# A Matadora de Tigrinhos #06

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/09/22/a-matadora-de-tigrinhos-06/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-09-22T20:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-31T15:03:08-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: A Matadora de Tigrinhos, Logosgrafia em séries, Publicações

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A Matadora de Tigrinhos ## Aposte nesta história Quatorze números. Quatorze capítulos. Escolha onde entrar — ou onde arriscar mais uma vez. [ 01 aberto ](https://logosgrafia.com/?p=12108) [ 02 ](https://logosgrafia.com/?p=12116) [ 03 ](https://logosgrafia.com/?p=12128) [ 04 ](https://logosgrafia.com/?p=12356) [ 05 ](https://logosgrafia.com/?p=12361) [ 06 ](https://logosgrafia.com/?p=12368) [ 07 ](https://logosgrafia.com/?p=12373) [ 08 ](https://logosgrafia.com/?p=12390) [ 09 ](https://logosgrafia.com/?p=12401) [ 10 ](https://logosgrafia.com/?p=12405) [ 11 ](https://logosgrafia.com/?p=12410) [ 12 ](https://logosgrafia.com/?p=12413) [ 13 ](https://logosgrafia.com/?p=12416) [ 14 ](https://logosgrafia.com/?p=12424) 01 Você continua chorando bonito 17/09 17 a 30 de setembro de 2026 Capítulo 6 ## A gente é que tem sorte, eu acho Kadu acordou porque Luciana estava batendo uma colher contra uma caneca. Não era um acidente. Abriu os olhos devagar. O teto não era o dele. A parede também não. Durante alguns segundos, permaneceu deitado no sofá estreito tentando descobrir por que tinha dormido vestido, com o pescoço torto e um dos pés para fora da manta. Então lembrou. O comprovante. O perfil. A caixa. A Offgrid. Luciana. Principalmente Luciana. Ela apareceu na porta da cozinha segurando duas canecas. — Você ronca. Kadu fechou os olhos novamente. — Bom dia. — Não foi elogio. — Eu percebi. — Parece que está discutindo com alguém. — Provavelmente estava. — Dormindo? — É o único horário em que ainda consigo ganhar uma discussão. Luciana colocou uma das canecas sobre a mesa. — Fiz café. Kadu ergueu a cabeça. — Você? — Tem alguma coisa errada? — Muitas. Estou tentando escolher por onde começar. Sentou-se. As costas protestaram. O sofá de Luciana possuía uma engenharia curiosa: parecia macio enquanto a pessoa estava acordada e transformava-se em instrumento de interrogatório depois da meia-noite. — Que horas são? — Sete e vinte. — Você dormiu? Luciana olhou para ele. — Um pouco. Mentira. As olheiras pareciam ter sido desenhadas durante a madrugada. Kadu pegou o telefone. 43 notificações 12 mensagens da agência 5 chamadas perdidas seguidores após atualizar −120 — Para de olhar — disse Luciana. — É literalmente meu trabalho. — Era. Kadu levantou os olhos. — Você já usou essa piada ontem. — Continua funcionando. — Diferente do meu perfil. Luciana bebeu o café. Ele abriu as mensagens da agência. agência Reunião Offgrid confirmada para 9h. Participação obrigatória. Não publique nada antes. — Ótimo. — O quê? — Reunião às nove. — Com eles? Ele apontou para o logotipo da Offgrid ainda visível numa fotografia antiga do perfil. Luciana aproximou-se. — Vão cancelar. — Obrigado, Nostradamus. — Estou falando sério. — Eu também. Ela se afastou. Kadu observou a sala. A caixa de documentos continuava desaparecida. Nada havia mudado desde a noite anterior, mas agora todos os objetos pareciam ter adquirido uma segunda função. A fechadura não era apenas fechadura. A janela não era apenas janela. O corredor não era apenas corredor. Qualquer ruído podia ser alguém voltando. — Você não vai ficar aqui hoje — disse. Luciana não respondeu. — Luciana. — Eu ouvi. — Então? — Então nada. — Entraram na sua casa. — E foram embora. — Isso não costuma ser garantia de exclusividade. Ela pousou a caneca. — Você tem uma reunião. — Tenho. — Vai perder seu patrocinador. — Provavelmente. — Precisa