# Prato da Noite #09 — Macarrão à bolonhesa

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/09/prato-da-noite-09-macarrao-a-bolonhesa/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-09T23:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-30T15:21:20-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Palavra Curta, Prato da Noite, Publicações

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Aline abriu a porta e demorou dois segundos a mais do que o educado para olhar para a convidada de Júlio. — Laura — apresentou ele, quase orgulhoso. — Desenvolvedora de softwares. Humana. Aline ergueu uma sobrancelha. Júlio nunca levara comida para jantar sem avisar. Laura percebeu o equívoco e riu. — Não se preocupe. Acho que eu vim como acompanhante, não como entrada. Foi então que contaram como haviam se conhecido. Laura morava sozinha e, certa noite, as luzes começaram a se acender sem comando, a televisão ligou sozinha e a cafeteira preparou café às três da manhã. Em vez de chamar um padre, ela abriu o notebook. 🍽️ O primeiro parágrafo é por conta da casa. O restante deste Prato da Noite é servido aos assinantes Sementes. [ Assinar e continuar a leitura ](https://logosgrafia.com/comunidade/por-que-ser-uma-sementinha/) Durante semanas, Laura tentou descobrir qual falha do sistema estava causando aquilo. Júlio, ofendido por ser confundido com automação residencial defeituosa, aumentou o repertório: portas batiam, objetos mudavam de lugar, a música começava sem ninguém tocar no celular. Laura respondia atualizando o software da casa. Um dia, cansada, falou para o vazio: — Se você quer minha atenção, pelo menos pare de acender a luz do banheiro quando eu estou dormindo. A luz piscou duas vezes. Foi amor à primeira assombrada. — Ela foi a primeira pessoa que tentou me debugar — disse Júlio. Laura apertou sua mão. — E ele foi o primeiro bug que eu decidi não corrigir. Aline serviu o vinho ainda olhando para os dois com uma curiosidade quase científica. — Então você namora um poltergeist. — Laura assentiu. — É ótimo. Ele fecha portas, apaga luzes, encontra coisas que eu perco e nunca reclama quando trabalho até tarde. Júlio sorriu. — E ela nunca tentou me expulsar com sal grosso. Aline levantou a taça. Pela primeira vez em muito tempo, ninguém naquela mesa parecia remotamente comestível. Foi uma noite estranhíssima.
