# A Matadora de Tigrinhos #04

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/20/a-matadora-de-tigrinhos-04/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-20T20:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-31T14:54:24-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: A Matadora de Tigrinhos, Logosgrafia em séries, Publicações

---

A Matadora de Tigrinhos ## Aposte nesta história Quatorze números. Quatorze capítulos. Escolha onde entrar — ou onde arriscar mais uma vez. [ 01 aberto ](https://logosgrafia.com/?p=12108) [ 02 ](https://logosgrafia.com/?p=12116) [ 03 ](https://logosgrafia.com/?p=12128) [ 04 ](https://logosgrafia.com/?p=12356) [ 05 ](https://logosgrafia.com/?p=12361) [ 06 ](https://logosgrafia.com/?p=12368) [ 07 ](https://logosgrafia.com/?p=12373) [ 08 ](https://logosgrafia.com/?p=12390) [ 09 ](https://logosgrafia.com/?p=12401) [ 10 ](https://logosgrafia.com/?p=12405) [ 11 ](https://logosgrafia.com/?p=12410) [ 12 ](https://logosgrafia.com/?p=12413) [ 13 ](https://logosgrafia.com/?p=12416) [ 14 ](https://logosgrafia.com/?p=12424) 01 Você continua chorando bonito 17/09 17 a 30 de setembro de 2026 Capítulo 4 ## Eu criei um ecossistema Melinda demorou seis segundos para guardar o celular. Não eram muitos. Para qualquer pessoa observando de fora, pareceriam apenas o tempo necessário para ler uma mensagem, bloquear a tela e voltar ao que estava fazendo. Para ela, foram suficientes para separar duas vidas. Na primeira, Luciana havia encontrado a Aurora. Na segunda, uma mulher aguardava na sala de acolhimento porque perdera, em menos de quarenta minutos, o dinheiro reservado ao aluguel do mês seguinte. Melinda abriu a porta do escritório. Nina estava sentada diante do computador da recepção, conferindo pedidos de vaga. Levantou os olhos imediatamente. — Você está melhor? — Estou. A resposta veio limpa demais. Nina fechou uma das janelas na tela. — Tem certeza? — Não. Mas isso nunca impediu ninguém de continuar. A jovem pareceu procurar outra pergunta, mas a coordenadora da casa surgiu no corredor. — Melinda, desculpa. É a paciente nova, aquela que resistiu a entregar o cartão. Ela não quer ligar para o marido. — O nome dela? — Renata. — Filhos? — Uma menina. Oito anos. — Onde ela está? — Na sala dois. Melinda entregou o celular a Nina. — Guarda para mim? — Você nunca me entrega seu celular. Por um instante, as duas se olharam. Melinda sorriu. — Então aproveita a honra. Nina recebeu o aparelho. — Está bloqueado. — A honra tem limites. Melinda seguiu pelo corredor. A Casa Recomeço estava mais cheia do que de costume. Depois da live, famílias haviam telefonado de vários estados. Algumas pediam tratamento imediato. Outras queriam apenas ouvir que ainda havia solução. Um homem ligara para confessar que perdera o dinheiro da cirurgia da esposa. Uma mulher perguntara se podia internar o filho contra a vontade dele. Um adolescente enviara uma mensagem dizendo que devia cinquenta mil reais e ainda não tinha idade para abrir conta em nenhuma plataforma. A internet havia transformado Melinda numa heroína nacional. A mesma internet continuava produzindo gente suficiente para manter todos os quartos ocupados. Renata estava sentada perto da janela, com os braços apertados contra o corpo. Tinha deixado a bolsa no chão e segurava o telefone como se fosse um objeto encontrado num crime. Melinda entrou sem fechar completamente a porta. — Posso sentar? Renata deu de ombros. Melinda ocupou a cadeira diante dela. — Disseram que você perdeu o dinheiro do aluguel. Os olhos da mulher se encheram. — Eu ia devolver. — Com outra aposta? Renata não respondeu. — Quanto você colocou primeiro? — Duzentos. — E depois? — Mais quinhentos. — Depois? — Eu não sei. Melinda esperou. — Três mil e oitocentos — confessou Renata. — Mas estava voltando. Eu quase