Magenta! apresenta: #OJogo
Segunda parte — A mesa responde
Capítulo 6
Por: Paulo Ricardo Zargolin
A mesa começa a revelar sua lógica sem explicar suas regras. Com Lia agora presa à partida, Paulinho e Caio descobrem que nem toda pergunta é aceita, nem toda resposta esclarece, e que cada cadeira vazia pode já ter um nome esperando para entrar no jogo.
Lia não gritou.
Isso incomodou Paulinho.
Caio havia empalidecido, chorado sem perceber, tentado abrir porta, negado o impossível, xingado a mesa e quase transformado o pânico em piada.
Lia não.
Ela apareceu, respirou fundo, tocou a própria mão como quem conferia se ainda era corpo e depois olhou para a mesa.
Olhou de verdade.
Primeiro para a caixa aberta no centro.
Depois para as cartas presas.
Depois para as cadeiras vazias.
Por fim, para a inscrição que surgia lentamente na tampa:
Três respostas formam uma mesa.
Quatro iniciam a ordem.
— Isso tem ordem — ela disse.
Caio virou o rosto para ela.
— Você acabou de ser sequestrada por uma pergunta e sua primeira observação é essa?
— Minha primeira observação foi que você está branco igual parede — respondeu Lia. — Mas essa não ajuda.
Paulinho quase sorriu.
Quase.
A mesa, no entanto, não parecia interessada no quase.
Um traço magenta apareceu sobre a superfície escura. Fino, preciso, silencioso. Partiu da frente de Paulinho e seguiu até Lia.
Depois desapareceu.
Os três ficaram olhando para o lugar onde a linha não estava mais.
— Acho que você pergunta para mim — Lia disse.
Paulinho sentiu a garganta apertar.
— Por quê?
— Porque a mesa apontou.
Caio soltou uma risada curta.
— Claro. A mesa apontou. Que bom que a mobília resolveu participar.
A cadeira de Caio rangeu.
Ele parou de rir.
Lia manteve os olhos em Paulinho.
— Pergunta alguma coisa fechada.
— Fechada?
— Sim ou não.
Paulinho olhou para o Compartimento MAGENTA! diante dela.
A carta estava presa.
Invisível.
Fixada em alguma orientação que ele desconhecia.
Ele pensou nas cores.
Magenta.
Ciano.
Amarelo.
Preto.
Pensou também em outra coisa: se Lia respondesse, ele ainda não saberia se ela estava revelando a carta ou escondendo a carta ao contrário.
O jogo não dava respostas.
Dava respostas com sombra.
Paulinho respirou.
— Seu quadrante superior esquerdo é magenta?
A mesa ficou imóvel.
Então o lápis diante dele rolou até sua mão.
A pergunta havia sido aceita.
Lia encarou a própria carta, como se pudesse atravessar o suporte com os olhos.
Não podia.
Mesmo assim, respondeu:
— Não.
A palavra caiu sobre a mesa como uma peça.
Na folha de Paulinho, o quadrante superior esquerdo recebeu uma pequena marca.
Não era cor.
Não era certeza.
Era ferida.
Caio se inclinou.
— Então não é magenta?
Lia respondeu antes de Paulinho:
— Talvez.
Caio fechou os olhos.
— Eu odeio esse jogo.
— Você ainda nem começou a jogar — disse Lia.
— Esse é justamente o problema.
Paulinho olhou para a marca em sua folha.
Se Lia fosse honesta, o quadrante não era magenta.
Se Lia fosse blefadora, era.
A mesma palavra abria dois caminhos contrários.
O “não” de Lia não encerrava nada.
Pior.
Iniciava.
Caio bateu a mão na mesa.
— Minha vez.
Virou-se para Paulinho.
— Seu quadrante superior direito é preto?
Nada aconteceu.
A pergunta ficou suspensa por um instante.
Depois pareceu perder corpo.
Não houve marca.
Não houve som.
Não houve aceitação.
Caio olhou ao redor, ofendido.
— A pergunta morreu?
Lia observou a posição das cadeiras.
Depois olhou para a cadeira vazia à esquerda de Caio.
— Não era para ele.
Caio acompanhou o olhar dela.
A cadeira vazia estava quieta.
Quieta demais.
— Nem começa — ele disse.
A caixa no centro fez um som seco.
Na tampa, uma nova frase apareceu:
A pergunta procura o próximo lugar.
Paulinho sentiu o frio voltar.
Não dizia “o próximo jogador”.
Dizia lugar.
Caio empurrou o corpo para trás, mas a cadeira dele não permitiu muito.
— Eu não vou perguntar para uma cadeira vazia.
A folha diante da cadeira sem dono se mexeu.
Uma palavra surgiu, pequena:
Ainda.
Lia leu em voz baixa:
— Ainda.
Ninguém falou por alguns segundos.
A mesa pareceu crescer ao redor deles.
Ou talvez fossem eles diminuindo.
Um novo traço apareceu.
Dessa vez, ciano.
Partiu da frente de Lia e seguiu até Caio.
Ela segurou o lápis.
A mão tremia um pouco.
Só um pouco.
O bastante para lembrar que Lia não era coragem pura. Era medo organizado.
— Seu quadrante inferior direito é amarelo?
Caio ficou calado.
A mesa esperou.
O silêncio começou a pesar.
Não como impaciência.
Como prazo.
Caio percebeu também. A boca dele abriu antes da vontade.
— Sim.
A folha de Lia recebeu uma marca.
Ela anotou algo ao lado, rápido, pequeno, quase escondido.
Caio tentou ver.
A cadeira dele rangeu de novo.
— Ah, não. Agora tem cola particular?
Lia cobriu a anotação com a mão.
— Dedução minha.
— Estamos presos numa mesa sobrenatural e você já está competitiva?
— Estou tentando continuar viva.
A frase encerrou a piada.
Paulinho olhou para as duas marcas.
Uma resposta de Lia.
Uma resposta de Caio.
Duas palavras comuns.
Não.
Sim.
E, ainda assim, nenhuma delas era simples.
O jogo não perguntava apenas sobre cores.
Perguntava sobre pessoas.
A cor era superfície.
A resposta era comportamento.
A natureza era segredo.
A cadeira vazia à esquerda de Caio rangeu outra vez.
Dessa vez, mais alto.
Na folha diante dela, a palavra “Ainda” desapareceu.
O papel ficou branco.
Depois recebeu um nome.
DAVI.
Caio não respirou.
Lia olhou para os dois.
— Vocês conhecem?
Paulinho conhecia.
Caio também.
E talvez fosse justamente por isso que nenhum dos dois respondeu depressa.
Davi era amigo quando queria.
Rival quando podia.
Engraçado quando havia plateia.
Inteligente do tipo que fingia não perceber para usar depois.
Caio balançou a cabeça.
— Não chama ele.
O celular de Paulinho acendeu.
O de Caio também.
O de Lia surgiu sobre a mesa, embora ela não o tivesse trazido.
As três telas mostravam a mesma pergunta.
Você sabe guardar segredo?
Lia leu.
— Essa pergunta é para ele?
A cadeira de Davi rangeu.
Desta vez, pareceu rir.
Na tela, a pergunta mudou sozinha.
Você sabe guardar segredo, Davi?
Abaixo, surgiu o espaço para resposta.
Sim.
Não.
Caio sussurrou:
— Ele vai dizer sim.
Paulinho olhou para a cadeira vazia.
De algum lugar que ainda não existia ali, uma notificação chegou.
Davi estava digitando.
(continua)