tomar banho. Kadu olhou para a própria camiseta. — Finalmente uma crítica construtiva. — E trocar de roupa. — Meu apartamento fica no caminho da empresa. — A reunião não é online? — É. Luciana franziu a testa. — Então por que falou empresa? — Porque eu queria ver se você estava prestando atenção. — Você é insuportável de manhã. — Ontem você disse que eu era insuportável à noite. — Está desenvolvendo consistência. Kadu pegou a mochila. — Vamos. — Eu não vou. — Vai. — Você não manda em mim. — Não. Se mandasse, você teria feito cópias melhores, usado um endereço diferente, guardado o pen drive em outro lugar e talvez desenvolvido algum instinto básico de sobrevivência. Luciana cruzou os braços. — Você vai continuar com isso até quando? — Até você melhorar. — Então vai morrer tentando. Ele abriu a porta. — Pega uma roupa. — Para quê? — Você vai ficar no meu apartamento. Luciana riu. — Não. — Ótimo. Então fica aqui esperando a próxima equipe de mudança. Ela não se moveu. Kadu esperou. — Eu tenho cópias em outros lugares. — Você já disse. — Ninguém vai encontrar. — Espero que seu conceito de “ninguém” seja melhor do que o conceito de “ninguém sabe onde estou”. Luciana olhou para o quarto. Depois para o guarda-roupa. A ausência da caixa parecia maior à luz da manhã. Pegou uma bolsa. — Uma noite. — Claro. — Não estou me mudando. — Não tenho espaço para isso. — Você tem um apartamento inteiro. — Tenho um estúdio com cama anexada. — Pior ainda. Kadu abriu a porta. — Depois de você. Luciana passou. — Cavalheiro. — Testemunha. O apartamento de Kadu parecia ainda mais falso pela manhã. Sem as luzes do estúdio, a parede bonita perdia profundidade. A planta de plástico inclinava-se para um lado. Um pacote de suplemento alimentar permanecia aberto sobre uma caixa de equipamentos. Luciana entrou carregando a própria bolsa. — Continua parecendo cenário. — Continua sendo minha casa. — Isso é deprimente. — Você morava num apartamento com documentos criminosos guardados atrás de um cobertor. — Não critique meu design de interiores. Kadu foi para o quarto. — Não mexe em nada. — Você disse isso ontem. — Ontem eu ainda tinha patrocinador. Luciana olhou para a placa metálica da Offgrid. — Bonito slogan. — Não começa. — Estou admirando. — Você não sabe admirar. — Aprendi com a Melinda. Kadu apareceu na porta com uma camisa preta na mão. — Não fala o nome dela antes das oito. — Já são oito e quinze. — Então não fala antes das nove. Foi para o banheiro. Luciana permaneceu sozinha. O telefone de Kadu, deixado sobre a mesa, vibrou. Ela olhou. Não tocou. Vibrou novamente. agência OFFGRID ADIANTOU A REUNIÃO PARA 8H40 Luciana bateu na porta. — Kadu. — O quê? — Adiantaram. — Quanto? — Oito e quarenta. Silêncio. — Claro. — Você tem vinte minutos. — Eu sei fazer conta. Luciana olhou para a placa mais uma vez. Havia alguma coisa irritante naquelas palavras. Seu dinheiro. Suas regras. Durante anos, todas as regras que conhecera sobre dinheiro tinham pertencido a outra pessoa. Às oito e quarenta e dois, Kadu estava sentado diante da parede que o público conhecia. Luciana ocupava uma cadeira fora do enquadramento. — Você não precisa ficar — disse. — Eu sei. — Então por que está aí? — Quero ver como alguém perde dinheiro sem apostar. Kadu colocou os fones. — Isso deveria ser engraçado? — Um pouco. A tela abriu. Três pessoas. A empresária de Kadu. Um homem da agência. E uma mulher que ele conhecia apenas de eventos da Offgrid. Helena Prado. Diretora de comunicação e parcerias da operação brasileira. Elegante sem esforço aparente, cabelo curto, camisa azul-clara, fundo branco. Nenhum objeto atrás dela. Nenhuma planta. Nenhuma frase motivacional. Helena não precisava parecer interessante. Era paga para decidir quem continuava sendo. reunião em andamento HP Helena Prado Comunicação e Parcerias · Offgrid Brasil Kadu criador parceiro AG Agência representante EM Empresária Kadu Vilar — Bom dia, Kadu. — Bom dia. — Obrigada por entrar tão rápido. — Não tive muita opção. A empresária fez um pequeno gesto com o rosto. Kadu ignorou. Helena juntou as mãos. — Eu vou tentar ser objetiva. — Sempre tranquilizador quando alguém começa assim. A empresária fechou os olhos. Helena não reagiu. — A Offgrid acompanha desde ontem a repercussão envolvendo seu perfil, o pagamento divulgado e o conteúdo produzido com Luciana. — A publicação no meu perfil não foi feita por mim. — Sabemos que você afirma isso. — Não é uma interpretação. — Kadu. A voz da empresária entrou rapidamente. — Deixa ela terminar. Ele encostou-se na cadeira. Helena continuou: — Independentemente da origem daquela publicação, existe hoje uma crise de confiança envolvendo seu trabalho. — Criada por alguém que usou meu perfil. — Isso faz parte do problema. — Parece que estou sendo punido por terem feito alguma coisa comigo. — Você está sendo avaliado pelas circunstâncias públicas em que sua imagem profissional se encontra. — Que é um jeito bonito de dizer a mesma coisa. A empresária voltou a intervir. — Kadu. Helena esperou. — Posso continuar? — Claro. — Você recebeu dinheiro da fonte entrevistada. — Pelo trabalho. — Não estou dizendo o contrário. — Então qual é o problema? Helena inclinou levemente a cabeça. — Você não informou ao público. Kadu permaneceu em silêncio. — A Offgrid trabalha com educação financeira, confiança e autonomia. Nosso investimento em criadores depende da percepção de independência dessas vozes. Luciana soltou uma risada silenciosa fora da câmera. Kadu viu. — Eu produzo conteúdo patrocinado pela Offgrid. — Identificado como patrocinado. — E a entrevista com Luciana não era publicidade de produto. — Era conteúdo remunerado. — Como são reportagens, documentários, palestras, consultorias… — Kadu, nós não estamos tentando criminalizar seu modelo de negócio. — Só cancelar meu contrato por ele. — Ainda não chegamos a essa decisão. A palavra ainda pareceu ocupar toda a tela. Helena abriu um documento. — Existe uma possibilidade de preservarmos parte da parceria. Luciana ergueu os olhos. Kadu percebeu. — Qual? — Uma manifestação sua. — Já publiquei. — Algo mais claro. — Claro como? Helena escolheu as palavras. — Você poderia informar que aceitou produzir o conteúdo a partir das informações fornecidas por Luciana e que, diante dos questionamentos levantados sobre a versão apresentada, decidiu suspender qualquer nova colaboração enquanto os fatos não forem devidamente esclarecidos. Kadu permaneceu olhando para ela. — Que questionamentos? — Kadu, você sabe quais. — Quero ouvir. Helena respirou discretamente. — Luciana foi condenada no caso que agora utiliza para acusar outra pessoa. Até o momento, não apresentou publicamente elementos que sustentem as acusações mais graves. Sua própria fala tem sido contraditória em alguns momentos e, agora, tornou-se público que ela remunerou você antes da entrevista. Luciana se levantou. Kadu percebeu pelo reflexo da tela. Não olhou para ela. — A remuneração foi pelo meu trabalho. — Eu sei. — Então não deveria estar nessa lista. — Para você, não. Para parte considerável do público, está. — Vocês tomam decisões com base em comentários de rede social? — Tomamos decisões com base na percepção associada às pessoas que representam nossa marca. Kadu soltou uma risada curta. — Então não importa se ela está dizendo a verdade. Helena respondeu sem elevar a voz. — Neste momento, não temos como determinar isso. — Mas conseguem determinar que eu preciso me afastar dela. — Conseguimos determinar que a associação está causando dano à confiança no seu trabalho e, consequentemente, à nossa marca. — Ela é uma fonte. — Uma fonte que pagou pelo conteúdo em que apresentou