consegui. — Quase quanto? — Quase tudo. — Quase não paga aluguel. A frase poderia ter soado dura. Na voz de Melinda, soou apenas exata. Renata apertou o telefone. — Meu marido vai embora. — Talvez. A mulher ergueu os olhos, assustada. — Você não vai dizer que vai ficar tudo bem? — Não sei se vai. — Então para que serve este lugar? — Para impedir que você continue piorando enquanto tenta convencer todo mundo de que já melhorou. Renata começou a chorar. Melinda não a tocou imediatamente. Permaneceu onde estava, dando à mulher o direito de sofrer sem transformar a dor em espetáculo de acolhimento. — Eu não consigo contar — disse Renata. — Consegue. — Você não conhece meu marido. — Não preciso conhecer. Preciso conhecer o que a mentira fará com você até amanhã. — Ele confia em mim. — Não mais do que você confiava em si mesma antes de perder o dinheiro. Renata passou as mãos pelo rosto. — Eu devia ter parado quando recuperei mil e duzentos. — Devia. — Eu sabia. — Sabia. A mulher pareceu se irritar. — Você sempre responde assim? — Assim como? — Como se fosse simples. Melinda inclinou-se ligeiramente para a frente. — Não é simples. É direto. Você perdeu dinheiro, escondeu e tentou recuperar apostando mais. Agora está procurando uma frase que transforme isso numa situação menos grave antes de contar ao seu marido. Renata baixou os olhos. — Existe essa frase? — Não. O choro se tornou mais intenso. Melinda finalmente se aproximou e segurou sua mão. — Mas existe um jeito de impedir que amanhã seja pior. — Qual? — Dizer a verdade hoje. — Ele vai me odiar. — Talvez. — Você não ajuda muito. — Ajudo o suficiente para não mentir para você. Renata respirou com dificuldade. — Eu tenho uma filha. — Então não transforme o medo de perder o marido num motivo para perder o resto. A mulher olhou para o telefone. Melinda continuou: — Nós podemos ligar juntas. Você conta o que aconteceu. Depois, entregamos o acesso às contas, bloqueamos as plataformas e organizamos a dívida. A verdade não diminui o valor perdido. Só impede que a mentira continue cobrando juros. Renata apertou a mão dela. — Você fica comigo? — Fico. Enquanto a paciente procurava o número do marido, Melinda viu a própria imagem refletida no vidro da janela. Serena. Cuidadosa. Presente. A poucas salas dali, seu telefone guardava a prova de que uma empresa criada treze anos antes continuava recebendo dinheiro de jogadores. Ela não precisou se esforçar para sentir compaixão por Renata. Essa era uma das coisas mais difíceis de explicar sobre si mesma. O amor pelas pessoas não tornava os negócios menos lucrativos. A conversa durou quase uma hora. O marido de Renata gritou, desligou e telefonou novamente. Houve choro, insultos, promessas e o silêncio apavorado de uma criança que, ao fundo, perguntava por que a mãe não voltaria para casa naquela noite. Melinda permaneceu ao lado da paciente o tempo todo. Quando saiu da sala, Nina a esperava no corredor com o celular nas mãos. — O marido vem amanhã. — Ótimo. — Ele disse que não quer olhar para ela hoje. — Melhor do que fingir que quer. Nina devolveu o aparelho. — Você recebeu mensagens. — De quem? — Não sei. Não abri. — Conseguiu resistir? — Com muito sofrimento. Melinda guardou o telefone sem olhar. — Vou sair por algumas horas. — Entrevista? — Advogados. — Posso ir? — Preciso que você fique. — Tem gente suficiente aqui. Melinda parou junto à parede de fotografias. Davi aparecia em uma delas, abraçado à mãe. Tinha acabado de completar seis meses sem apostar. O sorriso era largo demais, quase infantil. Naquele dia, Melinda acreditara que ele conseguiria. — Hoje estão olhando para esta casa como se procurassem uma rachadura — disse. — Não quero que encontrem você longe daqui. Nina sorriu. — Isso foi quase bonito. — Era para ser uma ordem. — Ficou bonito mesmo assim. Melinda