Lia no país da Logosgrafia
Capítulo 1
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Tudo começou na prainha da cidade.
Não era uma praia de verdade — nunca foi. Era um trecho domesticado de rio, com areia trazida de longe e algumas promessas de verão que insistiam em não se cumprir. Ainda assim, era ali que a cidade se reunia quando queria fingir que algo importante estava acontecendo.
Naquela noite, queria.
Um palco improvisado se erguia com esforço: madeira irregular, cabos aparentes, microfone que chiava antes mesmo de ser ligado. Ao redor, cadeiras de plástico, vozes cruzadas, crianças correndo sem saber exatamente o motivo da pressa.
Haveria um sarau.
Ou algo próximo disso.
A comunidade organizara tudo às pressas — mas com orgulho — para receber Hugo Monteiro, que voltava de viagem. Trazia consigo uma premiação recente e um novo título que ainda parecia grande demais para caber nele: fora nomeado para a Academia Brasileira de Letras.
Para a cidade, aquilo era quase um milagre.
Para Sofia, era só mais um retorno.
Ela observava tudo com um cuidado silencioso, como quem já conhecia o antes e o depois das coisas. Ao seu lado, as três filhas ocupavam o espaço de maneiras muito diferentes.
Emília fazia perguntas.
Perguntava sobre o palco, sobre o microfone, sobre o motivo de tanta gente reunida, sobre o que exatamente era um sarau — e, sobretudo, por que aquilo parecia importante para os adultos, mas não explicava nada para ela.
Alice não perguntava nada.
Encostada em si mesma, olhava o movimento com um certo cansaço precoce, como se já tivesse visto aquela cena outras vezes — mesmo sabendo que não.
Lia estava entre as duas.
Não perguntava como Emília.
Não rejeitava como Alice.
Observava.
Foi quando percebeu.
No cartaz preso de forma torta ao lado do palco, onde se lia o nome de Hugo em letras grandes, havia uma frase menor logo abaixo. Uma frase simples, dessas que ninguém lê até o fim.
Mas Lia leu.
E, ao terminar…
sentiu que a frase não terminava.
Ela voltou os olhos para o cartaz.
Leu de novo.
As palavras estavam no lugar certo.
A ordem fazia sentido.
Nada parecia errado.
E, ainda assim… havia algo ali que não se encerrava.
Como se a frase dissesse mais do que mostrava.
Ou escondesse mais do que dizia.
Lia piscou.
Por um instante, teve a impressão de que a última palavra demorava a se fixar — como se estivesse sendo escrita enquanto ela lia.
Mas, quando tentou olhar com mais atenção, tudo já estava normal.
Ou quase.
Ela não disse nada.
Só continuou olhando.
— O que você tá vendo? — perguntou Emília, já inclinando o corpo para acompanhar o olhar da irmã.
— Nada… — respondeu Lia, sem desviar.
Alice riu baixo, sem interesse:
— É só um cartaz torto. A cidade inteira cabe aí.
Lia não respondeu.
A frase ainda estava lá.
Mas agora… parecia menor.
Ou talvez fosse ela.
— Você leu? — insistiu Emília.
Lia assentiu.
— E?
Ela hesitou.
Não era difícil repetir a frase.
Difícil era dizer o que tinha acontecido com ela.
— Não sei… — disse, quase em segredo. — Parece que… não termina.
Emília franziu a testa, curiosa.
— Como assim não termina? Toda frase termina.
Lia olhou de novo.
Dessa vez, a última palavra parecia… esperar.
Como se não estivesse pronta.
Como se precisasse de algo que não estava escrito.
Ela engoliu seco.
E disse, sem saber exatamente de onde vinha aquilo:
— Acho que… isso é um logosgrafema.
As duas irmãs ficaram em silêncio.
Alice ergueu o olhar pela primeira vez, mais por estranhamento do que por interesse.
— Um o quê?
Lia não soube responder.
E, pela primeira vez naquela noite… também não tentou.
Mini Dicionário Logosgráfico
logosgrafema
substantivo masculino
Unidade mínima de sentido na logosgrafia; fragmento textual — palavra, expressão ou frase — que concentra densidade simbólica e interpretativa, ultrapassando o que está explicitamente escrito.