acusações muito graves. — Pelo trabalho de produção. — Você está repetindo isso para mim. O problema é que não sou eu quem precisa ser convencida. Kadu olhou para a tela. — E o que exatamente vocês querem que eu publique? — Que, diante das dúvidas levantadas sobre a narrativa apresentada e da repercussão envolvendo a relação comercial entre vocês, você decidiu não produzir novos conteúdos sobre o caso até que existam informações verificáveis. — Informações verificáveis. — Sim. Kadu pensou na pasta azul. No comprovante que permanecia fora da internet. Nas cópias. Na empresa que havia aparecido uma vez e desaparecido da rota logo depois. Pensou em tudo aquilo. Não disse nada. Helena continuou: — Isso permitiria à Offgrid compreender que você está tomando distância suficiente para avaliar os fatos com responsabilidade. Kadu riu. — Engraçado. — O quê? — Ontem estavam dizendo que eu não tinha verificado nada. Agora que resolvi verificar, vocês querem que eu pare. Helena estreitou ligeiramente os olhos. — Você encontrou alguma informação nova? Luciana olhou para ele. Kadu não hesitou. — Estou trabalhando. — Em quê? — No meu trabalho. Silêncio. Helena assentiu. — Então acredito que tenha entendido nossa posição. — Entendi. — E? — Não vou publicar. A empresária aproximou o rosto da câmera. — Kadu. — Não. Helena juntou novamente as mãos. — Você entende que essa decisão pode inviabilizar a continuidade da parceria? — Entendo. — A Offgrid é hoje responsável por uma parcela significativa da sua estrutura de produção. — Eu sei quanto vocês pagam. — Então entende o impacto. — Entendo. — E mesmo assim prefere manter sua associação com Luciana? Kadu olhou para o pequeno reflexo dela no monitor. Luciana não estava mais olhando para ele. — Prefiro não dizer às pessoas que deixei de investigar uma história porque meu patrocinador achou a personagem principal antipática. — Não foi isso que propusemos. — É exatamente o que vão entender. — Você não controla o que as pessoas entendem. Kadu sorriu. — Essa frase é ótima vindo de uma empresa de comunicação. Pela primeira vez, Helena pareceu cansada. — Eu preciso fazer uma pausa de cinco minutos. — Para quê? — Consulta interna. II Consulta interna reunião temporariamente interrompida Kadu retirou os fones. Luciana estava junto à porta. — Você devia aceitar. — Não. — Eu estou falando sério. — Você sempre fica séria quando tenta arruinar minha vida de um jeito novo? — Você vai perder dinheiro. — Já percebi. — Muito. — Continua ajudando. — Sua agência, seu aluguel, seus equipamentos… — Eu sei. — Então aceita. Kadu levantou-se. — E digo o quê? — Qualquer coisa. — Que você não é confiável? Luciana apertou a bolsa. — Eu não sou. — Não foi isso que perguntei. — Para as pessoas, sou. — Eu também sou agora. — Por minha causa. — Em parte. Luciana desviou os olhos. — Então aproveita. — Para quê? — Para dizer que percebeu que fez uma besteira. — Eu fiz? Ela não respondeu. — Foi uma besteira ouvir você? — Pode ter sido. — Não é o que você pensa. — Não importa o que eu penso. — Para mim importa. Luciana abriu a porta. — Seu contrato vale mais do que eu. Kadu riu sem alegria. — Essa é provavelmente a primeira coisa em que concordamos. Luciana segurou a maçaneta. — Então faz. — Para onde você vai? — Não é problema seu. — Virou quando entraram na sua casa e publicaram uma confissão no meu perfil. Ela parou. — Você não precisa bancar o herói. — Eu não estou bancando nada. É justamente por isso que estou perdendo o patrocínio. — Kadu. — Senta. — Não manda em mim. — Então fica de pé em silêncio. A chamada retornou. Helena reapareceu. Luciana continuou ao lado da porta. Kadu colocou os fones. — Podemos continuar — disse Helena. — Imagino que sim. — A Offgrid decidiu suspender imediatamente todas as entregas previstas e encerrar a parceria vigente. A