tocou de leve o rosto dela. — Não fale com a imprensa. — Você já disse isso três vezes. — Então deve ser importante. — E se Luciana publicar alguma coisa? O nome produziu uma pausa quase imperceptível. — Não responda. — Nem pelo perfil da casa? — Principalmente por ele. — Você acha que ela tem alguma coisa? Melinda olhou para a fotografia de Davi. — Luciana sempre teve alguma coisa. — O quê? — Raiva. Nina pareceu satisfeita com a resposta. Melinda, não. O edifício onde Bóris trabalhava ficava entre uma farmácia popular e uma loja de móveis planejados. Não havia porteiro uniformizado, câmeras ostensivas nem carros caros estacionados diante da entrada. No térreo funcionava um escritório de contabilidade. No segundo andar, uma clínica odontológica. O elevador fazia um ruído de metal cansado a cada andar. Melinda subiu sozinha. Bóris abriu a porta antes que ela tocasse a campainha. Usava camisa cinza, mangas dobradas e óculos de leitura. O cabelo, mais branco do que treze anos antes, estava penteado para trás. Não pareceu surpreso ao vê-la. — Você demorou. — Eu trabalho. — Você administra uma casa de recuperação. — Exatamente. — Não é a mesma coisa. Melinda entrou. O apartamento era silencioso. Havia livros, duas poltronas, uma mesa de madeira e um computador fechado. Nenhuma parede cheia de monitores. Nenhum mapa luminoso com linhas cruzando países. Nenhuma estética capaz de ajudar a polícia a compreender rapidamente o que aquele homem fazia. Bóris não gostava de ambientes que confirmassem suspeitas. Ele foi até a cozinha e voltou com uma xícara de café e um prato pequeno. — Não estou com fome. — Você nunca está quando começa a cometer erros. — Eu não cometi erro nenhum. — Então coma para celebrar. Melinda sentou-se. No prato havia pão, queijo e uma fruta cortada. Ela pegou um pedaço sem admitir que precisava. Bóris ocupou a cadeira diante dela. — Mostre. Ela abriu a conversa com Luciana e colocou o telefone sobre a mesa. Ele examinou primeiro o contrato antigo. Depois, o comprovante emitido pela plataforma de Tigresa. O mesmo nome. O mesmo CNPJ. A mesma empresa respirando treze anos depois da própria morte anunciada. Contrato antigo AURORA INTERMEDIAÇÕES DIGITAIS LTDA. CNPJ ••.•••.•••/••••-•• = Comprovante atual AURORA INTERMEDIAÇÕES DIGITAIS LTDA. CNPJ ••.•••.•••/••••-•• R$ 20,00 — Ela encontrou a Aurora — disse Melinda. — Eu vi. — Como você viu? — Porque toda transação importante produz um aviso. — Depois que acontece. — Normalmente é quando as transações produzem avisos. Ela se inclinou para a frente. — Você disse que a empresa estava encerrada. — Eu disse que não seria mais usada pela operação antiga. — É uma forma criativa de mentir. — Foi você quem perguntou se ela ainda poderia servir. Melinda permaneceu em silêncio. Bóris pegou a xícara e bebeu um pouco. — Empresas novas chamam atenção. Empresas antigas têm histórico, conta, endereço, alteração contratual e um passado suficientemente entediante para parecer legítimo. — A Aurora apareceu num comprovante de uma plataforma exposta. — A rota principal caiu. A Aurora foi ativada por contingência durante três horas. — Sem autorização? — Com autorização operacional. — De quem? — Minha. — Então você errou. Bóris apoiou a xícara. — Você aprovou a manutenção da Aurora. — Treze anos atrás. — Você não costuma colocar prazo de validade nas próprias ordens. Melinda levantou os olhos. — Quantas operações ainda passam por ela? — Menos do que ontem. — Não foi o que perguntei. — O suficiente para que fechá-la imediatamente pareça uma confissão. Pouco o bastante para que possamos mover tudo sem barulho. — Quanto tempo? — Alguns dias. — Não temos alguns dias. — Temos. O que não temos é a possibilidade de transformar pânico em método. Melinda pegou o telefone. — Luciana pode publicar agora. — Pode. — Pode entregar