# funil 01: A cidade dos sonhos

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/22/funil-01-a-cidade-dos-sonhos/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-22T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-31T21:19:23-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Estudos de caso para mentes inquietas, laboratório, Publicações

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Por Paulo Ricardo Zargolin [ LABORATÓRIO • FUNIL #01 ](https://logosgrafia.com/laboratorio-2/) Quando criar também significa retirar Nem todo experimento do [Laboratório do Logosgrafia](https://logosgrafia.com/laboratorio-2/) registra aquilo que a inteligência artificial acrescentou a uma obra. Alguns começam justamente quando o autor percebe que criar exigirá fazer o movimento contrário. Este é o primeiro experimento com o funil: muita matéria entra pela abertura; somente parte dela poderá atravessar o gargalo. A matéria entrou larga pela boca do funil. Havia um sonho. Uma ciclovia atravessando uma cidade imensa. Escadas, escorregadores e tobogãs misturados à infraestrutura urbana. No centro, uma torre giratória colossal por onde passavam carros, ônibus, trens e pedestres. Os veículos entravam numa rota e podiam sair em outra, arrastados pelo movimento da estrutura. Pessoas se reuniam nos vãos para observar aquela engenharia impossível funcionando. Até que ela começou a não funcionar. A torre ficou sobrecarregada. Veículos demais. Pessoas demais. Um sistema inteiro aproximando-se do colapso. Na mesma noite, fora daquela cidade, havia acontecido outra história. O autor dormira profundamente, não acordara no horário habitual, não atendera telefonemas e não respondera mensagens. O celular havia caído entre o colchão e a cabeceira. Enquanto dormia, colegas começaram a procurá-lo. Duas pessoas chegaram a se deslocar em direção à sua casa para verificar se estava tudo bem. Era uma coincidência tentadora demais. A inteligência artificial percebeu imediatamente relações entre as duas situações: circulação e interrupção, sistemas em movimento, rotas alteradas, uma pessoa que desaparece do lugar onde deveria estar. Parecia haver uma crônica pronta. Não havia. A PARTIR DAQUI, O FUNIL ESTREITA ## Uma boa ideia também pode precisar ser retirada. Até aqui, duas histórias entraram juntas pela abertura. Na continuação, a bancada mostra o que aconteceu quando começamos a estreitar: versões completas foram recusadas, um clímax desapareceu e praticamente uma história inteira deixou de entrar na obra. Os bastidores metodológicos do Laboratório integram o acervo das Sementinhas. A assinatura libera este experimento e também os demais conteúdos exclusivos já publicados. [ CONHECER AS SEMENTINHAS ](https://logosgrafia.com/comunidade/por-que-ser-uma-sementinha/) ## Entrada larga A primeira função da IA foi ampliar. Interpretou a torre. Procurou relações entre suas partes. Transformou a descrição do sonho em uma imagem cinematográfica. Relacionou a cidade sonhada à movimentação que ocorrera na cidade real enquanto o autor dormia. Surgiu um título: Enquanto eu dormia. A hipótese parecia boa: narrar o sonho, acordar e revelar gradualmente a operação montada por outras pessoas para localizar alguém que, naquele momento, apenas dormia profundamente. A IA escreveu. O autor leu. E alguma coisa morreu no despertar. ## Primeira redução O problema não estava propriamente na qualidade das frases. A parte do sonho crescia. A cidade se tornava mais estranha a cada trecho. A torre aparecia ao longe, aumentava, revelava suas engrenagens, começava a acumular veículos e aproximava-se do colapso. Então o narrador acordava. E a narrativa encolhia. O que até aquele momento era uma cidade impossível passava a ser uma história sobre alguém que perdera o horário de entrar no trabalho. O diagnóstico veio antes da solução: “Quando entramos na realidade a coisa fica murcha.” Tentamos corrigir. ## Segunda redução A IA reorganizou a realidade para que ela também tivesse uma escalada. Primeiro