Cinco anos depois: entre o sim e o não

Por: Paulo Ricardo Zargolin

Em 27 de junho de 2021, o Paulo Falante publicou seu segundo episódio. Depois da folha em branco que abriu o projeto, o caminho seguiu para um impasse talvez ainda mais cotidiano — e, por isso mesmo, mais difícil de resolver: a tensão entre dizer “sim” e dizer “não”.

Revisitar esse episódio, agora, é perceber como certos temas não envelhecem. Mudam os contextos, mudam as urgências, mudam até as formas mais sofisticadas com que aprendemos a justificar nossas concessões. Mas permanece o mesmo nó: a dificuldade de sustentar a própria vontade diante do olhar, da expectativa ou da pressão do outro.

Naquele momento, a abertura veio com Evidências, aqui em versão de Breaking Conspiracy, como porta de entrada para um conflito muito conhecido: o desencontro entre o que se sente e o que se consegue dizer. Há pessoas que dizem “não” querendo dizer “sim”. Há outras, talvez em número ainda maior, que dizem “sim” quando já estão inteiramente tomadas por um “não” que não conseguiram pronunciar.

E é aí que o episódio toca num ponto delicado: muita gente sofre não apenas por ouvir negativas, mas por não suportar a ideia de negá-las aos outros. Para evitar desconfortos, desgastes, constrangimentos ou culpas, vai cedendo. Primeiro em pequenos gestos. Depois em questões maiores. E, quando percebe, já não sabe mais se age por escolha, por hábito ou por medo de desagradar.

O pensamento autoral daquele programa ia direto ao centro do problema:

“Emitir uma opinião que não é verdadeira – para você – apenas porque vai agradar aos outros, é prejudicial para todo mundo; ainda que massageie um ou outro ego necessitado.”

Cinco anos depois, continuo achando que há muita verdade aí. E talvez hoje eu acrescentasse: não apenas no campo das opiniões, mas também no campo das decisões, das presenças, dos vínculos e dos silêncios. Dizer “sim” àquilo que nos violenta por dentro só para preservar uma aparência de paz costuma gerar um tipo de desgaste que, mais cedo ou mais tarde, cobra seu preço.

Na estrutura daquele episódio, havia ainda espaço para uma lembrança quase pedagógica e afetiva: a canção Sim, não, de Mariane, com letra de Eros Liebert, trazendo em chave simples uma lição que muitos adultos ainda não aprenderam a praticar com naturalidade. Saber consentir. Saber recusar. Saber reconhecer limites. Saber não transformar gentileza em submissão.

Também entrou em cena o filme Sim, Senhor (Yes Man), com Jim Carrey, usado como exemplo cinematográfico para pensar os excessos de uma adesão automática à vida. A premissa é conhecida: depois de aderir a uma espécie de filosofia do “sim para tudo”, o personagem vê sua rotina mudar radicalmente. Há humor, exagero e um certo encanto nesse movimento. Mas o próprio enredo logo mostra aquilo que o bom senso já suspeitava: aceitar tudo indiscriminadamente não é liberdade; pode ser apenas outra forma de descontrole.

Talvez uma das intuições mais importantes daquele episódio estivesse justamente aí. Nem o “não” precisa ser um monumento à dureza, nem o “sim” deve funcionar como senha automática de virtude. O problema nunca esteve na palavra isolada, mas no lugar de onde ela vem. Há “sins” generosos, honestos, desejados. E há “sins” exaustos, coagidos, defensivos. Do mesmo modo, há “nãos” violentos e egoístas, mas também há “nãos” necessários, lúcidos e até respeitosos.

Voltar a esse segundo episódio, depois de cinco anos, é reencontrar uma preocupação que continua muito atual: a de viver com mais consonância entre o que se pensa, o que se sente e o que se faz. Parece simples. Raramente é.

Ainda hoje, muita gente foi treinada para agradar antes de refletir, ceder antes de ponderar, adaptar-se antes de se escutar. Em muitos ambientes, sobretudo, o “não” continua sendo tratado quase como falha de caráter — quando, em diversas situações, ele é apenas o nome adulto de um limite legítimo.

Talvez por isso este episódio siga fazendo sentido. Porque ele não trata apenas de escolhas linguísticas ou de etiqueta emocional. Ele fala de autonomia. Fala de princípios. Fala dessa tarefa nada trivial de não entregar aos outros a administração completa da própria vontade.

Cinco anos depois, escutá-lo de novo é lembrar que maturidade não consiste em dizer “sim” para tudo, nem em sair distribuindo negativas como prova de independência. Maturidade, talvez, esteja em discernir. Em compreender quando a abertura é saudável e quando a recusa é necessária. Em perceber que respeito não é concordância automática. E que afeto, para ser afeto mesmo, precisa suportar a existência de fronteiras.

Abaixo, deixo incorporado o segundo episódio do Paulo Falante.

Que esta nova escuta nos ajude a reconhecer, com mais clareza e menos culpa, o lugar exato entre o sim e o não.

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One response to “Cinco anos depois: entre o sim e o não”

  1. […] o Paulo Falante chegou ao seu terceiro episódio. Depois da folha em branco do começo e do impasse entre o “sim” e o “não”, o programa avançava para uma palavra de aparência simples, mas de difícil assimilação […]

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