isso à imprensa. — Pode. — E você está tranquilo? Bóris inclinou a cabeça. — Não confunda tranquilidade com ausência de trabalho. Ele abriu o computador. Não havia mapa algum. Apenas planilhas, registros e relatórios organizados com uma simplicidade quase ofensiva. — A partir do momento em que Luciana criou uma conta, deixou de ser apenas alguém observando a plataforma. Melinda olhou para a tela. — O que sabemos? — O que ela nos entregou. — Seja específico. — Nome completo, CPF, telefone, e-mail, documento de identificação, validação facial, aparelho usado e o endereço declarado. Dados recebidos no cadastro Nome completo •••••••••••• CPF •••.•••.•••-•• Telefone •••••••••••• E-mail •••••••••••• Documento de identificação validado Validação facial concluída Aparelho usado •••••••••••• Endereço declarado •••••••••••• Melinda o encarou. — Ela cadastrou o endereço verdadeiro? — Luciana passou treze anos tentando encontrar você e, quando finalmente chegou perto, entregou a própria casa para entrar no jogo. Bóris mudou a tela. Apareceu a fachada de um edifício modesto. A fotografia não tinha data recente o suficiente para revelar quem entrava ou saía, mas o número estava visível. — Já há pessoas acompanhando o local — disse. — Há quanto tempo? — O nome dela foi sinalizado no sistema assim que publicou o primeiro vídeo. — Você não me consultou. — Você também não me consultou antes de deixar a Aurora viva. Melinda fechou o computador com a mão. — Ninguém encosta nela. Bóris não tentou reabrir. — Ainda bem que a ética e a estratégia chegaram à mesma conclusão. — Não é ética. — Eu sei. — Luciana viva é uma criminosa ressentida. Luciana morta vira documentário, podcast e série em três episódios. Bóris sorriu discretamente. — Quatro. Sempre guardam um episódio para a reviravolta. Melinda não achou graça. — Quero os documentos. — Isso é possível. — Sem machucá-la. — Você quer que entrem numa casa ocupada e retirem uma caixa sem que a dona perceba? — Quero que escolham o momento certo. — Ela já fez cópias. — Como sabe? — Porque Kadu acreditou no documento. Ele não deixaria a única versão no guarda-roupa de Luciana. Melinda o fitou. Bóris não explicou mais. Era uma regra antiga entre eles: Melinda precisava conhecer os resultados, não todos os caminhos. Quanto menos soubesse sobre a obtenção de determinada informação, menos teria de reconstruir em caso de depoimento. — Kadu acreditou nela — disse. — Acreditou no documento. — Para alguém como ele, é o começo de uma religião. Bóris passou para outro relatório. — Ele consultou a empresa, salvou os arquivos e começou a procurar o processo antigo. — CPF? — Já temos. — Ele criou conta na plataforma? — Ainda não. — Vai criar. — Provavelmente. — Quando fizer, não pode receber o mesmo comprovante. — Não receberá. Melinda observou a tela. — Você apagou a transação? Bóris olhou para ela como se a pergunta fosse ofensiva. — Não se apaga um registro bancário porque ele se tornou inconveniente. — Então? — A Aurora já saiu da rota usada por novos cadastros. Qualquer tentativa de reproduzir o depósito apontará para outra empresa. Rota utilizada por novos cadastros Novos cadastros → Outra empresa Aurora Intermediações Digitais Ltda. — retirada da rota — O comprovante dela continuará existindo. — Continuará. — Então ainda é prova. — É uma imagem isolada. — Com CNPJ verificável. — De uma empresa que pode ter recebido valores por um erro temporário, uma rota de pagamento terceirizada ou uma fraude de identificação. Escolha a explicação que combinar melhor com o programa de televisão. Melinda apoiou as costas na cadeira. — Ela tem o comprovante emitido pelo banco. — Tem uma captura, um arquivo e um registro no próprio banco. Nenhum deles desaparece. — Isso não me tranquiliza. — Não precisa. Bóris tornou a abrir o computador. — Não vamos