o sol fora de hora. Depois o celular desaparecido. O horário informado pela Alexa. As chamadas perdidas. As mensagens. As pessoas tentando descobrir onde o autor estava. Até chegar ao possível clímax: o resgate de quem não morreu. O humor ajudou. Apareceram hipóteses menos administrativas, celulares que levavam o modo Não Perturbe às últimas consequências e um morto bastante vivo, sentado na cama de pijama. A versão ficou melhor. O problema permaneceu. Uma história pode ficar melhor escrita e continuar sendo a história errada. ## Terceira redução Veio então a recusa mais importante de todo o processo: “Acho que esta história é muito chata mesmo.” Não se tratava mais de consertar a segunda metade. Era preciso perguntar se ela deveria existir. A resposta foi não. Toda a operação de busca foi retirada. As ligações desapareceram. As mensagens desapareceram. Os colegas desapareceram. O atraso deixou de importar. A tentativa de explicar a correspondência entre sonho e realidade também foi eliminada. Com ela, caiu o próprio título. Enquanto eu dormia precisava das duas histórias. A narrativa que restava precisava apenas de uma. Nasceu: A cidade dos sonhos ## Gargalo Do acontecimento real sobreviveram apenas três elementos: o sol entrando indiscretamente pela janela; a procura inútil pelo celular; e a necessidade de perguntar as horas para a Alexa. Nada mais. Depois de uma cidade inteira, bastava isto: — Alexa, que horas são? — Bom dia, Paulo. São oito e quinze. A narrativa termina. A operação de resgate existiu. Foi engraçada. Foi verdadeira. Chegou a produzir boas frases. E mesmo assim não entrou na obra. ## O que o funil revelou A interação não produziu o texto apenas acrescentando linguagem. Produziu também excesso. Interpretações plausíveis. Relações interessantes. Uma segunda narrativa verdadeira. Humor. Clímax. Fechamentos. Explicações capazes de unir perfeitamente todas as partes. O trabalho autoral apareceu quando essas possibilidades deixaram de ser tratadas como conquistas que precisavam ser preservadas. O funil estreitou. Primeiro caiu a explicação. Depois caiu o paralelismo. Depois caiu o clímax. Por fim, caiu praticamente uma história inteira. O texto final não corresponde à possibilidade mais desenvolvida pela inteligência artificial. Corresponde àquela que sobreviveu às recusas do autor. ## Princípio observado Uma possibilidade não precisa ser ruim para ser retirada. Esse foi o dado metodológico produzido pelo experimento. Na escrita assistida por inteligência artificial, o excesso não aparece apenas na forma de clichês, erros ou frases inadequadas. Ele também pode surgir como boas soluções para um texto que não deveria seguir naquela direção. Uma metáfora pode funcionar. Um paralelo pode ser inteligente. Um clímax pode ser engraçado. Uma versão pode ser perfeitamente publicável. Nada disso obriga o autor a conservá-los. O julgamento não acontece apenas entre bom e ruim. Às vezes acontece entre: funciona e é isto que eu quero escrever? ## O instrumento Por que um funil? O tubo de ensaio permite observar uma experiência e isolar um procedimento. O funil trabalha de outra maneira. Na parte superior entram matéria bruta, acaso, perturbações, associações, hipóteses e possibilidades produzidas durante a interação. A cada estreitamento, o autor intervém. Recusa. Corta. Muda o problema. Abandona soluções. Retira até aquilo que funciona. Na saída não está necessariamente o melhor texto que a inteligência artificial conseguiria produzir. Está a matéria que conseguiu atravessar os critérios de quem escreve. No Funil #01, uma torre, uma operação de resgate, interpretações simbólicas e várias versões completas entraram pela abertura. Na outra extremidade saíram uma cidade, um quarto iluminado pelo sol e uma pergunta: — Alexa, que horas são? O Laboratório preserva aquilo que normalmente desaparece quando a obra fica pronta: tentativas, recusas, mudanças de método e decisões de autoria. [ VOLTAR AO LABORATÓRIO ](https://logosgrafia.com/laboratorio-2/)