frase veio limpa. Sem drama. Sem ameaça. Uma sentença corporativa com iluminação adequada. Kadu assentiu. — Certo. — Os valores correspondentes aos trabalhos já entregues serão pagos normalmente. A equipe jurídica enviará os termos ainda hoje. — Obrigado. — Quero deixar claro que essa decisão não representa uma conclusão sobre sua conduta pessoal. — Isso ajuda muito. A empresária olhou para ele. Helena ignorou. — Desejo que você consiga esclarecer a situação. — E eu desejo que vocês encontrem outro influencer polêmico suficientemente confiável. A tela congelou por um segundo. Depois Helena sorriu. — Tenho certeza de que encontraremos. A chamada terminou. Kadu ficou olhando para a própria imagem refletida no monitor. A camisa preta. A estante. A planta. A parede perfeita. Tudo continuava exatamente onde estava. Só o dinheiro tinha ido embora. Luciana fechou a porta. — Eu sinto muito. Kadu retirou os fones. — Não. — O quê? — Não faz isso. — Eu estou falando sério. — Pior ainda. — Eu não sabia que fariam isso. — Mas sabia que ela podia fazer pior. — Eu não sei se foi Melinda. — Nem eu. Luciana se aproximou. — Você acabou de perder seu maior contrato porque me ajudou. — Eu perdi porque alguém publicou uma mentira usando uma verdade. — Eu paguei você. — Sim. — E você não contou. — Sim. — Então, parte disso é minha culpa. Kadu olhou para ela. — Isso é quase um pedido de desculpas? — Não exagera. — Por um segundo achei que você fosse desenvolver uma emoção nova. Ela se virou. — Idiota. — Melhor. O telefone começou a vibrar. A agência. A assessoria. Uma marca menor perguntando se deveria suspender uma campanha. Kadu colocou o aparelho com a tela para baixo. Luciana olhou. — Não vai atender? — Depois. — Você disse que era seu trabalho. — Estou desempregado há quarenta segundos. Me deixa aproveitar. A tarde passou sem pedir licença. Kadu tentou reorganizar contratos. Descobriu que perder um patrocinador era mais fácil do que entender quantas coisas aquele patrocinador pagava. Software. Armazenamento. Edição. Uma parcela do aluguel do estúdio. Deslocamentos. Dois freelancers. Uma ferramenta de monitoramento. O programa Dinheiro sem medo desapareceria. Luciana assistia de longe. Não oferecia ajuda. Era provavelmente a forma mais delicada de ajuda que sabia oferecer. Às quatro da tarde, Kadu fechou uma planilha. Planejamento financeiro Receitas Contratos Despesas Cancelamentos Previsão — Preciso cortar metade. — Do quê? — Tudo. — Você tem dinheiro guardado? — Tenho. — Quanto? Ele olhou para ela. — Você realmente acabou de perguntar meu patrimônio? — Estou tentando entender. — Você é ex-operadora financeira de esquema clandestino. — Ex. — Isso não tranquiliza. Luciana sentou-se diante dele. — Quantos meses? — Seis, talvez oito. — Até quebrar? — Até precisar reduzir a estrutura. — Qual a diferença? — Dignidade lexical. Ela olhou para o computador. — Você podia ter aceitado. — Você já falou. — Estou reforçando. — Quer muito que eu diga publicamente que você não merece confiança. — Quero que pare de perder coisas por minha causa. Kadu permaneceu em silêncio. Luciana percebeu tarde demais o que havia dito. — Não faz essa cara. — Que cara? — Essa. — Eu só estou olhando. — Então olha para outro lugar. Ele voltou à planilha. — Você sabe o que mais me irrita? — Imagino uma lista extensa. — Eu ainda acho você culpada de um monte de coisa. — Eu sou. — Eu ainda acho que você me procurou porque queria usar meu público. — Queria. — Ainda acho que você gostaria de ver Melinda perdendo tudo mesmo que isso não provasse nada. Luciana demorou. — Gostaria. — E eu continuo aqui. — Problema seu. — Exatamente. Ela ficou olhando para ele. Kadu não ergueu os olhos. Na Casa Recomeço, Nina encontrou Melinda dormindo numa poltrona. Não estava exatamente dormindo. Tinha os olhos fechados e