# placa de Petri #01: Como um Google Sheets virou o meio de cultura do Logosgrafia

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/02/placa-de-petri-01-como-um-google-sheets-virou-o-meio-de-cultura-do-logosgrafia/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-02T12:30:00-03:00
- Modified: 2026-08-02T12:24:44-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Publicações

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Por Paulo Ricardo Zargolin 🧫 Placa de Petri #01 Um site não cresce apenas porque publica muito. Talvez ele cresça quando suas ideias conseguem coexistir, amadurecer e conversar entre si. Era essa hipótese que eu queria testar. ## Hipótese Gaston Bachelard afirma que o conhecimento científico não começa propriamente com respostas, mas com a formulação de problemas. Aquilo que parece evidente precisa ser interrogado antes de ser organizado como conhecimento (BACHELARD, 1996). No meu caso, o problema não era simplesmente encontrar mais assuntos para escrever. Era descobrir como organizar dezenas de textos, séries e projetos sem transformar o [ Logosgrafia ](https://logosgrafia.com/) em um depósito de publicações. ## O problema Durante muito tempo, cada texto era apenas um texto. Eu escrevia. Publicava. E partia para o próximo. A sensação era semelhante à de lançar sementes ao vento. Algumas germinavam. Outras desapareciam. Certas ideias retornavam meses depois, embora eu já não conseguisse reconstruir exatamente de onde tinham vindo. O que faltava não era inspiração. Era ecossistema. Como organizar dezenas de séries diferentes sem retirar delas a espontaneidade, a personalidade e a possibilidade de retornar? A resposta não começou com inteligência artificial. Começou com uma planilha. ## Material utilizado O primeiro instrumento desta experiência foi o Google Sheets. A planilha reuniu datas, títulos, séries e diferentes estados de produção: ideia, Drive, redação, rascunho, programação e publicação. Com o tempo, também passou a registrar cruzamentos entre editorias, prioridades e projetos que ainda não possuíam lugar definitivo no calendário. Foram utilizados: - Google Sheets; - calendário; - categorias, páginas e ferramentas do WordPress; - códigos de cores; - observação das recorrências; - revisões sucessivas; - decisões editoriais. Nenhum desses elementos é particularmente sofisticado quando observado isoladamente. O método surgiu da relação entre eles. Bruno Latour e Steve Woolgar, ao estudarem o cotidiano de um laboratório, demonstram que os fatos não aparecem prontos diante dos pesquisadores. Eles são construídos por meio de registros, inscrições, instrumentos, comparações e sucessivas operações de interpretação (LATOUR; WOOLGAR, 1997). O caderno, o gráfico, a tabela e a anotação não ocupam uma posição periférica. Participam da própria produção daquilo que poderá ser visto e compreendido. Nesse sentido, a planilha não serviu apenas para registrar um processo editorial previamente existente. Ela ajudou a torná-lo visível. ## Incubação A planilha começou pequena. Depois ganhou novas linhas. Vieram os dias da semana. As séries. Os estados de produção. As cores. Os cruzamentos. As prioridades. Pouco a pouco, o calendário deixou de responder apenas à pergunta: O que será publicado amanhã? Passou a responder outra, muito mais interessante: O que o Logosgrafia está se tornando? A mudança não aconteceu de uma vez. O sistema foi construído enquanto era utilizado. Cada problema concreto provocava uma alteração: uma nova coluna, outra cor, uma categoria revista, uma publicação deslocada ou uma série retomada. Esse processo se aproxima do que Donald Schön denomina reflexão na ação. Em determinadas práticas, o profissional não apenas executa um planejamento estabelecido de antemão. Ele observa o que acontece enquanto trabalha, interpreta os efeitos de suas escolhas e modifica a própria ação durante o percurso (SCHÖN, 2000). A organização, portanto, não veio antes da experiência. Ela nasceu dentro dela. ## Quando as séries começaram a conversar Em