# A lenda de Majin Loo

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/26/a-lenda-de-majin-loo/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-26T18:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-31T21:51:51-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Logosgrafia é pop, Nostalgrafia, Publicações, Universos Paralelos

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Por Paulo Ricardo Zargolin — Você conhece a lenda de Majin Loo? Alexandre levantou os olhos do livro que estava organizando. Congo estava sentado no chão da [Biblioteca Viva](https://logosgrafia.com/estantes/), cercado por uma pilha de volumes que, até poucos minutos antes, ninguém parecia saber que existia. — A engolidora de maçãs? — Antes das maçãs. — Antes de ela ficar verde? — Muito antes. Alexandre fechou o livro. Conhecia aquele tom. Congo só começava histórias daquela maneira quando tinha encontrado alguma coisa que considerava importante ou quando pretendia desperdiçar a tarde dos dois. Às vezes, as duas coisas coincidiam. Congo abriu um volume pequeno, de capa gasta. — Majin Loo nasceu no Japão. Alexandre franziu a testa. — No Japão? — Sim. — Majin Loo? — A própria. — A minhoca pontífice? — Alexandre, quantas Majin Loo engolidoras de maçãs você conhece? — Nenhuma. Até hoje eu achava que era só uma personagem de história. Congo bateu de leve na página. — E o que você acha que estou lendo? Alexandre se aproximou. — Continue. Congo sorriu. Majin Loo nem sempre fora grande. Nem verde. Muito menos gorda. Durante boa parte da juventude, fora uma minhoca pontífice absolutamente comum — dentro, naturalmente, do que se pode considerar comum entre minhocas pontífices. Vivia sob uma cerejeira antiga, em algum lugar do Japão. Cumpria suas obrigações. Aconselhava criaturas subterrâneas. Mediava discussões entre formigas. Realizava cerimônias que ninguém mais compreendia direito. E, sobretudo, fazia perguntas. Majin Loo perguntava muito. Perguntava por que as raízes procuravam a terra enquanto os galhos procuravam o céu. Perguntava onde terminava um rio. Perguntava se uma minhoca continuava sendo a mesma minhoca depois de aprender uma coisa que não sabia. Perguntava também coisas bastante menos importantes, mas com a mesma solenidade. Certo dia, ouviu dois viajantes conversando sobre sete esferas espalhadas pelo mundo. Cada uma carregava estrelas em seu interior. Diziam que, quando reunidas, eram capazes de convocar um dragão. Não um dragão qualquer. Um ser antigo o suficiente para realizar desejos. Majin Loo escutou tudo em silêncio. — Ela acreditou? — perguntou Alexandre. Congo passou o dedo pela página. — Não imediatamente. — Melhor. — Demorou quase três minutos. Alexandre suspirou. No quarto minuto, Majin Loo já queria saber onde estava a primeira esfera. A busca levou muito tempo. As versões divergem sobre quanto. Alguns manuscritos falam em anos. Outros em meses. Há um documento bastante suspeito que divide a jornada em episódios e afirma que determinados acontecimentos demoraram muito mais do que seria razoável. Congo parou. Alexandre olhou para ele. — Isso estava escrito? — Aproximadamente. Congo prosseguiu. Majin Loo encontrou uma esfera no fundo de um rio. Outra repousava havia décadas num templo. Uma terceira servia como peso de papel para um homem que passou a vida inteira reclamando da própria falta de sorte sem jamais perceber o objeto mágico em cima da mesa. As outras foram mais difíceis. Mas Majin Loo tinha uma vantagem importante: era curiosa demais para desistir. Até que um dia as sete esferas estavam reunidas diante dela. O céu escureceu. As nuvens se fecharam. Um vento impossível atravessou a floresta. Majin Loo ergueu a cabeça. Do alto surgiu uma criatura tão gigantesca que, pela primeira vez em sua vida, ela se arrependeu de não possuir pescoço. O dragão perguntou: — Qual é o seu desejo? Majin Loo havia pensado sobre aquilo durante toda a viagem. Não queria riqueza. Minhocas possuem relação bastante limitada com moedas. Não queria governar o mundo. Já conhecia suficientes criaturas para saber que governá-las significaria participar de