o telefone sobre o peito. A porta da sala permanecia aberta. Nina entrou. — Melinda. Nenhuma resposta. — Melinda. Ela abriu os olhos. — Oi. — Você dormiu? — Não. — Estava de olho fechado. — Estava descansando a visão. — Desde quando você vira minha avó? Melinda sorriu. — Desde que você virou minha fiscal. Nina sentou-se no braço da poltrona. — Vamos para casa. — Tenho grupo às sete. — A Joana assume. — Eu disse que participaria. — Você também disse ontem que ia dormir oito horas. — Eu dormi. Nina levantou uma sobrancelha. — Somando os últimos quatro dias, talvez. Melinda pegou o telefone. — O que aconteceu com Kadu? — Perdeu a Offgrid. Ela levantou os olhos rapidamente. — Como sabe? — Está circulando. — Já confirmaram? — Ele publicou que o programa com a empresa foi encerrado. Kadu Dinheiro sem medo Programa realizado em parceria com a Offgrid encerrado. Melinda leu em silêncio. — É uma pena. Nina riu. — Uma pena? — Ele trabalha bem. — Você viu o que fez com a Luciana. — Justamente. Nina cruzou os braços. — Você é incapaz de odiar alguém direito. Melinda devolveu o telefone à mesa. — Eu odeio muita gente direito. — Cite três. — Você quer em ordem alfabética? — Quero provas. Melinda sorriu. Nina se levantou. — Vamos. — Nina. — Não. — Eu tenho— — A Joana assume. — Você já combinou? — Antes de perguntar. Melinda ergueu o rosto. — Isso é golpe. — Aprendi com você. A frase passou entre as duas sem peso. Ainda. A casa de Melinda era diferente da Casa Recomeço. Menos branca. Mais antiga. Havia móveis de madeira, fotografias sem enquadramento profissional, livros usados de verdade e uma pequena estante com filmes que ninguém assistia havia anos. Nina abriu um armário. — Não acredito que você ainda tem isso. Melinda retirou os sapatos. — O quê? Nina segurava um DVD. George, o Rei da Floresta. Achado logosgráfico [ ](https://link.amazon/B029IRfOu) ### George, o Rei da Floresta Um patrimônio audiovisual da época em que a gente assistia ao mesmo DVD vinte vezes e ainda chamava isso de projeto de vida. Se a lembrança também bateu por aí, o DVD pode ser encontrado na Amazon. [ Ver na Amazon ](https://link.amazon/B029IRfOu) Melinda riu. — Isso é patrimônio histórico. — Isso é trauma infantil. — Você assistia todo dia. — Porque você colocava. — Você pedia. — Eu tinha quatro anos. — Já sabia exigir. Nina ligou a televisão. — Não existe chance de esse DVD funcionar. Funcionou. — Tecnologia superior — disse Melinda. — Em 2026, duas mulheres assistindo DVD. — Não conte para ninguém. — Sua reputação não sobreviveria. Melinda entrou na cozinha. — Quer pipoca? — Quero. — Sal? — Você vai colocar açúcar, não vai? — Sua mãe colocava açúcar. Nina apareceu na porta. — Nossa mãe. Melinda parou com o pacote na mão. Foi muito rápido. Uma fração. Quase nada. — Nossa mãe — corrigiu. Nina abriu a geladeira. — Você fala “sua mãe” quando quer reclamar dela. — É uma forma de dividir responsabilidades. — Quando você conta coisa boa, vira “nossa”. — Isso se chama patrimônio afetivo. — Conveniente. Melinda colocou a pipoca numa tigela. Na televisão, George atravessava a floresta com a dignidade de um homem que ainda não sabia quantas vezes seria atingido por árvores. Nina sentou-se no sofá. Melinda ao lado. Durante alguns minutos, nenhuma delas falou. Era estranho como certos filmes guardavam não apenas imagens, mas versões das pessoas que haviam assistido. Nina conhecia aquela abertura. A música. As piadas. A cena em que fechava os olhos quando criança. — Você chorava nessa parte — disse Melinda. — Não chorava. — Chorava. — Eu tinha medo do leão. — E do gorila falante também… — Melinda riu. — Você dizia que ele ia morar no seu quarto. — E você dizia que deixaria. — Eu precisava construir caráter. Nina encostou a cabeça no ombro dela. O gesto aconteceu sem decisão. Melinda imediatamente