determinado momento, percebi que a planilha já não organizava somente datas. Ela revelava relações. Uma [ Crônica Zargoliniana ](https://logosgrafia.com/category/cronicas-zargolinianas/) podia originar um Estudo de Caso. Um texto publicado poderia retornar sob a forma de Tubo de Ensaio. Uma Nostalgrafia poderia encontrar continuidade em Palavra Curta. Uma história poderia atravessar duas ou três estantes sem perder sua identidade. As estantes deixaram de funcionar como departamentos fechados. Passaram a compartilhar nutrientes. É difícil afirmar em que momento exato isso ocorreu. Talvez porque o método não tenha sido desenhado inteiramente antes de sua aplicação. Ele foi adquirindo forma à medida que as necessidades apareciam. Richard Sennett relaciona o trabalho do artífice ao diálogo contínuo entre pensamento e execução. Fazer bem alguma coisa exige repetição, observação, correção e disponibilidade para aprender com a resistência apresentada pelo próprio material (SENNETT, 2009). A técnica não é somente a aplicação obediente de uma ideia anterior. O objeto em construção também interfere na maneira como será produzido. A planilha começou a fazer isso comigo. Eu a construía, mas ela também me devolvia perguntas. ## Observações Ao longo das semanas, alguns fenômenos ficaram mais visíveis: - Certas séries possuíam uma recorrência quase natural. - Outras dependiam de acontecimentos, memórias ou oportunidades. - Alguns projetos precisavam de intervalos maiores para não perder força. - Uma publicação podia cumprir diferentes funções em mais de uma estante. - O excesso de regularidade ameaçava transformar a identidade editorial em uma grade mecânica. - A ausência completa de planejamento fazia boas ideias desaparecerem. Essas observações não nasceram apenas da memória. A planilha permitiu retornar aos registros e comparar momentos diferentes do processo. Umberto Eco, ao tratar da organização de uma pesquisa, destaca a importância de construir instrumentos que permitam localizar materiais, relacionar informações e recuperar o caminho já realizado. O registro metódico não substitui o pensamento. Ele impede que o pensamento dependa exclusivamente da lembrança e da improvisação (ECO, 2007). Foi isso que o Google Sheets começou a fazer. Não escrevia por mim. Mas impedia que parte do que eu havia pensado desaparecesse. ## A entrada da inteligência artificial A inteligência artificial entrou somente depois de o pipeline já estar construído. Não foi utilizada para decidir a identidade do Logosgrafia nem para criar o calendário original. Sua função inicial foi observar comigo alguns padrões: - intervalos entre episódios; - concentração de determinadas séries; - recorrências semanais; - possíveis excessos; - espaços ainda pouco explorados; - riscos de repetição. As respostas ajudaram a enxergar possibilidades, mas não produziram automaticamente decisões. Essa distinção é essencial. Uma ferramenta pode ampliar a capacidade de comparação, organizar informações ou sugerir relações. Isso não significa que deva receber autoridade editorial. O instrumento participa do processo, mas não possui sozinho o problema, a história do projeto nem o critério necessário para definir o que merece existir. O sistema poderia sugerir: “Esta série deveria retornar em quinze dias.” Eu ainda poderia responder: “Não. Ela precisa respirar.” ## O momento da decisão Os dados sugeriam caminhos. As recorrências mostravam desequilíbrios. A análise identificava padrões. Mas a última etapa continuava sendo editorial. Decidir não era simplesmente obedecer à frequência numericamente mais equilibrada. Era considerar a natureza de cada série, o esforço necessário para sua produção, o momento do site e o tipo de experiência que eu desejava oferecer ao leitor. Schön observa que as situações reais da prática são frequentemente marcadas por incerteza, singularidade e conflito de valores. Nelas, uma solução técnica não pode ser aplicada mecanicamente, porque o próprio problema precisa ser interpretado pelo profissional (SCHÖN, 