# Maracangalha #21: Uma palavrinha só

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/09/maracangalha-21-uma-palavrinha-so/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-09T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-31T13:45:10-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia em séries, Maracangalha, Publicações

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Maracangalha Capítulo 21 Por: Paulo Ricardo Zargolin São Paulo era um espelho sujo visto do alto. O vidro do prédio refletia um céu estagnado, como se a cidade estivesse prestes a chover, mas não tivesse coragem. Agenor saiu da sala de reunião com o passo leve de quem acredita no próprio teatro. O terno estava suado nas axilas, mas ele mantinha o queixo erguido. Os deputados tinham sido maleáveis. Uma promessa aqui, uma piada acolá, um mapa da orla redesenhado com lápis grosso sobre uma cópia do Google Earth. — Se tudo correr como deve… — murmurava, ajeitando o nó da gravata — a população vai engolir estrada com gosto. E depois, o nome certo nas urnas. Estava quase sorrindo. Quase. O elevador apitou. Ele entrou. Espelho. Botões. Silêncio. Mas antes que a porta se fechasse por completo, uma mão surgiu — um gesto teatral demais para ser acidental. — Seu Agenor — disse o assessor, entre a cortesia e a urgência. — Não se vá ainda. O Dr. Paiva precisa trocar uma palavrinha com o senhor. Agenor congelou por um segundo. Não o bastante para ser notado. Mas o bastante para sentir o estômago se contrair. — Paiva… — repetiu em pensamento. Problema antigo. Desses que a gente nunca resolve — só adia, disfarça, empurra. Voltou o corpo para o corredor. Respirou fundo, mas discretamente. O sorriso que ofereceu ao assessor era o de sempre. Mas a mão que ajeitou a lapela do paletó tremia, imperceptível — exceto para quem já aprendeu a ver as rachaduras no verniz do poder. Agenor entrou na sala, onde o ar-condicionado parecia lutar contra o calor de São Paulo. Dr. Paiva estava de pé, junto à janela, observando o movimento lá fora. Sem virar-se, disse com um sorriso que não alcançava os olhos: — Uma palavrinha só, Agenor. O assessor fechou a porta atrás de si, deixando-os a sós. Paiva virou-se lentamente, encarando Agenor com um olhar que misturava ironia e autoridade. — Já conseguiu a verba, raposinha velha? Agenor tentou manter a compostura, mas a voz saiu hesitante: — Ainda não é cer… Paiva interrompeu, cortante: — Claro que já! E sabe que precisamos de uma parte, certo? Agenor engoliu seco. Em Maracangalha, era o leão; ali, um cordeiro diante do verdadeiro poder. — Preciso cumprir minha promessa, Paiva. Já não dá mais pra adiar… Paiva riu, sem humor: — Não me venha com esse melodrama, bancando o honesto homem do povo, comigo! Sabemos muito bem o que você e os seus têm feito ao longo dos anos naquele buraco banhado de uma gota do mar! — Por favor… — Ora! Faça-me o favor! Negociatas há gerações! Ainda preciso calar certas bocas… Agenor baixou o olhar, murmurando: — Pior ainda, meu amigo. Alguns já estão suspeitando. Aquela gente pervertida está instalada em mansão, enquanto projetos importantes ficam parados… Paiva aproximou-se, diminuindo a voz: — Dentre os pervertidos, uma sabe de tudo e eu preciso do seu apoio, senão vamos ter que pensar em outro para assumir o poder naquele fim de mundo. Aliás, do jeito que a coisa vai, a pervertida-mor daria uma boa candidata, não acha? Já pensou? O grande homem de família, honrado, defensor da moral e dos bons costumes, perdendo eleição pra um… uma… um nem sei o que é aquilo… só sei que ela sabe demais e precisamos pagar pra que a memória desapareça. O prefeito apenas assentiu. Era o que restava. A única coisa sensata a se fazer.