inclinou a própria cabeça sobre a dela. Na tela, Brendan Fraser apareceu. Nina se endireitou. — Meu Deus. — O quê? — Eu não lembrava disso. Melinda olhou. George atravessava a cena quase sem roupa, fisicamente dedicado a explicar por que aquele filme talvez tivesse sobrevivido melhor na memória de adultos do que na classificação indicativa. — George tem sorte, eu acho — disse Melinda. Nina virou-se devagar. — Melinda. — O quê? — Você acabou de olhar para aquele homem e dizer que ele tem sorte? — Ele mora numa floresta bonita. — Sei. — Tem contato com a natureza. — Claro. — Boa saúde cardiovascular. Nina começou a rir. Melinda tentou permanecer séria. Não conseguiu. — Você é nojenta. — Eu não falei nada. — Falou tudo. Nina olhou novamente para a televisão. — A gente é que tem sorte, eu acho. Melinda gargalhou. Não a risada pequena usada em entrevistas. Não o sorriso treinado. Gargalhou de jogar a cabeça para trás. Nina também. Por alguns segundos, nenhuma delas se lembrou de Luciana. Nem de Aurora. Nem de Tigresa. Nem de Bóris. Só de George atravessando a floresta com pouca roupa e um comprometimento admirável com o entretenimento familiar. Quando o riso diminuiu, Nina tornou a deitar a cabeça no ombro dela. — Faz tempo que você não ri assim. Melinda continuou olhando para a televisão. — Faz? — Faz. — Não percebi. — Eu percebi. Silêncio. — Você está com medo? — perguntou Nina. Melinda demorou. — Estou. — Dela? — De perder coisas. — A Casa? — Também. Nina levantou a cabeça. — O que mais? Melinda olhou para ela. A resposta correta estava ali. Ao alcance. Nina. Mas pronunciá-la parecia perigoso. — A confiança das pessoas. Nina fez uma expressão de reprovação. — Você respondeu como entrevista. Melinda sorriu. — Desculpa. — Tenta de novo. — Estou cansada. — Melhor. Nina voltou para seu ombro. — Eu sei que você não me conta tudo. O corpo de Melinda ficou imóvel. — Ninguém conta tudo. — Eu sei. — Isso incomoda? — Não. Melinda respirou. — Devia. Nina não ouviu. Ou fingiu não ouvir. Na televisão, George bateu numa árvore pela quarta ou quinta vez. Às dez e vinte da noite, Luciana encontrou Kadu dormindo diante do computador. A tela mostrava uma planilha aberta. Cinco colunas. Luciana aproximou-se. Havia uma caneca perigosamente perto do teclado. Moveu-a. Kadu despertou imediatamente. — O que você está fazendo? — Salvando seu computador. Ele olhou para a caneca. — Eu sabia onde estava. — Dormindo? — Eu estava pensando. — Com a boca aberta. — Técnica avançada. Luciana pegou a manta que estava sobre o sofá e jogou nele. — Dorme direito. Kadu segurou. — Você acabou de me cobrir? — Joguei um tecido na sua direção. — Quase romântico. — Se continuar falando, eu sufoco você com ele. — Melhorou. Ela apagou uma das luzes. Kadu permaneceu olhando. — Você vai dormir onde? — No sofá. — O sofá é meu. — Você já está na cadeira. — Eu tenho cama. Luciana virou-se. — Então vai para ela. — E você? — Sofá. — Você reclamou dele ontem. — Era meu sofá. — Então muda tudo. — Exatamente. Kadu fechou o computador. — Você pode usar a cama. Luciana parou. — Não. — Não estou propondo nada. — Ainda bem. — Eu durmo aqui. — Você não cabe. — Eu dormi no seu. — E roncou. — Luciana. — Kadu. Eles se encararam. A tensão permaneceu tempo demais para continuar parecendo apenas irritação. Luciana desviou primeiro. — Eu fico no sofá. — Ótimo. — Ótimo. — Perfeito. — Para de falar. — Estou na minha casa. — Quer que eu vá embora? Kadu ficou sério. — Não. A resposta veio rápido demais. Luciana percebeu. Ele também. — Não hoje — completou. Ela assentiu. — Certo. Kadu pegou o computador. — Amanhã a gente continua. — Com o quê? — Aurora. Luciana olhou para ele. Era a primeira vez que o nome surgia entre os dois desde a reunião. — Você perdeu o contrato. — Não perdi minha curiosidade. — Você está fazendo isso por vingança. — Agora você entende. Luciana quase sorriu. — Boa noite. — Boa noite. Ela foi para o sofá. Kadu entrou no quarto. Nenhum dos dois dormiu imediatamente. Às onze e sete, o encerramento do contrato de Kadu já constava no sistema interno da Offgrid. Bóris recebeu a atualização sem abrir o e-mail. Já sabia. A tela mostrava a carteira brasileira de parceiros. Holding — acesso administrativo Carteira brasileira de parceiros Kadu Vilar criador de conteúdo PARCERIA ENCERRADA RISCO REPUTACIONAL Bóris abriu o cadastro. Kadu Vilar CPF •••.