estudar, Laura. Trocaram um olhar. E a imagem de Marta e Cristina ficou entre elas como o espelho de um silêncio herdado. Laura levantou-se. Passou os dedos pela lateral do colchão, procurando firmeza no tecido antes de se erguer. — Se eu demorar pra contar, não é covardia. É cuidado. — E se eu demorar pra perguntar, é porque aprendi a esperar. Na porta, Laura hesitou. — Às vezes, a gente só começa a contar quando percebe que o outro não vai sair correndo. Ísis sorriu. Baixo. Terno. — Tô aqui. Laura acenou, enquanto o corredor escuro a recebia de volta como quem recolhe um segredo. E, naquela casa onde quase tudo ainda era suspiro contido, duas mulheres seguiram tentando desatar o nó — sem cortar o fio.