apagar o comprovante. Vamos impedir que ele seja repetido. — E quando disserem que a rota foi alterada depois da denúncia? — Diremos que a plataforma usa múltiplos processadores, como milhares de serviços digitais. — E se ela mostrar o contrato antigo? — Mostrará que a empresa já existia. — No esquema em que foi presa. — Melhor ainda. Melinda estreitou os olhos. — Explique. — A conexão mais visível será entre a Aurora e Luciana. Ela assinou o contrato antigo como testemunha. Foi condenada no mesmo esquema. Agora aparece com um comprovante dizendo que a empresa voltou a receber dinheiro. — Você quer fazê-la parecer dona da própria prova. — Não precisamos fazer. Basta perguntar por que uma mulher condenada por movimentar dinheiro conhece tão bem uma empresa que reaparece numa rede ilegal. Melinda permaneceu calada. Bóris continuou: — Documento nenhum precisa desaparecer quando você consegue apagar a confiança nele. A frase ficou entre os dois. — E Kadu? — perguntou ela. — O primeiro vídeo foi pago. — Sabemos o valor? — Já temos os dados cadastrais da empresa pela qual ele recebeu o pagamento. — Consiga o comprovante detalhado! — ordenou, sem pestanejar. — Vai exigir um favor. — Então cobre o favor que nos devem. Bóris observou seu rosto. — Você quer publicar? — Não diretamente. — Nas redes dele? — Talvez. — Isso seria precipitado. — Seria devastador. — As duas coisas costumam chegar juntas. Melinda levantou-se e caminhou até a janela. Na rua, uma mulher saía da farmácia com uma sacola branca. Um entregador estacionava a motocicleta diante da loja de móveis. Ninguém olhava para cima. — Kadu vendeu um espaço — disse Melinda. — Luciana comprou. — Isso não significa que ele tenha sido pago para mentir. — O público não precisa conhecer a diferença. — Você quer que ele pareça parte da denúncia. — Quero que pareça que nunca houve denúncia. Apenas campanha. Bóris uniu as mãos sobre a mesa. — Entrar nas redes dele não pode parecer um ataque. — Então não faça parecer. — Não é tão simples. — Nunca é. Por isso você existe. Ele não reagiu ao elogio disfarçado de ordem. — Há formas de comprometer a credibilidade sem explicar ao público como a informação chegou até lá — disse. — Mas, uma vez feito, ele saberá que não está enfrentando apenas uma influenciadora com bons advogados. — Melhor. — Não necessariamente. Melinda virou-se. — Por quê? — Porque um homem ambicioso pode ser comprado. Um homem humilhado começa a trabalhar de graça. Ela pensou por alguns segundos. — Então não o humilhe. — O que você chama de expor um pagamento nas próprias redes dele? — Consequência. — Naturalmente. Melinda voltou à mesa. — Primeiro, descubra se ele vai tentar repetir o depósito. Depois, tire a Aurora da mão dele. Só então usamos o pagamento. — E a casa de Luciana? — Esperem. — Até quando? — Até ela sair levando o que acha que precisa proteger. Bóris compreendeu. — Você quer saber onde estão as cópias. — Quero tudo. — Originais, arquivos e pessoas. — Exatamente. — E se Kadu já tiver enviado para terceiros? — Dê a ele outra preocupação. — Qual? Melinda olhou para o telefone. — Ainda não sei. Bóris inclinou-se para trás. — Você veio até aqui sem um plano. — Vim descobrir qual problema precisava resolver. — E descobriu? — São dois. — Luciana e Kadu? — A Aurora e a confiança. Ele assentiu como quem finalmente recebia uma resposta utilizável. Bóris voltou à cozinha. Preparou outro café sem perguntar se Melinda queria. Quando retornou, trouxe também uma pequena caixa de madeira. Colocou-a sobre a mesa. — O que é isso? — Uma lembrança. Melinda abriu. Dentro havia um cartão antigo da Aurora Intermediações Digitais. O logotipo era uma linha dourada nascendo atrás de duas montanhas azuis. Embaixo, um slogan: AURORA INTERMEDIAÇÕES DIGITAIS Novos caminhos para o seu negócio. Melinda segurou o