Cargos passam; o que fica é a maneira como atravessamos os outros.
Por: Paulo Ricardo Zargolin
Algumas pessoas nos conhecem pela cadeira. Não pelo rosto. Não pela voz. Não pela maneira como atravessamos uma sala em dia difícil. Não pelo riso, pela hesitação, pela delicadeza escondida atrás da pressa. Conhecem-nos pela cadeira.
Fulano da escola tal. Sicrana do setor antigo. Beltrano da sala do fundo. A moça do protocolo. O rapaz da coordenação. A diretora. O supervisor. O professor. A secretária. O chefe. O substituto. O interino. O que era. O que deixou de ser. O que agora é outra coisa, mas continua preso, no imaginário alheio, à legenda anterior.
A vida profissional tem dessas crueldades discretas. A gente muda de sala, de função, de ritmo, de responsabilidade, de vista pela janela, mas alguém ainda nos guarda com o crachá antigo. Como se a existência fosse um arquivo mal renomeado. Como se a pessoa inteira coubesse naquele nome salvo às pressas no telefone: “Paulo Diretor”, “Ana RH”, “Carlos Obras”, “Marina Financeiro”.
E talvez haja nisso um tipo curioso de afeto. Um afeto preguiçoso, é verdade, mas ainda assim afeto. A memória humana gosta de etiquetas. Ela economiza mundo. Para não ter de reconhecer o outro todos os dias, cola-lhe uma placa no peito e segue tranquila: pronto, já sei quem você é.
Mas ninguém é tão simples assim.
Há uma beleza silenciosa em ver alguém ocupando outro lugar. A pessoa que antes atendia de um lado da mesa passa a decidir do outro. Quem pedia autorização passa a assiná-la. Quem observava de longe passa a conduzir a reunião. Quem parecia apenas compor o cenário, de repente, revela que também tinha enredo, preparo, desejo, coragem.
E então percebemos: os cargos mudam menos as pessoas do que revelam possibilidades que já estavam nelas.
O problema é que muita gente confunde cargo com essência. Quando sobe, acredita ter crescido por dentro. Quando sai, acredita ter diminuído. Quando vê o outro ascender, sente que perdeu alguma coisa, como se a promoção alheia fosse um furto particular. Há quem sente numa cadeira nova e imediatamente comece a falar com a voz do móvel. Há quem receba uma sala e passe a se comportar como se tivesse recebido um reino. Há quem esqueça que toda porta com nome na placa também tem dobradiça.
E dobradiça existe para lembrar que tudo se move.
A cadeira que hoje nos sustenta amanhã sustentará outro corpo. A mesa que hoje organiza nossos papéis amanhã acolherá outras mãos, outros vícios, outras canecas, outros silêncios. O computador herdará novas senhas. A gaveta guardará grampos de outra pessoa. O ramal tocará para outro nome. E o mundo, esse funcionário antigo e impessoal, continuará funcionando sem pedir licença à nossa vaidade.
Por isso, talvez a grande sabedoria das ocupações seja não se deixar possuir por elas. Ocupar bem um cargo não é acreditar que ele nos pertence. É entender que fomos chamados, por um tempo, a servi-lo com alguma decência. É entrar sabendo que um dia sairemos. É assinar documentos sem assinar a alma. É conduzir processos sem transformar pessoas em degraus. É lembrar que hierarquia organiza o trabalho, mas não autoriza a pequenez.
Porque cargo passa. Passa o crachá. Passa a chave. Passa a sala. Passa a senha do sistema. Passa até o tratamento cerimonioso de quem, ontem, sorria com cálculo e hoje mal sustenta o cumprimento.
O que fica é mais difícil de atualizar na agenda. Fica a forma como tratamos quem não podia nos oferecer nada. Fica o modo como falamos quando tínhamos poder para humilhar e escolhemos orientar. Fica a elegância de aplaudir a nova posição do outro sem sentir que a nossa história foi rebaixada. Fica a capacidade de olhar para alguém em nova função e reconhecer, sem inveja, que a vida também sabe promover cenas bonitas.
No fim, talvez amadurecer seja aceitar que ninguém deveria ser salvo definitivamente pelo cargo que ocupou. Nem pelo cargo que ocupa. Nem pelo cargo que ainda ocupará.
Porque, antes de qualquer mesa, há uma pessoa. Antes de qualquer função, há uma trajetória. Antes de qualquer placa na porta, há um nome. Esse nome mais fundo, mais antigo e mais verdadeiro, que nenhuma dança das cadeiras deveria apagar. O resto é mobiliário.