•••.•••-•• Dados bancários •••••••••• Documentos de identificação arquivados Contrato arquivado Contatos profissionais •••••••••• Endereço para correspondência •••••••••• Endereço administrativo •••••••••• Residencial •••••••••• Ele ficou olhando para a tela. Kadu havia sido cuidadoso ao se cadastrar na plataforma de Tigresa. Outro endereço. VPN. Pouca coisa que apontasse diretamente para o lugar onde realmente dormia. Não importava. Meses antes de Luciana aparecer, Kadu entregara voluntariamente tudo aquilo à empresa que pagava suas contas. Era uma das vantagens dos negócios legais. As pessoas preenchiam os próprios dados. Assinavam autorização. Enviavam documentos. Agradeciam pelo contrato. Bóris copiou o endereço para uma janela vazia. Não enviou para ninguém. Ainda. Abriu novamente a tela principal da Offgrid. Fechou. Depois abriu Tigresa. Os números continuavam subindo. Em outra aba, a Casa Recomeço publicara um reels de Joana, contando sobre sua formação em Psicologia e sua especialização em ludopatia. Bóris ficou alguns segundos olhando para as três janelas. Apostas. Recuperação. Educação financeira. Apostas Atividade e cadastros em crescimento. Recuperação Reels · Joana · Psicologia e especialização em ludopatia. Educação financeira Holding · acesso administrativo. Endereço residencial · Kadu Vilar •••••••••••••••••••••• Fechou uma por uma. Por último, deixou aberto o endereço de Kadu. Luciana acreditava estar escondida. Kadu acreditava ter sido prudente. Nenhum dos dois estava completamente errado. Bóris desligou o monitor. [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/24/a-matadora-de-tigrinhos-08/) ### [A Matadora de Tigrinhos #08](https://logosgrafia.com/2026/09/24/a-matadora-de-tigrinhos-08/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 24 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/23/a-matadora-de-tigrinhos-07/) ### [A Matadora de Tigrinhos #07](https://logosgrafia.com/2026/09/23/a-matadora-de-tigrinhos-07/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 23 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/22/a-matadora-de-tigrinhos-06/) ### [A Matadora de Tigrinhos #06](https://logosgrafia.com/2026/09/22/a-matadora-de-tigrinhos-06/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 22 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/21/a-matadora-de-tigrinhos-05/) ### [A Matadora de Tigrinhos #05](https://logosgrafia.com/2026/09/21/a-matadora-de-tigrinhos-05/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 21 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/20/a-matadora-de-tigrinhos-04/) ### [A Matadora de Tigrinhos #04](https://logosgrafia.com/2026/09/20/a-matadora-de-tigrinhos-04/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 20 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/19/a-matadora-de-tigrinhos-03/) ### [A Matadora de Tigrinhos #03](https://logosgrafia.com/2026/09/19/a-matadora-de-tigrinhos-03/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 19 de setembro de 2026 [ ](https://logosgrafia.com/2026/09/18/a-matadora-de-tigrinhos-02/) ### [A Matadora de Tigrinhos #02](https://logosgrafia.com/2026/09/18/a-matadora-de-tigrinhos-02/) por [Paulo Ricardo Zargolin](https://logosgrafia.com/author/ninhozargolin/) 18 de setembro de 2026