cartão. — Você guardou isso? — Guardo tudo que pode ser confundido com nostalgia. — Isso não é nostalgia. — Eu sei. Ela devolveu o objeto à caixa. — Você deveria ter encerrado a empresa. — Eu tentei. — Não o suficiente. Bóris tomou um gole. — Você disse que era desperdício abandonar uma estrutura pronta. — Eu não disse para colocá-la numa plataforma aberta. — Disse que empresas antigas inspiravam confiança. — Eu também disse que Luciana não voltaria. — Você erra mais quando fala de pessoas do que quando fala de dinheiro. Melinda fechou a caixa. — Ela não voltou por justiça. — Não. — Quer me destruir. — Sim. — Então por que fala como se eu devesse alguma coisa a ela? Bóris pousou a xícara. — Porque deve. A resposta veio sem acusação. Isso a irritou ainda mais. — Luciana sabia o que fazia. — Sabia. — Recebeu. — Recebeu. — Recrutou gente. — Recrutou. — Assinou documentos sem me consultar. — Também. — Então? — Nada disso responde ao que você fez. Melinda se levantou novamente. — Eu fiz o necessário para que a operação sobrevivesse. — E ela não. — Alguém cairia. Bóris permaneceu sentado. — E você escolheu quem. — Eu escolhi quem já estava nos documentos. — Porque colocou Luciana nos documentos. — Ela aceitou. — Aceitou dinheiro. Não necessariamente a função de anteparo. — Você estava lá. — Estava. — E não a avisou. — Não. — Então não fale comigo como se fosse melhor. Bóris sorriu de leve. — Nunca cometi esse erro. A raiva de Melinda perdeu força por falta de alvo moral. Era por isso que conseguia suportá-lo. Bóris não fingia ter sido menos culpado. Não precisava transformar o passado em trauma, aprendizado ou propósito. Tratava cada crime como uma decisão administrativa tomada por pessoas que sabiam o que estavam fazendo. — Eu não a empurrei — disse Melinda. — Apenas parei de segurá-la. — É por isso que ela voltou. — Ela voltou porque não suporta me ver vivendo. — Também. — Ela quer o que eu construí. — Não. Quer que você deixe de possuí-lo. Melinda desviou o olhar. — É diferente. — Muito. O silêncio se instalou. Na tela do computador, um relatório permanecia aberto. Números de buscas, novos cadastros, depósitos, desistências e retornos. Bóris girou o aparelho na direção dela. — Sua live aumentou as doações da Casa Recomeço em cento e setenta por cento. Melinda não demonstrou surpresa. — Nina me mostrou. — Mostrou isto? Ele apontou para outro gráfico. As buscas por jogos ligados à palavra “tigrinho” haviam crescido nas horas posteriores à entrevista. A expressão usada para celebrar Melinda levara parte do público até as plataformas que ela dizia combater. — Isso não significa novos jogadores — disse. — Significa curiosidade. — Curiosidade não é depósito. Bóris abriu outra tela. — Em muitos casos, é. Abaixo, havia números de novos cadastros na rede de Tigresa. Doações Casa Recomeço +170% Buscas por jogos ligados à palavra “tigrinho” ↑ Novos cadastros Rede de Tigresa ↑ Melinda leu. — A campanha não foi minha. — O meme foi. — Também não. — Seu rosto estava nele. — Eu compartilhei com informação sobre tratamento. — E milhares de pessoas procuraram o jogo antes de procurar ajuda. Melinda fechou o relatório. — Eu não fiz a live para isso. — Eu sei. — Não planejei o meme. — Eu sei. — Então pare de falar como se tivesse sido uma ação coordenada. Bóris cruzou os braços. — Sua defesa pública foi excelente para os negócios. — Luciana está tentando destruir a casa. — E aumentou as doações. — Você acha isso engraçado? — Acho eficiente. Melinda se afastou. — Há pessoas sofrendo. — Sempre houve. — Você fala como se fossem números. — Para mim, quase sempre são. — E para mim, não. — Eu sei. Ela o encarou. Bóris sustentou o olhar. — Você sofre sinceramente — disse. — É uma das coisas mais interessantes em você. — Não fale comigo como se eu fosse um estudo clínico. — Alguém