# O último voo da nave: Super Xuxa Contra Baixo Astral

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/12/o-ultimo-voo-da-nave-super-xuxa-contra-baixo-astral/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-12T13:00:00-03:00
- Modified: 2026-10-12T12:30:27-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Acervo, filme, Nostalgrafia, Publicações

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Nostalgrafia Especial — Dia das Crianças “Daqui a pouco.” Havia uma capacidade extraordinária de reorganizar a tarde nessas três palavras. A televisão anunciava alguma coisa que ainda não estava acontecendo e, de repente, era preciso considerar aquele compromisso. Podíamos até sair da frente do aparelho, mas convinha manter alguma atenção ao que vinha de lá. O filme começaria no horário da televisão. A nossa disponibilidade era um problema nosso. Gosto de abrir esta sessão com a chamada porque ela devolve à experiência uma parte que o acesso imediato costuma dispensar: a espera. Antes do filme, havia a promessa do filme. Uma voz selecionava algumas informações, as imagens passavam depressa e nós recebíamos o suficiente para querer permanecer por perto. Neste caso, a Rainha dos Baixinhos enfrentaria um terrível vilão numa emocionante aventura. Estava explicado. Não era necessário apresentar o currículo do vilão. Sua condição de terrível já justificava o envolvimento de Xuxa e, possivelmente, o nosso. A chamada tem também essa confiança de quem anuncia um acontecimento que merece ser visto. O título aparece, a música ajuda, o locutor reafirma o convite. Em poucos segundos, está preparada uma sessão que agora podemos visitar de novo, com a vantagem de decidir quando começa. Alguma coisa melhorou na distribuição dos poderes dentro da sala. Neste Dia das Crianças, a nave faz uma parada em Super Xuxa Contra Baixo Astral. E o título já oferece bastante assunto. Há uma adversidade com nome próprio, uma heroína disposta a enfrentá-la e a promessa de que o encontro vai render uma história. Baixo Astral leva sua função a sério. Na trama, o vilão reage à iniciativa de Xuxa de mobilizar as crianças para colorir os muros da cidade e sequestra seu cachorro, Xuxo. Ela parte para resgatá-lo. A aventura dá forma concreta ao conflito: há alguém a procurar, obstáculos pelo caminho e um responsável por aquela confusão. O sujeito vê gente querendo melhorar o ambiente e decide sequestrar um cachorro. É uma reação desproporcional, mas bastante esclarecedora sobre seu caráter. A fantasia permite essas materializações. Uma disposição destrutiva pode ganhar corpo, voz e esconderijo. O medo encontra uma figura para ocupar. A coragem precisa fazer alguma coisa além de ser mencionada numa frase bonita. Quem assiste acompanha uma busca e pode desejar que ela dê certo. Há um alívio narrativo em saber onde está o problema. A vida costuma ser menos prestativa nesse departamento. Às vezes, passamos dias tentando entender o que tornou um ambiente tão desagradável, enquanto todos os envolvidos afirmam estar colaborando. No filme, pelo menos, o Baixo Astral comparece devidamente identificado. E há uma Xuxa que pode sair à sua procura. A figura familiar da televisão atravessa um mundo fantástico, encontra criaturas e enfrenta situações que pertencem à lógica da aventura. O reconhecimento da protagonista ajuda a entrar no desconhecido. Sabemos quem está ali, mesmo quando o lugar já não obedece às regras da nossa sala. Esse encontro entre familiaridade e estranheza me interessa. Um filme infantil pode oferecer cor, música e figuras acolhedoras, mas também comportar ameaça, desconforto e personagens pouco interessados em preservar a tranquilidade de quem assiste. A aventura precisa de alguma resistência. Se todos fossem razoáveis desde o começo, Xuxo poderia continuar em casa e teríamos de preencher o restante da sessão de outra maneira. A fantasia dos anos 80 tinha suas maneiras muito próprias de dar aparência a essas coisas. Rever um filme daquele período também é reencontrar escolhas de cenário, figurino e efeitos que carregam a época em que foram feitas. O adulto percebe a construção, compara, estranha um detalhe. Às vezes, acha graça justamente onde antes a intenção era outra. Podemos olhar para isso com curiosidade. Uma obra antiga conserva modos de imaginar que já não são os nossos, embora tenham ajudado a formá-los. Há prazer em observar o que ela inventou com os recursos e as referências que tinha. Também não precisamos fingir que deixamos de perceber suas esquisitices para aproveitar a sessão. Eu gosto da possibilidade de assistir com os olhos que tenho hoje. Foram eles que chegaram até aqui. A criança que fui não precisa ser convocada para justificar cada preferência do adulto. O convite é voltar ao filme e descobrir o que acontece nesse reencontro. Em “Rir é o melhor remédio”, passamos pela alegria e pelos cuidados que ela exige quando alguém tenta transformá-la em obrigação. Aqui, o conflito ganha outro tamanho. O Baixo Astral age para produzir infelicidade e impedir uma iniciativa coletiva. Há uma diferença entre estar triste e empenhar-se em estragar a experiência dos outros. A aventura permite observar essa disposição sem precisar organizar uma reunião para discutir o clima do grupo. E a esperança, dentro dela, tem trabalho. Xuxa precisa partir, procurar, enfrentar o caminho. É essa movimentação que sustenta a história. A possibilidade de melhorar alguma coisa acompanha ações, encontros e dificuldades; quem assiste vai junto porque quer saber como a busca continuará. Para a nossa sessão especial, prefiro parar antes de contar demais. A chamada antiga soube fazer isso em poucos segundos. Eu já ocupei mais tempo e ainda tenho a vantagem de não precisar encaixar minha fala no intervalo comercial. Gosto de pensar que incorporar o filme aqui permite completar o gesto iniciado pelo locutor. A chamada deixou uma promessa suspensa em algum ponto do passado. Hoje, ela reaparece nesta página e encontra uma sessão à sua espera. Você pode preparar alguma coisa para comer, ajeitar o lugar e dar o play. Se já conhece o filme, talvez encontre um detalhe que havia esquecido. Se nunca viu, vai descobrir que espécie de aventura justificava aquela convocação tão segura da Sessão da Tarde. O terrível vilão está avisado. Quanto ao “daqui a pouco”, acho que já esperamos o suficiente. [O primeiro embarque](https://logosgrafia.com/2026/09/12/o-ultimo-voo-da-nave-a-musica-que-prometia-tudo/) · [Nostalgrafia](https://logosgrafia.com/category/nostalgrafia/) · [Acervo](https://logosgrafia.com/category/acervo/) · [Filmes](https://logosgrafia.com/category/acervo/filme/)
