# Prato da Noite #31 — A uberização

- Canonical: https://logosgrafia.com/2026/10/31/prato-da-noite-31-a-uberizacao/
- Author: Paulo Ricardo Zargolin
- Published: 2026-10-31T23:00:00-03:00
- Modified: 2026-08-30T15:21:43-03:00
- Language: pt-BR
- Categories: Palavra Curta, Prato da Noite, Publicações

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A festa de Halloween na casa de Aline estava cheia quando Cláudio percebeu que as pizzas já passavam dos quarenta minutos de atraso. Conferiu o aplicativo três vezes, reclamou da taxa de entrega e anunciou que, no mínimo, exigiria desconto. Júlio permaneceu estranhamente calado. Só Laura percebeu. — O que você fez? — Nada demais. Uma piscadinha no farol. Duas falhas no painel. Talvez a moto tenha desligado num semáforo. — Júlio. — Eu achei que seria engraçado. Quando a campainha finalmente tocou, todos se prepararam para assistir Cláudio negociar como alguém que já redigira contratos muito piores. 🍽️ O primeiro parágrafo é por conta da casa. O restante deste Prato da Noite é servido aos assinantes Sementes. [ Assinar e continuar a leitura ](https://logosgrafia.com/comunidade/por-que-ser-uma-sementinha/) O motoboy entrou no portão pedindo desculpas antes mesmo que alguém reclamasse. Explicou que a moto vinha apresentando pequenas falhas elétricas, que precisara parar duas vezes no caminho e que ainda faria mais algumas entregas antes de poder encerrar a noite. Mesmo assim, conferiu cada caixa, percebeu que uma bebida estava faltando e insistiu que voltaria para buscar. — De jeito nenhum — disse Aline. Roberto pegou as pizzas. Vanessa trouxe um copo de refrigerante. Marcel perguntou há quanto tempo ele estava trabalhando. — Desde o almoço. Cláudio lentamente guardou o celular onde já abrira a tela de reclamação. Júlio olhou para Laura. — Eu não sabia. — Essa frase costuma chegar tarde — respondeu ela. O rapaz tentou recusar o convite, mas dez minutos depois estava sentado entre uma vampira, um demônio, um lobisomem, uma bruxa, um bicho-papão, uma múmia, um poltergeist, um zumbi, a própria Morte e alguns humanos, comendo pizza quente e contando que precisava juntar dinheiro para consertar a moto. Cláudio deixou uma gorjeta que preferiu chamar de “ajuste contratual”. Júlio prometeu nunca mais tocar em veículo de entregador. Quando alguém perguntou a Aline qual seria o prato daquela última noite, ela ergueu uma fatia. — A pizza. Hoje ninguém aqui está com fome de gente. Marta olhou para o motoboy, depois para o aplicativo ainda apitando no bolso dele. — Ainda bem. Porque, se formos jantar quem está explorando esse rapaz, vamos precisar pedir mais pizza.