reuniões. Também não pediu vida eterna. Aquilo lhe pareceu uma maneira bastante longa de continuar sem respostas. Então respondeu: — Quero absorver todo o conhecimento possível. O dragão ficou imóvel. Talvez esperasse outra coisa. Majin Loo repetiu. — Todo o conhecimento possível. O céu brilhou. As sete esferas se ergueram. E Majin Loo sentiu fome. Não fome de terra. Não fome de folhas. Nem sequer aquela pequena vontade de roer alguma coisa que algumas minhocas experimentam quando estão nervosas. Era fome de saber. Naquela noite, encontrou um livro esquecido sobre um banco. Aproximou-se. Cheirou. Mordeu a capa. Não era particularmente saborosa. Mesmo assim, continuou. Comeu a primeira página. Depois a segunda. Depois a terceira. Quando terminou o livro, alguma coisa havia mudado. Majin Loo sabia a história inteira. Sabia os nomes. As datas. As palavras. Lembrava-se até de uma vírgula mal colocada na página quarenta e dois. Ficou maravilhada. No dia seguinte, comeu outro livro. Depois outro. E outro. Descobriu as bibliotecas. Foi quando começaram os problemas. Majin Loo atravessava cidades deixando estantes vazias. Comia romances no café da manhã. Atlas depois do almoço. Filosofia entre uma refeição e outra. Antes de dormir, preferia contos curtos porque dizia que facilitavam a digestão. Quanto mais aprendia, maior ficava. Seu corpo engrossou. Sua antiga forma alongada foi desaparecendo sob uma barriga cada vez mais redonda. E sua pele, antes discreta, adquiriu um verde intenso. — Por causa dos livros? — Há controvérsias — respondeu Congo. — Claro que há. Majin Loo sabia cada vez mais. Sabia nomes de estrelas. Sabia histórias de impérios desaparecidos. Sabia calcular distâncias. Sabia reconhecer árvores pelas folhas. Sabia centenas de palavras para coisas que jamais tinha visto. Mas descobriu um problema que ninguém lhe explicara. Para cada resposta que engolia, nasciam novas perguntas. Se aprendia como uma estrela se formava, queria saber de onde viera a matéria. Se descobria como uma palavra nascera, queria saber quem a pronunciara primeiro. Se conhecia uma história, queria encontrar outra. Então comia mais. E quanto mais comia, mais fome sentia. Majin Loo começou a acreditar que havia apenas uma solução: precisava terminar de aprender tudo. Foi assim que chegou à casa do homem. Havia livros por toda parte. Estantes. Pilhas. Papéis. Cadernos. Anotações. Rascunhos. Majin Loo quase chorou de felicidade. Comeu um livro. Depois dois. Três. Quatro. Quando levantou os olhos, viu um homem escrevendo. Esperou que ele terminasse. Arrancou a folha. Comeu. O homem começou outra. Majin Loo esperou. Comeu também. Ele escreveu uma terceira. Ela devorou. Então aconteceu uma coisa estranha. Enquanto Majin Loo memorizava a terceira história, o homem teve uma ideia para uma quarta. Quando terminou de absorvê-la, já existia uma quinta. E uma sexta. Uma lembrança puxara outra. Uma palavra havia sugerido uma imagem. A imagem trouxera uma pergunta. A pergunta encontrara uma história antiga. A história antiga acabara de produzir outra que, cinco minutos antes, simplesmente não existia. Majin Loo parou de mastigar. Observou o homem. Uma ideia. Outra. Mais uma. Novas sinapses se formavam diante dela como caminhos abrindo-se dentro de uma floresta. Majin Loo começou a comer mais depressa. Folhas. Cadernos. Bilhetes. Um pedaço de papel que encontrou no bolso dele. Era uma lista de compras. Comeu assim mesmo. Nada adiantava. A quantidade de coisas que ainda não existiam parecia ser muito maior do que tudo aquilo que já havia aprendido. Foi naquele instante que Majin Loo compreendeu seu verdadeiro problema. Ela havia imaginado o conhecimento como uma montanha. Uma quantidade enorme, certamente. Mas finita. Bastaria começar de um lado e continuar comendo até chegar ao outro. Agora percebia que estava diante de alguma coisa diferente. O conhecimento crescia enquanto ela tentava alcançá-lo. Uma história produzia outra. Uma pergunta abria três caminhos. Uma lembrança encontrava uma palavra e criava algo que não existira antes. Pela primeira vez desde que convocara o dragão, Majin