precisa. — Você acha que eu não me importo com aquelas famílias? — Acho que se importa. — A Casa Recomeço salva pessoas. — Salva. — Então? Bóris pensou antes de responder. — Então você construiu uma estrutura capaz de lucrar quando elas entram e ganhar prestígio quando conseguem sair. Melinda respirou fundo. — Eu não comecei a casa para proteger as bets. — Não. — Ela nasceu porque eu vi o que acontecia com as pessoas. — Sim. — Porque ninguém sabia tratá-las. — Também. — Eu aprendi. — Aprendeu melhor do que todos. Melinda voltou à mesa e apontou para os relatórios. — Isso existe de um lado. A casa existe do outro. — Para você. — São operações diferentes. — Com o mesmo conhecimento. Ela apertou os dedos contra a madeira. Bóris continuou: — Você criou a doença e depois vendeu a cura. Melinda ergueu o rosto. — Não seja vulgar. — Como prefere? Ela olhou para os números de Tigresa. Depois, para as fotografias da Casa Recomeço ainda abertas no site institucional. Entrada. Queda. Vergonha. Tratamento. Recomeço. Depósito. Recaída. Retorno. A mesma pessoa podia circular por todos esses pontos sem jamais perceber que alguém acompanhava o percurso inteiro. — Eu criei um ecossistema — disse. Bóris permaneceu em silêncio. Não havia ironia na voz dela. Era isso que tornava a frase pior. Ele fechou todos os relatórios e abriu uma única janela. Tigresa apareceu imóvel no centro da tela. Olhos dourados. Cabelos escuros atravessados por mechas cor de cobre. Lábios ligeiramente entreabertos. Sem a transmissão, parecia menos uma mulher do que a lembrança muito bem produzida de uma. sessão preparada 5 idiomas — A sessão desta noite está pronta — disse Bóris. — Em quantos idiomas? — Cinco. — Público estimado? — Alto. O meme ajudou. Melinda ignorou a provocação. Aproximou-se da tela. Tigresa ainda não tinha voz. Ainda não sorria. Aguardava como uma atriz atrás da cortina, embora não houvesse corpo algum por trás da personagem. — Luciana viu a transmissão — disse Bóris. — Eu sei. — Pode associar a Aurora a ela. — Ainda não a mim. — Ainda. Melinda inclinou a cabeça. A personagem digital repetiu o movimento com um pequeno atraso. Não porque estivesse ativa. Apenas porque o sistema testava a correspondência facial. Bóris observou as duas. — Você deveria cancelar hoje. — Não. — Seria prudente. — Seria uma reação. — À descoberta de uma empresa exposta. — Exatamente. — Então prefere desafiar. Melinda permaneceu diante da tela. — Quem recua diante de uma acusação ajuda a transformá-la em prova. — E quem continua pode produzir mais uma. — Por isso você vai alterar as rotas. — Já alterei. — Vai acompanhar Luciana. — Já estamos acompanhando. — E Kadu. — Também. Melinda olhou para ele. — Você começou tudo antes de eu chegar. — Você veio para decidir até onde posso ir. — E até onde pode? Bóris aguardou. — Ninguém toca em Luciana — disse Melinda. — Quero os documentos, as cópias e os contatos. Quero saber quem acreditou nela e por quê. — E Kadu? — Quando tentar repetir o depósito, vai encontrar outra empresa. Depois, descubra exatamente o que Luciana pagou e prepare a informação. — Para publicar nas redes dele? — Para usar quando for necessário. — E se ele perceber o que aconteceu? — Vai perceber. — Então teremos dois inimigos. — Já temos. Bóris tocou alguns comandos. Os olhos de Tigresa se abriram. O rosto ganhou movimento. A respiração artificial elevou discretamente seus ombros. O sorriso apareceu na medida exata entre acolhimento e convite. — Boa noite, Tigresa — disse Bóris. Melinda não respondeu. A personagem virou-se para ela. sessão ativa — A sorte não espera ninguém. Era a voz que milhões de jogadores conheciam. Quente. Íntima. Impossível de localizar. Melinda aproximou-se da tela. — Não — corrigiu. — Hoje ela espera. Bóris ergueu uma sobrancelha. — O quê? — Luciana. Tigresa continuou