2000). Era exatamente o que acontecia ali. A planilha mostrava o território. Não escolhia o destino. ## Resultado O maior resultado deste experimento não foi a planilha. Foi perceber que um calendário também pode narrar. Ele conta quais ideias insistem em voltar. Quais projetos amadurecem durante meses. Quais aparecem de repente. Quais mudam de série. Quais são interrompidos. Quais encontram uma data. Quais ainda aguardam alguma coisa que nem sempre consigo nomear. A planilha tornou-se uma espécie de diário silencioso do Logosgrafia. Latour e Woolgar lembram que a atividade de um laboratório é inseparável das inscrições que ele produz. Os registros permitem estabilizar, confrontar e fazer circular aquilo que, sem eles, permaneceria disperso (LATOUR; WOOLGAR, 1997). Meu calendário editorial fazia algo semelhante. Transformava impulsos em rastros. E rastros em possibilidades de escolha. ## Conclusão Curiosamente, o primeiro experimento da série Placa de Petri nunca passou por um tubo de ensaio. Passou por uma planilha. Antes de utilizar inteligência artificial para observar padrões, foi necessário construir um ambiente em que esses padrões pudessem existir e ser percebidos. O Google Sheets não inventou as séries. Não escreveu os textos. Não escolheu os retornos. Mas ofereceu um meio de cultura no qual cada ideia pôde ser registrada, acompanhada, deslocada e, algumas vezes, recuperada. Talvez seja esse o sentido mais exato deste experimento: tecnologias não precisam ser espetaculares para modificar profundamente um processo. Algumas trabalham em silêncio. Uma célula recebe uma cor. Uma ideia ganha uma data. Um projeto reaparece meses depois. Em [ O dilema dos retornos ](https://logosgrafia.com/2026/05/07/o-dilema-dos-retornos/), escrevi sobre aquilo que volta sem necessariamente repetir o que já havia sido. Aqui, encontro a dimensão metodológica daquele mesmo movimento: certos retornos não dependem apenas de vontade ou saudade. Dependem da existência de um lugar onde tenham permanecido registrados. A tecnologia ajudou a observar o cultivo. Mas a decisão sobre o que deveria continuar crescendo permaneceu humana. ## Ficha técnica do experimento Experimento Placa de Petri #01 — Como um Google Sheets virou o meio de cultura do Logosgrafia. Objeto de observação Organização e desenvolvimento do ecossistema editorial do Logosgrafia. Meio de cultura Google Sheets. Instrumentos auxiliares WordPress, calendário, códigos de cores e inteligência artificial para análise posterior. Tempo de incubação Vários meses. Intervenção humana Integral. Resultado Construção de um pipeline capaz de registrar diferentes etapas de produção, revelar recorrências e apoiar decisões editoriais sem automatizá-las. Status Cultivo permanente. ## Referências BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Tradução de Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. Disponível em: [ versão digital para consulta ](https://astro.if.ufrgs.br/fis2008/Bachelard1996.pdf). Acesso em: 2 ago. 2026. ECO, Umberto. Como se faz uma tese em ciências humanas. Tradução de Ana Falcão e Luís Leitão. 13. ed. São Paulo: Perspectiva, 2007. LATOUR, Bruno; WOOLGAR, Steve. A vida de laboratório: a produção dos fatos científicos. Tradução de Angela Ramalho Vianna. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1997. SCHÖN, Donald A. Educando o profissional reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem. Tradução de Roberto Cataldo Costa. Porto Alegre: Artmed, 2000. Disponível em: [ Biblioteca Digital e Sonora da Universidade de Brasília ](https://bds.unb.br/handle/123456789/62). Acesso em: 2 ago. 2026. SENNETT, Richard. O artífice. Tradução de Clóvis Marques. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009. ZARGOLIN, Paulo Ricardo. O dilema dos retornos. Logosgrafia, 7 maio 2026. Disponível em: [ Logosgrafia ](https://logosgrafia.com/2026/05/07/o-dilema-dos-retornos/). Acesso em: 2 ago. 2026. Este conteúdo integra o acervo autoral do Logosgrafia. Compartilhe o link da publicação em vez de copiar o texto.
