# Prato da Noite #26 — Trabalho infantil

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/26/prato-da-noite-26-trabalho-infantil/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-26T23:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-30T15:21:38-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Palavra Curta, Prato da Noite, Publicações

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Marcel estava na praça quando percebeu a menina chorando atrás do banco. Devia ter uns oito anos. A mãe, celular em punho, repetia que faltava “só mais um take”, porque no anterior ela não parecera surpresa o bastante ao abrir a caixa de brinquedos enviada por uma marca. — De novo, filha. Agora sorrindo. A menina enxugou o rosto, voltou para a posição e tentou repetir uma felicidade que já tinha acabado fazia meia hora. Marcel observou em silêncio. Passara séculos assustando crianças, mas jamais tivera coragem de obrigá-las a trabalhar fingindo alegria. Aquilo lhe pareceu falta de ética profissional. 🍽️ O primeiro parágrafo é por conta da casa. O restante deste Prato da Noite é servido aos assinantes Sementes. [ Assinar e continuar a leitura ](https://logosgrafia.com/comunidade/por-que-ser-uma-sementinha/) Naquela madrugada, a mãe acordou com uma luz apontada para o rosto. Marcel estava ao pé da cama, segurando o celular dela. — Vamos gravar. — O quê? — Sua reação espontânea. Primeira tentativa: medo. Ela gritou. — Ficou exagerado. De novo. Marcel repetiu a cena às duas e quinze, às três, às três e quarenta e às quatro e vinte. Mandou que ela sorrisse, pedisse desculpas pela expressão cansada e agradecesse aos seguidores por “acompanhar esse momento tão especial”. Quando ela começou a chorar e implorou para dormir, Marcel aproximou-se. — Só mais um take. Prometo. Na manhã seguinte, a menina encontrou todas as luzes de gravação guardadas, os contratos de publicidade cancelados e o perfil infantil fora do ar. A mãe nunca explicou por quê. Apenas passou a perguntar à filha se ela queria brincar antes de pegar o celular. Marcel soube da mudança e ficou satisfeito. Não precisara devorar ninguém. Algumas pessoas não precisavam de castigo eterno. Bastava uma noite inteira trabalhando para descobrir que infância não é expediente.
