Tributo às mamonas

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Falar da infância sempre nos traz uma sensação de puro e completo saudosismo. É corriqueiro que, somadas às lembranças reais de cada momento que vivemos, sejam tecidas memórias confusas e que, porventura, possam não ter tido, de fato, o grau que, agora, depois de adultos, atribuímos a elas.
De qualquer modo, verossímil ou não, o que importa é o que se sente em relação ao que se viveu e que, querendo ou não, ainda pode ser vivido.
Quando crianças, a tendência é viver. Viver sem fronteiras, sem crises, sem intolerância, sem juízo.
Mas nós, adultos, somos diferentes. Somos medíocres, frustrados, intolerantes, impacientes, ainda que tentemos controlar todas as angústias e, principalmente, atribuir a culpa a um demônio qualquer. Perdemos a inocência. Substituímos-na pela malícia. E isso não nos protege de nós mesmos. Não mesmo!
Lembro-me da primeira casa onde morei; não propriamente da primeira, mas da qual meus pais eram verdadeiramente os proprietários. Era uma casa de Cohab, simples, sem nada de interessante. Um bairro pobre, sem estabelecimentos comerciais, sem escola, com poucos vizinhos. Mas tinha uma mamoneira.
Eu, filho único à época, não usava os frutos para guerrear de brincadeira, embora já tivesse ouvido rumores sobre essa possibilidade. Mas o pé de mamonas que, posteriormente, deu lugar a uma pequena varanda, faz-me recordar de uma outra guerra: a guerra entre os homens, ditos civilizados, mas que são incapazes de compreender a essência uns dos outros.
O orgulho e a sensação de superioridade – seja por domínio de um conhecimento científico ou pela posse de fortunas, por convicções filosóficas e ideológicas ou ainda por crença religiosa – são e sempre serão um atraso na evolução.
Ninguém é mais que ninguém. Ninguém é menos que ninguém. E, desde crianças, vamos perdendo essa noção. É-nos incutido o desejo e a fé por ter uma vida regada ao moral e aos bons costumes para livrar-mo-nos dos infernos dos quais, pasme!, ninguém está livre.
Estaríamos livres se tivéssemos a sensatez de olhar para os nossos semelhantes sem desdém, sem se enxergar superior em relação a eles, sem arrogância. Mas, não, enquanto não desenvolvermos verdadeiramente a compaixão, estaremos sempre condenados. Não ao “fogo eterno”, que nem de longe seria um castigo plausível, mas ao nosso próprio inferno interior. Àquele que guardamos a sete chaves e escondemos de nós mesmos.
E, como se não bastasse, nós somos seres discursivos. Alegamos ser puros e compassivos. É, mas, pelo visto, não é só com as memórias infantis que precisamos tomar cuidado para não cair em fantasia! É também com as vivências, mais atuais: os nossos passos recém-trilhados. Quanta inocência e ignorância! Somos, decerto, sempre crianças?
Para o bem ou para o mal, lembro-me de outras mamonas. As assassinas. As crianças, puras ou não, cronologicamente maduras ou não, foram, em 1995, apresentadas a um grupo de jovens que usaram e abusaram da imaturidade humana. Zombaram das ideologias. Conquistaram todos os públicos. A irreverência deles nunca foi vista, nem antes nem depois. Eles viveram, sonharam, realizaram e morreram.
É uma pena que nem todos realizem seus sonhos antes de morrer. Muitos têm medo. Vivem na arrogância, na prepotência e na frustração. Pensam ser mais! Mas não o são! E a inveja e a intolerância não são boas conselheiras. Fazem com que se crie um estigma de que há apenas uma verdade, apenas um modo de ser feliz na famosa vida eterna. E, para tanto, começam a viver um inferno particular desde sua experiência terrena.
Ainda hoje, a Brasília amarela nos leva por lugares desconhecidos. De fato, a minha felicidade é ter um crediário nas Casas Bahia, minha TV de 42″ e meu notebook não me deixam mentir! 1406 lembra meu aniversário, 14 de junho. Também acredito que gay, hétero e afins são todos gente, porque, não importa se se é gótico, punk ou skinhead. E enxergo os portugueses como um povo que é essência da evolução do Brasil.
E, embora ainda tenhamos, enquanto brasileiros, muito o que fazer para se chegar a uma evolução, os Mamonas Assassinas foram vanguardistas. Expuseram o falso moralismo sob o qual construímos nossa arrogância e fizeram o que puderam para mostrar o quanto faz bem ser autêntico. Não usufruíram do dinheiro, nem da fama. Morreram cedo, mas tinha de ser assim. Ou Deus, para você, é inconsequente? Castigo é viver sem poder ser você mesmo, sem realizar os sonhos e sem ser feliz.
Quem não é feliz em vida não vai ser feliz depois da morte! Felicidade é um estado de espírito. Ou se tem ou não se tem. Minha TV de 42″, hoje, me dá a ilusão da felicidade. Mas eu também era feliz na casa de Cohab sob a sombra da mamoneira. Fui, sou e sempre serei!

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