Por: Ana Maria Rodrigues de Souza
Mais um carnaval se aproximando. A juventude toda energicamente ouriçada, vai passando pela calçada de minha casa, não veem a hora de cair na folia, seguir o trio elétrico e só parar na quarta-feira de cinzas, porque, afinal de contas, ” quarta-feira é cinza”. Eh, juventude! Como eu gostaria de dizer-lhe que no meu tempo de jovem o carnaval era diferente! Mas, não era tão diferente assim, não! Nos carnavais sempre houve os excessos, eu é que não acostumava fazer uso de tais excessos. Se bem que… Lembro-me de uma aventura carnavalesca a qual fui protagonista e como todo bom carnaval tem que ter uma historia de amor (amor de carnaval).
Eu morava numa pequena cidade do interior, esquecida de tudo e por todos, onde a maior diversão era quando tinha briga na feira livre. Vira e mexe isso sempre acontecia. Era época de carnaval, os jovens ainda estavam em férias. Era nessa época que os parentes que tinham se espalhados pelo interior do Brasil voltavam para nos visitar.
No primeiro dia de carnaval, acordei muito desanimada, pois em minha cidade vivia-se um tédio. Acordei e ainda sonolenta, com os cabelos emaranhados, fui andando pela sala até a cozinha. Assustei-me ao ver que na sala estavam estendidas muitas redes (é costume no sertão nordestino ‘armar’ redes para que as visitas possam dormir, já que as casas são pequenas e modestas). Segui em direção a cozinha de onde vinha um grande barulho de pessoas conversando.
Eram meus tios que tinham vindo de Manaus para visitar os parentes mais próximos e pernoitaram em casa de meus pais e logo cedo seguiriam viagem até o aeroporto de Campina Grande. Quando meus tios me viram, me abraçaram, me beijaram e apertavam minhas bochechas como se eu ainda tivesse cinco anos. Que vergonha e que raiva! Será que eles não tinha percebido que já tinha crescido?
Junto com meus tios tinha vindo o filho deles, bem mais velho que eu, ele ficou observando tudo e sorrindo como se estivesse se divertindo com aquela situação. Eu fiquei mais envergonhada ainda e saí correndo com vergonha do acontecido e, mais ainda, de estar toda descabelada na frente daquele menino horrível (que nada!).
Meus tios viajaram por volta das nove da manhã e eu dei graças a Deus que eles foram e levaram aquele primo chato, feio e magricela que não parava de olhar pra mim e sorrir como bobo. O pouco tempo que ele ficou na minha casa foi só para me irritar e me tirar do sério. Ele implicava com meu jeito de andar, como o meu sorriso, com meu short curto. Na hora da despedida, eu tentei me esconder no quintal para não ter que abraçá-lo, mas mesmo assim ele foi me buscar lá dentro e gritou pra todo mundo que eu estava com vergonha de me despedir de todos. Enfim, foram embora!
Voltemos ao carnaval. À noite, meu irmão, que era casado, passou lá em casa para dizer que estava viajando para passar o carnaval na capital com a família, então eu implorei para o meu pai deixar eu ir junto. Meu pai deixou! Depois implorei pro meu irmão deixar eu ir com ele. Depois de muita insistência e de prometer que eu não iria dar trabalho e que iria ficar na casa de uma tia meio ranzinza, meu irmão concordou em me levar.
Fiz as malas num piscar de olhos. De madrugada chegamos à capital e meu irmão tratou logo de me jogar na casa de minha tia e me adivertiu: “Fique alerta, que na quarta-feira logo cedo venho te pegar pra gente voltar pra casa. Não vou admitir demoras, entendeu?” E eu, de pronto, respondi: “Sim, senhor General”.
Quando olho em volta, lá estava quem eu nunca imaginei encontrar por lá: o meu primo chato, que já não parecia tão chato assim… As três noite de carnaval com ele parecia um sonho. Entre “muriçocas e foliões”, nos beijamos pela primeira vez. Aí foi fácil cair no frevo. Então, percebi como três noites de carnaval passam rápido!
Amanhecemos a quarta-feira de cinzas à beira da praia de Cabo Branco, vendo os primeiros raios de luz de um dia cinza. Às sete da manhã, voltei pra o sertão e ele seguiu viagem para Manaus. Nos falamos uma ou duas vezes. Perdemos contato. Mas continuamos lembrando. E vivendo outros carnavais…
A autora é professora das séries iniciais na instituição EMEIF Luiz de Caldas, desde 2007. Está cursando o 4º período de Pedagogia na UFPB . Já lecionou no Colégio Compacto e no Instituto Eliseu Freires Mariz. Também foi professora de Educação Infantil no Cantinho de Walt Disney.
