# Maracangalha #22: Erguida sobre sandálias nuas

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/16/maracangalha-22-erguida-sobre-sandalias-nuas/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-16T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-31T13:45:11-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia em séries, Maracangalha, Publicações

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Maracangalha Capítulo 22 Por: Paulo Ricardo Zargolin O fim de tarde descia preguiçoso sobre Maracangalha do Sul. O calor, vencido por uma brisa fingida, cedia espaço a um ar morno, espesso — como quem sopra sobre brasas e não percebe. Na esquina da Rua Teixeira de Melo, entre o toldo gasto da livraria e o poste sem lâmpada, uma figura permanecia. Alta demais para passar despercebida. Erguida sobre sandálias nuas, corpo ereto, sombra vertical. Vestido vinho-seco, caimento preciso, óculos escuros. E nas mãos, um lenço dobrado com minúcia quase devocional. Era Dona Benta. Para alguns, uma senhora. Para outros, uma senhora demais. Inerte, como se o tempo à sua volta houvesse desacelerado só para acomodá-la. Na calçada oposta, Clara caminhava. Bolsa térmica pendendo do ombro, as alças já gastos pelo uso e pelos dias. Dentro, pasteizinhos — carne, queijo, lembrança. Oferecia com sua costumeira doçura cansada. “Boa tarde.” “São de forno.” “Quentinho ainda.” Do outro lado, Benta a observava. Mas não com ternura. Nem com raiva. Com algo mais difícil de nomear: uma espécie de vertigem interna, como quem vê um reflexo antigo e deseja que ele passe sem notá-la. Se Clara reparasse, veria apenas uma mulher alta, estranha, com olhos cobertos de vidro escuro e pés imóveis. Mas não reparou. Benta permaneceu — como uma sombra esculpida na calçada. Foi quando a porta da livraria rangeu. Laura saiu primeiro, rindo de algo que lera. Cristina veio depois — mais contida, olhos varrendo a rua. — Não gosto desse tipo de mulher — disse a tia, baixo, como se o ar tivesse ouvidos. — Que tipo? — perguntou Laura, ainda absorta. Cristina indicou discretamente com o queixo. — Essa aí… parada feito poste. Altiva. Observadora demais. Tem gente que parece que olha pra dentro da gente — e isso me cansa. Laura voltou os olhos. Benta continuava ali. Não sorriu. Não recuou. Não piscou. — Eu achei bonita — disse, simples. Cristina bufou, como quem desiste de convencer. — Bonita demais também fere. Caminharam. Não muito longe. Clara oferecia um pastel a um rapaz de bicicleta. O sol, cansado, começava a tingir o céu de rosa sujo. E Benta? Permanecia. Como um espelho antigo encostado no fim da rua. Como uma ausência com corpo. Ela estava ali. Não por acaso. Não por ninguém. Mas talvez — apenas talvez — por causa de Clara. Ou de algo que Clara carregava e não sabia. Ela estava ali. Não por acaso. Não por ninguém. Mas talvez — apenas talvez — por causa de Clara. Ou de algo que Clara carregava e não sabia. Foi então que o som de um chocalho de metal se misturou à brisa abafada da rua. — Olha quem eu vejo… — disse uma voz engordurada de malícia e riso. — Como vai, madame? E os negócios? Tonico do Pandeiro arrastava os chinelos como se dançasse, ainda que o samba lhe tivesse faltado faz tempo. Na mão, duas moedas. No peito, um colar com um botão de rosa artificial. Na boca, a alegria forçada dos que vivem de fingir que não dói. Benta se retesou. Não por medo. Não por desprezo. Mas pelo que ele carregava de ruído — e de aproximação indevida. — Faz tempo que não vejo a senhora por essas bandas — prosseguiu, alto demais. — Eu já dizia, essa esquina tava até perdendo o brilho… Ela não respondeu. Seu corpo permaneceu reto, mas algo em seus ombros denunciava o incômodo. Tonico avançou meio passo. Sorriu como quem entrega flor a quem não pediu perfume. — Tá calada? Vai me ignorar? Tô limpo, viu? Nem bebi hoje. Só vim saber se ainda vende seus encantos. A frase caiu pesada. Não por vulgar — mas por pública. Dita em tom de graça, de frente pra rua, diante de olhos que poderiam ouvir. Cristina olhou de soslaio. Laura fingiu não notar. Clara, por sorte — ou por milagre — conversava com uma senhora que comprava dois pasteizinhos e pedia troco miúdo. Benta virou o rosto. Quase imperceptível. Como se o vento tivesse empurrado seus olhos para longe. — Não devia me chamar assim, Tonico — disse, por fim. A voz seca. Baixa. Quase uma rachadura. — Assim como? — perguntou ele, sincero ou fingido. — De madame. — Ah… desculpe. Quer que eu chame de quê, então? — De silêncio. Tonico coçou o queixo, riu sozinho, e saiu com seu som de chinelo e riso frouxo. Sumiu dobrando a rua, como se levasse um pouco da paz com ele. Benta voltou à sua imobilidade. Mas já não era a mesma. Algo nela havia trincado.