Loo ficou assustada. Não porque soubesse pouco. Mas porque compreendeu que jamais saberia tudo. Foi então que ouviu falar de [Dom Logos](https://logosgrafia.com/estantes/logosgrafia-em-series/lia-no-pais-da-logosgrafia/). Alexandre interrompeu: — Agora sim. Congo levantou os olhos. — Agora sim o quê? — Essa parte eu conheço. — Eu esperaria. Majin Loo também conhecia o nome. Entre minhocas pontífices, alguns nomes percorrem distâncias maiores do que seus donos. Diziam que Dom Logos vivia num país difícil de encontrar. Um lugar onde palavras podiam abrir caminhos, histórias permaneciam vivas e certas maçãs tinham mais importância do que seria aconselhável para qualquer fruta. Majin Loo foi procurá-lo. Não encontrou mapa. Não encontrou estrada. Não encontrou placa. Encontrou uma maçã verde. Mordeu. E o mundo abriu passagem. Do outro lado estava Dom Logos. Majin Loo soube imediatamente que chegara ao lugar certo. Não precisou perguntar se ele era uma minhoca pontífice. Há coisas que minhocas pontífices reconhecem. Contou tudo. As sete esferas. O dragão. O desejo. Os livros. A fome. O homem que inventava histórias mais depressa do que ela conseguia engoli-las. Dom Logos ouviu sem interromper. Quando Majin Loo terminou, perguntou: — Como faço para absorver tudo? Dom Logos respondeu: — Não faz. Majin Loo ficou em silêncio. — Então o dragão me enganou? — O que você pediu? — Absorver todo o conhecimento possível. — E quem disse que o possível termina? Majin Loo não respondeu. Dom Logos caminhou até uma árvore e colheu uma maçã verde. — Você confundiu curiosidade com acúmulo. Entregou-lhe a fruta. — Querer saber não significa precisar possuir tudo o que existe para ser sabido. Majin Loo olhou para a maçã. — Então devo parar? — Não. — Comer menos? Dom Logos pensou. — Isso provavelmente seria bom por outros motivos. Majin Loo esperou. — A curiosidade logosgráfica é uma energia vital — explicou ele. — Se você tentar apagá-la, deixa de procurar. Se deixar que ela governe tudo, passa a devorar sem compreender. Majin Loo olhou para a própria barriga. Dom Logos continuou: — Não se trata de acabar com a fome. Trata-se de aprender o que fazer com ela. Foi assim que Majin Loo começou seu aprendizado. Dom Logos lhe ensinou a escolher. A parar diante de uma história. A relacioná-la com outra. A aceitar perguntas sem resposta. A compreender que conhecer não significava decorar. E, sobretudo, que aquilo que entra em nós não precisa permanecer igual ao que entrou. Uma história encontra uma memória. Uma ideia encontra outra. Uma pergunta muda quem a fez. Majin Loo descobriu então uma forma de conhecimento que jamais conseguiria engolir inteira. Porque ela própria participava de sua criação. Pouco a pouco, aprendeu a controlar a energia vital da [curiosidade logosgráfica](https://logosgrafia.com/laboratorio-2/). Não completamente. Isso seria pedir demais. Continuou comendo. Continuou crescendo. Continuou especialmente interessada em maçãs verdes, que pareciam ajudá-la a recordar a lição de Dom Logos. Mas deixou de tentar terminar o mundo. Desde então, conta a lenda, Majin Loo atravessa histórias. Às vezes aparece numa biblioteca. Às vezes num país distante. Às vezes em lugares que não deveriam possuir passagem alguma para o País da Logosgrafia. Onde encontra uma pergunta, aproxima-se. Onde encontra uma história, escuta. Onde encontra uma maçã… Bem. Alguns hábitos sobrevivem até à iluminação. Congo fechou o livro. Alexandre ficou alguns segundos olhando para a capa. — Então Majin Loo existiu mesmo? — É uma lenda. — Isso não responde. — As boas raramente respondem. Alexandre pegou o livro das mãos dele e folheou algumas páginas. Parou numa ilustração. Majin Loo aparecia enorme, redonda, verde e sorridente. — Congo. — Hum? — Tem uma coisa aqui que você não contou. — O quê? Alexandre apontou para a imagem. — Ela aprendeu artes marciais? Congo inclinou-se para enxergar melhor. — Ah. Virou a página, consultou uma pequena nota no rodapé e fechou novamente o livro. — Sim. — Com Dom Logos? — Não. — Com quem? Congo devolveu o volume à pilha. — Isso dizem que foi com um tal de Goku.