sorrindo. Melinda pegou a bolsa. — Deixe os homens onde estão. Quero saber quando ela sair de casa e o que levará consigo. — E se ela não sair? — Kadu vai fazê-la sair. — Como tem tanta certeza? Melinda abriu a porta. — Porque ele acabou de encontrar a história mais importante da vida dele. — Isso o torna previsível? — Torna-o vaidoso. Ela entrou no corredor. Antes que a porta se fechasse, Bóris perguntou: — E Nina? Melinda parou. — O que tem ela? — Você não está com medo da polícia. — Claro que estou. — Não desse jeito. Melinda voltou o rosto lentamente. — Nina não tem nada a ver com isso. — Então por que foi a primeira pessoa que você afastou quando viu o comprovante? — Porque ela trabalha para mim. — Muitas pessoas trabalham para você. Melinda apertou a bolsa contra o corpo. — Não fale dela. — Você sobreviveria a uma investigação — disse Bóris. — Não sei se sobreviveria ao modo como Nina olharia para você depois. Por alguns segundos, a máscara pública de Melinda não apareceu. Também não surgiu a mulher cruel que ele conhecia. Houve apenas medo. Pequeno. Quase infantil. Depois desapareceu. — Faça o seu trabalho, Bóris. — Estou fazendo. Ela fechou a porta. No elevador, Melinda abriu o celular. Havia dezessete mensagens de Nina. A primeira dizia: Nina A emissora aceitou remarcar. A segunda: Renata conseguiu falar com a filha. Depois: Você já comeu? E, alguns minutos mais tarde: Achei uma coisa importante. Melinda sentiu o corpo endurecer. Abriu. Era uma fotografia enviada por uma seguidora. Um desenho infantil de Melinda segurando uma espada diante de vários tigres. As letras, escritas com canetinha dourada, diziam: toque ou clique para ampliar OBRIGADA POR SALVAR MEU PAI. A mensagem seguinte era de Nina: A menina tem oito anos. O pai está há quatro meses sem apostar. Melinda permaneceu olhando para o desenho. Por um momento, não havia Aurora, Tigresa, Luciana, Bóris ou homens esperando diante de um endereço. Apenas uma criança convencida de que Melinda salvara seu pai. Ela respondeu: Coloque na parede principal. ♥ Nina enviou um coração. O elevador chegou ao térreo. Melinda guardou o telefone e atravessou a recepção sem olhar para ninguém. Do lado de fora, entrou no carro. No mesmo instante, o aparelho de Bóris recebeu um aviso. Luciana acabara de sair de casa. Carregava uma bolsa grande, o computador e uma pasta azul apertada contra o peito. Bóris observou a imagem por alguns segundos. Depois enviou uma única mensagem para Melinda: ••• Bóris Ela está levando a Aurora para Kadu. Melinda leu. A resposta veio imediatamente: Então chegou a hora de entrar. × [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/21/a-matadora-de-tigrinhos-05/) ### [A Matadora de Tigrinhos #05](https://logosgrafia.com/2026/09/21/a-matadora-de-tigrinhos-05/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 21 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/20/a-matadora-de-tigrinhos-04/) ### [A Matadora de Tigrinhos #04](https://logosgrafia.com/2026/09/20/a-matadora-de-tigrinhos-04/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 20 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/19/a-matadora-de-tigrinhos-03/) ### [A Matadora de Tigrinhos #03](https://logosgrafia.com/2026/09/19/a-matadora-de-tigrinhos-03/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 19 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/18/a-matadora-de-tigrinhos-02/) ### [A Matadora de Tigrinhos #02](https://logosgrafia.com/2026/09/18/a-matadora-de-tigrinhos-02/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 18 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/17/a-matadora-de-tigrinhos-01/) ### [A Matadora de Tigrinhos #01](https://logosgrafia.com/2026/09/17/a-matadora-de-tigrinhos-01/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 17 de setembro de 2026